
Enviado por Gilberto Cruvinel
CANTORIAS
Por Fernando Venâncio
O meu amigo Gil Fenerich fez obra valente. Pegou numa estância dos Lusíadas e traduziu-a para “Português brasileiro atual”. Eu mandei-lhe já o maior elogio em “emoji”, que o merece. E, levado na onda, fiz aí abaixo uma tradução para “Português europeu actual”.
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Das diferentes maneiras de se dizer a mesma coisa, usando a mesma língua, mas em modalidades diferentes:
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Camões:
“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta”
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Português brasileiro atual:
Cala boca aí vcs das antigas q seus rolê no mar e suas conquista não tá com nada, tá ligado? Agora eu falo o que é grande e importante de verdade, namoral, agora falo das vitória dos portugueses, que até Marte obedece, mano. Esquece tudo o q aqueles velhote falô q agora outra coisa mais melhor tá na área, se liga.
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Português europeu actual:
Parem lá com essas cenas dos gajos gregos e outros que tais, metidos a marujos, perceberam? Já chega desse paleio de Alexandres e coisos, à frente de magalas sem guito, pá. Eu cá mando umas bocas sobre a malta aqui, estão a ver? Até deuses e dianhos amochavam, desculpem lá. E essas cantorias do arco-da-velha, pazinhos, já há cá fados a mandá-las fiar assim prò pianinho.
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O Fernando Gomes (estava escrito nas estelas) não ia deixar mais esta fama por mãos alheias. Eis a sua versão (também no Português europeu actual) *.
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Os gregos e que tais calem a boca,
Que estou-me a borrifar pra essa gente.
Só têm é garganta, coisa pouca
Ao pé de quem foi sempre tão valente.
Desprezo essa cambada pataroca
Dos deuses e heróis de antigamente.
Que eles se lixem todos duma vez,
Que não há pai prò povo português
Anarquista Lúcida
10 de março de 2018 7:07 pmNao é mais a mesma língua…
Mesmo que nao se use(m?) variantes tao populares assim, mesmo a língua de cronistas, jornalistas, etc., já nao é mais a mesma. E nao sou eu quem digo, é uma sociolinguista que estudou a linguagem escrita atual do
Brasil, Maria Eugênia Duarte, professora da UFRJ.