11 de junho de 2026

A indignação profética de quem ama, por Marcelo Barros

Foto Agência PT

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Jornal GGN – Nesta segunda-feira, dia 14, Lula recebeu mais uma visita espiritual. A permissão desta semana foi para o monge beneditino Marcelo Barros, que narra sua conversa com Lula. Leia a seguir.

A indignação profética de quem ama

por Marcelo Barros, monge beneditino

“Desde que a justiça liberou visitas religiosas, fui o segundo a ter graça de visitar o presidente Lula em sua prisão. (Quem abriu a fila foi Leonardo Boff na segunda-feira passada).

Eram exatamente 16 horas quando cheguei na dependência da Polícia Federal onde o presidente está aprisionado. Encontrei-o sentado na mesa devorando alguns livros, entre os quais vários de espiritualidade, levados por Leonardo.

Cumprimentou-me. Entreguei as muitas cartas e mensagens que levei, algumas com fotografias. (Mensagem do Seminário Fé e Política, de um núcleo do Congresso do Povo na periferia do Recife, da ASA (Articulação do Semi-árido de Pernambuco) e de muitos amigos e amigas que mandaram mensagens.

Ele olhou uma a uma com atenção e curiosidade. E depois concluiu: 
– _De saúde, estou bem, sereno e firme no que é meu projeto de vida que é servir ao povo brasileiro como atualmente tenho consciência de que eu posso e devo. Você veio me trazer um apoio espiritual. E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima e ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio._

Respondi que, nos tempos do Nazismo, Etty Hillesum, jovem judia, condenada à morte, esperava a hora da execução em um campo de concentração. E, naquela situação, ela escreveu em seu diário:

_“Eles podem roubar tudo de nós, menos nossa humanidade. Nunca poderemos permitir que eles façam de nós cópias de si mesmos, prisioneiros do ódio e da intolerância”._

Vi que ele me escutava com atenção e acolhida. E ele começou a me contar a história de sua infância. Contou como, depois de se separar do marido, dona Lindu saiu do sertão de Pernambuco em um pau de arara com todos os filhos, dos quais ele (Lula) com cinco anos e uma menina com dois.

Lembrou que quando era menino, por um tempo, ajudava o tio em uma venda. E queria provar um chiclete americano que tinha aparecido naqueles anos. Assim como na feira, queria experimentar uma maçã argentina que nunca havia provado. No entanto, nunca provou nem uma coisa nem outra para não envergonhar a mãe.

E aí ele prosseguia com lágrimas nos olhos: _Agora esses moleques vêm me chamar de ladrão. Eu passei oito anos na presidência. Nunca me permiti ir com Marisa a um restaurante de luxo, nunca fiz visitas de diplomacia na casa de ninguém… Fiquei ali trabalhando sem parar quase noite e dia… E agora, os caras me tratam dessa maneira…_

Eu também estava emocionado. O que pude responder foi:
– _O senhor sabe que as pessoas conscientes, o povo organizado em movimentos sociais no Brasil inteiro acreditam na sua inocência e sofrem com a injustiça que lhe fizeram. Na Bíblia, há uma figura que se chama o Servo Sofredor de Deus que se torna instrumento de libertação de todos a partir do seu sofrimento pessoal. Penso que o senhor encarna hoje, no Brasil essa missão._

Comecei a falar da situação da região onde ele nasceu e lhe dei a notícia de que a ASA (Articulação do Semi-árido) e outros organismos sociais estão planejando um grande evento para o dia 13 de junho em Caetés, a cidadezinha natal dele. Chamar-se-á _“Caravana do Semi-árido pela Vida e pela Democracia” (contra a Fome – atualmente de novo presente na região – e por Lula livre)._

A partir daquela manifestação, três ônibus sairão em uma caravana de Caetés a Curitiba para ir conversando com a população por cada dia por onde passará até chegar em Curitiba e fazer uma festa de São João Nordestino em frente à Polícia Federal.

Ele riu, se interessou e me pediu que gravasse um pen-drive com músicas de cantores de Pernambuco, dos quais ele gosta. Música de qualidade e que não estão no circuito comercial. 
Vergonha. Nunca tinha ouvido falar de nenhum e nem onde encontrar. Ele me disse que me mandaria os nomes pelo advogado e eu prometi que gravaria.

Distenção feita, ele quis me mostrar uma fotografia na parede na qual ele juntou os netos. Explicou quem é cada um/uma e a sua bisneta de dois anos (como parece com dona Marisa, meu Deus!).

Começou a falar mais da família e especialmente lembrou um irmão que está com câncer. Isso o fez lembrar que quando Dona Lindu faleceu, ele estava na prisão e o Coronel Tuma permitiu que ele saísse da prisão e com dois guardas fosse ao sepultamento da mãe. No cemitério, havia uma pequena multidão de companheiros que não queriam deixar que ele voltasse preso. Ele teve de sair do carro da polícia e falar com eles pedindo para que deixassem que ele cumprisse o que tinha sido acertado. E assim voltou à prisão.

A hora da visita se passou rápido. Perguntei que recado ele queria mandar para a Vigília do Acampamento e para as pessoas às quais estou ligado.

Ele respondeu:
– _Diga que estou sereno, embora indignado com a injustiça sofrida. Mas, se eu desistir da campanha, de certa forma estou reconhecendo que tenho culpa. Nunca farei isso. Vou até o fim. Creio que na realidade atual brasileira, tenho condições de ajudar o Brasil a voltar a ser um país mais justo e a lutar para que, juntos, construamos um mundo no qual todos tenham direitos iguais._

Para concluir a visita, propus ler um texto do evangelho e ele aceitou.

