4 de junho de 2026

O que é resistir? O que é resistência? Por Fernando Horta

Não há povo, no mundo, que não saiba resistir. Entre eles, o brasileiro. Resistimos à escravidão, resistimos à pobreza de sociedades rurais, resistimos ao racismo

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Por Fernando Horta

Muito se tem falado, desde 2013 e os primeiros desafinos do golpe, que a esquerda tem que “resistir”. Mas, afinal, o que significa isto?

Pensar em resistência é rememorar a figura célebre de Victor Hugo e sua descrição das “barricadas”, na França do século XIX. “Os Miseráveis” é uma ode à resistência. Todos os personagens resistem ao que lhes é imposto, seja pela lei, seja pela sociedade, seja pela sua história. Fantine resiste a morrer sem um sentido, Cosette resiste a viver sem um. Marius resiste a seguir o que sua origem nobre lhe impunha, o pequeno Gavroche é a resistência em si, quando não aceita ser colocado na condição de criança com tanto em jogo.

Mesmo os Thenardier são resistentes. Numa sociedade nobiliárquica eles são sobreviventes com as ferramentas que têm. Éponine, filha dos Thenardier, resiste a ser tomada pela vida materialista e contra a lei dos pais. Javert e Valjean resistem aos seus destinos, os dois se apegando às virtudes próprias. No fim, Victor Hugo mostra que todos, sem exceção, sucumbem à finitude da vida humana. Mas não é por isto que não marcam o tempo presente com sua insubordinação.

Um olhar pela História e vemos resistência em todas as partes. Os escravos negros se recusavam a aprender o português. Tornavam-se inúteis para o capital que lhes tinham comprado. Gandhi liderou um dos maiores movimentos de resistência que se tem notícia. Desobediência civil, boicote a produtos ingleses e visibilidade pelas marchas e pelo pacifismo. Os judeus resistiram às barbáries nazistas. Palestinos resistem às barbáries de Israel. Eles ensinaram como fazer.

Mandela mostrou que resistir não é vencer. Resistir pode não significar sobreviver. Resistir é apenas não aceitar. Não aceitar uma ideia, não aceitar uma ordem, não aceitar uma imposição. Os exemplos de resistência vão desde Cristo até Marighela ou Guevara. Resistir é não ser dobrado. Resistir é uma ação presente. É saber que não há vitória possível contra alguém que se recusa a perder. Resistir é um ato político de máxima liberdade. Por vezes, ele se torna a única coisa que se pode fazer. E, então, é uma escolha fácil. Outras, é apenas uma entre muitas opções. A opção da resistência, entretanto, é aquela que nos mantêm livres. Ainda que fisicamente presos. Nos mantêm vivos ainda que sejamos mortos.

Resistir começa na ideia. Antes da ação física, resistir é não aceitar. No seu íntimo, não se dobrar ao que outros julgam “razão”, “honra” ou “destino”. Resistir nem sempre é gritar não. Resistir é também silêncio. Resistir não requer as ruas cheias, as bandeiras tremulando ou as vidraças quebradas. Resistir é não se resignar.

Não há povo, no mundo, que não saiba resistir. Entre eles, o brasileiro. Resistimos à escravidão, resistimos à pobreza de sociedades rurais, resistimos ao racismo e preconceito das elites, resistimos a um sistema que a todo momento nos tenta matar – seja pelas mãos dos criminosos ou pelas mãos das polícias. Resistimos a ser periferia capitalista, expropriada, explorada até o limite da resistência física. Alguns de nós decidem, até mesmo, não morrer de sede, quando eles deixam faltar água.

A resistência do brasileiro é a luta diária tão bem descrita em “Morte e Vida Severina” ou “Grande Sertão: Veredas”. Há resistência também em “O tempo e o vento”, “O cortiço” e etc. Temos várias estratégias de resistência. Desde a religiosidade até o esforço físico, tudo fazemos para resistir. Uma sociedade que nunca olhou para seus desfavorecidos assiste bestializada a resistência em papelão nas noites frias das ruas brasileiras. A resistência na cola de sapateiro que faz amainar a fome. Não se deixar morrer com pequenos furtos. Alimentar os filhos, com farinha, água e todo amor do mundo. Pedir um remédio ao traficante porque do governo só conhecem a madeira dos cassetetes.

Resistir ao descaso com bacias a estancar goteiras, com os corpos colados para evitar o frio ou queimando os jornais que dizem que está tudo bem, por um pouco de calor. Resistir é ocupar um prédio para ter um teto. Resistir tem um preço, e só quem resiste sabe o quanto é.

O golpe pegou a todos nós. Uns já passam fome, enquanto outros já perderam o emprego. Alguns de nós foram mortos, outros presos. Uns espancados a maioria ofendidos. Nos roubaram o presente, nos tiraram o Futuro e nós dizem que é isto mesmo. Que vai ser e ficar assim.