Li o evangelho do próximo domingo – festa de Pentecostes e apliquei a ele – os discípulos que estão em uma sala fechada, Jesus que se deixa ver, mesmo para além das paredes que fechavam a sala. E deu aos seus a paz, a alegria e a capacidade de perdoar no sentido de discernir o julgamento de Deus sobre o mundo. E soprando sobre eles lhes deu a vida nova do Espírito.

Segurei em suas mãos e disse: _Creio profundamente que isso se renova hoje com você._

Vi que ele estava emocionado. Eu também fiquei. Abri o pequeno estojo e lhe mostrei a hóstia consagrada que lhe tinha trazido da eucaristia celebrada na véspera. Oramos juntos e de mãos dadas o Pai Nosso.

Eu tinha trazido duas hóstias. Eu lhe dei a comunhão e ele me deu também para ser verdadeiramente comunhão.

Em um instante, eram vocês todos/as que estavam ali naquele momento celebrativo e eu disse a ele: 
_“Como uma alma só, uma espécie de espírito coletivo, muita gente – muitos companheiros e companheiras estão aqui conosco e estão em comunhão e essa comunhão eucarística representa isso._

Eu lhe dei a bênção e pedi a bênção dele para todos vocês.

Foi isso.

Quando o policial que me foi buscar me levou para fora e a porta se fechou atrás de mim, me deu a sensação profunda de algo diferente.

Senti como se eu tivesse saído de um espaço de liberdade espiritual e tivesse entrando na cela engradeada do mundo que queremos transformar.

Que o Espírito de Deus que a celebração desses dias invoca sobre nós e sobre o mundo nos mergulhe no amor e nos dê a liberdade interior para irmos além de todas essas grades que aprisionam o mundo”.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

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11 Comentários
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  1. Francisco Eduardo Pinto

    15 de maio de 2018 1:05 pm

    Bem aventurados os

    Bem aventurados os pequeninos, porque deles é o Reino de Deus. Viva Lula!

  2. Ale Nogueira

    15 de maio de 2018 1:10 pm

    Salve Lula, o Avatar da Era

    Salve Lula, o Avatar da Era de Aquário!

  3. Maria Luisa

    15 de maio de 2018 1:21 pm

    Como fazer para não odia-los…

    “E o que eu preciso é como lidar cada dia com uma indignação imensa contra os bandidos responsáveis por essa armação política da qual sou vítima e ao mesmo tempo sem dar lugar ao ódio.”

    A minha indignação cresce a cada dia que Luiz Inacio passa preso por essa fraude que foi montada pelo Brasil oficial contra o Brasil real. 

    Ontem ao assistir a inauguração da embaixada americana em Jerusalém vi que daquele lado estavam os homens e mulheres brancos e ricos deste mundo. Do outro lado, o mundo real. O povo pobre e humilhado à busca de um pouco de justiça nesta Terra que nunca muda.

  4. Edson J

    15 de maio de 2018 1:47 pm

    Cristãos

    Leonardo Boff, Dom Marcelo. Onde estão os outros cristãos do clero católico? Cristianismo está em falta?

  5. Marcos Videira

    15 de maio de 2018 1:55 pm

    Punição aos fascistas da PF e do judiciário

    Penso que os homens e mulheres justos devem exigir a punição de todos os criminosos do judiciário e da polícia federal que, utilizando o poder inerente às suas funções de Estado, cometem violências físicas e morais contra pessoas que apenas lutam pacificamente por Justiça Social.

    A impunidade não pode prevalecer. Contra os facínoras da PF e do judiciário o povo precisa aplicar uma Justiça exemplar, como consequência dos atos criminosos desses fascistas.

  6. Paulo P Ribeiro

    15 de maio de 2018 2:00 pm

    A queda do Bunker de Curitiba

    A queda do Bunker de Curitiba será a nossa Queda da Bastilha, Fascistas, aguardem!!!

  7. Serjao

    15 de maio de 2018 2:33 pm

    A Lenda, O Mito

    Só não é maior, ainda, que Che, King, Gandhi e Mandela, porque está próximo e vivo.

    VivaLula

    LulaLivre

    1. J. Dionizio

      15 de maio de 2018 6:14 pm

      Este comentário é o que mais temo

      É este tipo de comentário que mais me preocupa.

      Esta adoração cega ao Lula, como se fosse um lider espiritual iluminado, prestes a nos resgastar do caos.

      Esta ilusão perdura em muitos, como uma adoração questionável da esquerda sobre Getúlio Vargas, algo inexplicável, tendo em vista que ele, enquanto ditador, perseguiu este grupo.

      Enquanto o grupo que apoia o Lula viver preso ao seus feitos do passado, ignoram um futuro, ao vetar que outros possam continuar o seu legado.

      1. Serjao

        15 de maio de 2018 9:00 pm

        Lula sou eu, o povo, os filhos do estupro tomando as rédeas

        Lula e os feitos do PT não são o passado, são o presente arrancados na mão grande dos poderosos do mundo.

        lula-e-rainha-g20

  8. peregrino

    15 de maio de 2018 6:51 pm

    muito importante isso…

    é preciso dar vida amiga, amor, vida atenciosa e carinhosa, ao som dos passos no corredor

    1. peregrino

      15 de maio de 2018 6:56 pm

      para alguns de outros tempo…

      som de passos no corredor antecipava a dor…………………………….

      chegada de torturadores…………………………………………………………………….

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