Eles não aceitam que resistamos. Resistir é um ato do presente. É não aceitar as coisas como estão. Resistir não é mudar. Resistir é individual, a mudança só pode ocorrer coletivamente. Mas não existe mudança sem resistência. A conjugação é simples: Eu resisto, tu resiste eles resistem, nós mudamos, vós perdeis, eles estão perdidos.

Confesso que parece que eles têm tudo. Parece que não há saída. E ao pensar que não há, somos vencidos. Deixamos de resistir. Hoje, eles ganharam quase todas as batalhas. Tomaram as instituições, tomaram as armas e o uso irrestrito da violência. Tomaram de assalto as leis e as transformam ao seu bel prazer. A isto junta-se o que sempre tiveram: o dinheiro a televisão, as fábricas e as terras. Parece que eles têm tudo. Matam a esmo, ferem sem nenhuma razão. Condenam sem motivo e prendem sem assombro.

É neste cenário desgraçado que se tornou o Brasil, na fronteira do fascismo, que temos que resistir. Eles querem nos dizer que está acabado. Que não há chances. Que não deixarão …

Uns querem nos vender a ideia do “único caminho”. Querem nos dizer que só há uma solução. E está solução parte da aceitação de que perdemos.

Martelam nos jornais e na televisão que está tudo normal e que as instituições estão funcionando. Mentem que o país “melhorou” quando, no fundo, nem eles acreditam. Apontam para o Futuro como se determinado fosse. Querem que você deixe de resistir e aceite o que já fizeram. “Não há saída”, dizem.

O que eles não entenderam é que estão completamente indefesos, pois a escolha é minha. A escolha é sua. Nós dizemos se aceitamos ou não.

Resistir é não aceitar o que nos é imposto. Resistir começa numa ideia.

E ainda que prendam esta ideia, eles estão indefesos contra a nossa decisão de resistir.

Eu não sei do Futuro. Eu não sei se venceremos. Mas sei que se resistirmos juntos, não podemos perder. Não podem nos vencer. Aliás, resistir já é dar-se a vitória. A vitória de que nossos algozes não nos tiveram cativos, não nos tiveram como apoiadores, nem por um minuto …

E não há cadeia, cassetete ou decisão judicial que possa mudar isto. Eles já perderam, apenas ainda não se deram conta disto. E esta é toda a nossa vantagem.

Fernando Horta

Somos pela educação. Somos pela democracia e mais importante Somos e sempre seremos Lula.

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Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

8 Comentários
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  1. Ataíde Coutinho

    20 de maio de 2018 2:49 pm

    Grande Fernando Horta

    No passado tinhamos de esperar o bolo crescer para supostamente ter direito a nossa fatia , hoje temos de esperar um futuro no final  de uma ponte em que  muitos ficam  e a sustentam por baixo e poucos a atravesam por cima .

  2. Renato Lazzari

    20 de maio de 2018 4:15 pm

    Resistir ao desejo de ser um “deles”

    Bom ponto, caro Fernando. “Eles” nos vencem quando, em vez de buscarmos alternativas ao que “eles” são, trabalhamos para tentar chegar onde “eles” estão. Resistir ao desejo de ser um “deles” é a única forma de vencê-los. Por exemplo, pensando em dinheiro, o dólar só nos vence porque queremos o dólar tanto quanto “eles”, ainda que nos contentemos apenas com um pouquinho. E “nós” os vencemos quando criamos alternativas ao dólar, já que o dólar é deles mas é a única coisa que só eles têm, controlam e emitem.

    Podemos fazer filmes, livros, artigos e discursos denunciando-os e às suas injustiças, eles não censurarão porque sabem que discursos não apenas não mudam nada como até ajuda a aliviar a tensão que as injustiças nos causam*. A única coisa que eles temem, que não admitem de jeito nenhum, é que os desprezemos e às soluções que eles nos propõem. Eles não admitem que não os consideremos líderes e modelos para nós. Por isso, se não conseguem impor liderança impõem terror. O único jeito de vencê-los é criando alternativas a eles e vivendo essas alternativas na vida prática, do dia-a-dia mesmo.

    Mas, afinal, quem são “eles” e quem somos “nós”? Essa é fácil: eles são os tais dos 1% e nós, os 99%. Eles crêem que só é possível se houver desigualdades, eles crêem que só funciona se houver clubes fechados pensando e agindo sobre “a massa”. Nós, pelo contrário, sabemos que só funciona quando todos nós estivermos incluídos, juntos e unidos mas não em torno do mesmo que eles têm e sim em torno de algo que só nós temos: alternativas ao que eles têm.

     

    * – Já viu que, diferentemente de antes, censura e violência física já não são mais tão necessários? É porque é fácil lutar contra o que está fora de nós. Lutar contra o que está dentro de nós é mais difícil principalmente porque muitos acreditam no que eles dizem, que lutar contra o que está dentro de nós é lutar contra nós mesmos. Mas nós sabemos que uma parte do que somos não é tudo o que somos, o fim de apenas um parte não é o fim do todo. Sabemos – ou pelo menos intuímos – que há alternativas e que, diferentemente do que eles dizem, a história não acabou.

  3. Lâmpada de Diógenes

    20 de maio de 2018 5:19 pm

    Resistir é muito mais…

    Resistir é ser: Ganga Zumba; Zumbi; Sepé Tiarajú; Malê revoltoso de Salvador; Cabano; Alfaiate; Frei Caneca; Filipe dos Santos; Tiradentes; Anita Garibaldi; Quebra-Quilo; Canudos e Conselheiro; Dragão do Mar; o Almirante Negro; Getúlio; Prestes; Lott; Alm. Othon;…

    Não se iluda, sobreviver não é resistir. Ser o último em Canudos, isso é resistir.

  4. layla

    20 de maio de 2018 6:15 pm

    Guerra Permanente a Populações – Population Centric COIN

    O Brasil celebrará 70 anos de contra-insurgência com pompa e circunstância.

    [video:https://youtu.be/NfU4i3Ox658%5D

     

    Contra-Insurgencia Centrada na População

  5. ze sergio

    20 de maio de 2018 8:11 pm

    o que é….

    “…Nós dizemos se aceitamos ou não…” Finalmente enfrentamos a resistência que nossas Elites Esquerdopatas tem em relação à Escolha Livre, Facultativa, Republicana, Liberal, Democrática. Finalmente vencemos esta farsa, fantasia, engodo, fraude imposta por tais Elites, juntamente com a ascenção da primeira das Ditaduras Militares: a Ditadura Vargas. Vencemos o Voto Obrigatório, vencemos a Biometria, vencemos a farsa ditatorial travestida em democracia. Tardiamente. Mas quem sabe o começo de uma nova era de Plebiscitos, Referendos, verdadeira representação politica. Quartéis Militares mancomunados com esta Esquerdopatia de Sindicatos Pelegos, Universidades Públicas paralisadas na Idade Média, controladas por Gestapos Ideológicas encerram seu ciclo. Por Fadiga do Material, pelo caixão, por aposentadoria, ou simplesmente pela  consciência brasileira em não mais acreditar em Caudilhismos, em Pai dos Pobres, em DomSebastianismos,… Tamanha fraude que criou desde Getulio Vatgas,  JK, Tancredoo Neves, Lula e a figura de uma esquerda desprovida de interesses pessoais e quase santificada por seus fanáticos seguidores. O fanatismo nos trouxe pela décima ou vigésima vez a esta Latrina Nacional, revelada em 2018. A consciência, liberdade e trabalho nos liberta. Como liberta o povo brasileiro em regiãos paupérrimas, escravizados pela fantasia de serem salvos por ‘abnegados’ e não por suas próprias mãos. A Agropecuária, covardemente rotaulada de Agronegócio, faz a transformação social, economica, politica em regiãoes onde só existiam Coronéis e seus feudos. E a eterna promessa da chegada de um Messias. Os Brasileiros destas regiões se libertaram por suas próprias mãos e trabalho. Se libertarão ainda mais por sua consciência e direito livre de escolha. “Do Povo, pelo Povo, para o Povo”. O restante é fraude e conversa de aproveitadores. Lobo em pele de cordeiro. 

    1. ze sergio

      21 de maio de 2018 11:50 am

      o que é….

      Liberdade nos liberta?! Consciência e trabalho.

  6. Esmael Leite da Silva

    20 de maio de 2018 10:54 pm

    Algumas vezes discordo do

    Algumas vezes discordo do Filósofo e escritor Fernando Horta, e esta não é uma delas, este é um discurso que aponta o caminho da resistência e porque ela tem de ser feita, reesistir quando tudo está contra nós, reesistir neste tempos que nos falta vida, reexistir, mesmo que seja como a suave brisa que se movimenta ate nos tornarmos um vendaval.

  7. ardaga widor

    21 de maio de 2018 6:37 am

    Expertos de 518 anos faltam …

    Jovem amigo Fernando:

     

    1) A equiparação do singular Holocausto com a apartheid e repressão violenta praticadas pelos que lideram Israel (através da palavra “barbáries”) não cabe. Muito menos pra quem “tem experiência na área de História”. Como, alias, tod@s que vivem ou já viveram.

     

    2) Numa ode à Resistencia (sobre tudo nas terras ditas brasilienses) não mencionar os Povos Indígenas no seu ano 518 de resistência … chamo até um lapso imperdoável. É a mãe de todas as resistências aplicadas daqui. Que começou antes do trafego transatlântico.

     

    3) No mais: parabéns pro escrito.

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