4 de junho de 2026

Vida: Os 90 anos de Tinhorão

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José Ramos Tinhorão, que faz 90 anos na quarta (7)

Enviado por Antonio Ateu

na Folha

A jovialidade, o humor e as birras nada cederam à voracidade do tempo

por Janio de Freitas

Entre a mocidade e os 90 anos do Tinhorão há apenas uns quilos a mais e cabelos a menos. A jovialidade, o humor e as birras nada cederam à voracidade do tempo. Ainda na primeira metade desse percurso, porém, as variações da vida proporcionaram a correção de um desvio que atraíra Tinhorão. É verdade que, menos por gosto e mais por circunstâncias, Tinhorão se profissionalizou como jornalista. Bacharel em direito, no jornal escapou dos tribunais, mas não resistiu ao espírito do “Diário Carioca”.

Muito modesta se comparada ao jeito de repartição ministerial das Redações atuais, a do “Diário Carioca” tinha um atrativo único: eram horas e horas de recreio para adultos, muitos intelectualizados, todos identificados (sim, uma exceção de praxe) com o temperamento de um jornal que o trazia já no nome. Nos cinco anos, mais ou menos, em que o DC fez a imagem ainda vigente, o brilhante Tinhorão era o mais familiarizado, até por natureza, com esse ambiente em que se entrosavam o trabalho requintado e o bom gosto do humor refinado. Estava na sua praia.

Engano. A ocupação autêntica de Tinhorão estava fora do jornal e, mais ainda, do jornalismo. Suas companhias ao longo do dia e no bonde Urca eram Jean de La Bruyère, Étienne de La Boétie, Restif de La Bretonne e outros franceses dos séculos 16, 17 e 18, secundados por portugueses e brasileiros. A literatura e a pesquisa histórica eram o seu interesse. E muitas namoradas de ocasião.

Chamei Tinhorão para o “Jornal do Brasil” e lá instauramos um sucedâneo do ambiente DC que foi de grande importância para o sucesso do JB. Ao deixar o jornal, entreguei o lugar a Tinhorão. Apenas por justiça e certo de que a solução não duraria, incapaz de sobrepor a limitação intelectual do jornalismo, e do leitor médio, à inclinação do novo chefe para a erudição ativa.

A brevidade da experiência resultou positiva. Tinhorão dedicou-se mais à pesquisa histórica, alargou seu interesse com o estudo da formação musical brasileira e chegou a uma realização fundamental: foi a busca de Tinhorão que localizou e desencavou a abandonada Velha Guarda. A começar já de Cartola enfurnado em área relegada do centro do Rio. Daí veio uma restauração extraordinária, tanto musical como histórica, reconhecido o samba como expressão também social de um país repleto de discriminação.

A concepção materialista sujeitou Tinhorão a toneladas de críticas. Seu senso de humor nunca se perdeu por isso. As birras, idem. O jornalismo teria ainda uma oportunidade, com um convite chegado de São Paulo. Mas o redator carioca e o jornalismo paulistano não se adaptaram, mutuamente. Azar do jornalismo e dos paulistas. Tinhorão apertou mais o cinto, reduziu os gastos ao nível da sobrevivência, passou a viver em um apartamento-cubículo, usando saco de dormir —tudo para não ter mais emprego, ocupar o espaço com o material de pesquisa e expandir o seu brilho e a sua originalidade nos livros que logo o fizeram sucesso em Portugal. E no ranheta Brasil tanto tardaram ao reconhecimento merecido. Azar dos brasileiros.

Tinhorão aos 90 é uma ideia que não bate bem. Ano passado, estivemos juntos em um depoimento seu ao admirável Instituto Moreira Salles-RJ. Saímos juntos para conversar —e foi, com precisão, como se saíssemos fim de noite do “Diário Carioca”. Bem, isso não havia: Tinhorão mudava de mesa, até à porta, e de repente fugia, para não perder o último Urca.

AQUI TEM MAIS TINHORÃO: 

Tinhorão por ele mesmo, em detalhes

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6 Comentários
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  1. Maria Luisa

    7 de fevereiro de 2018 6:40 pm

    Bossa

    Tinhorão, gosta-se ou não, é um dos grandes pensadores brasileiros. Desses que como Callado, Cândido, Houaiss, Darcy, Milton Santos, vão aos poucos deixando esse Brasil meio deserto de ideias. E do saudavel bom humor e fina ironia.

  2. André Oliveira

    7 de fevereiro de 2018 6:56 pm

    O homem que acusou Tom Jobim
    O homem que acusou Tom Jobim de plágio.

  3. André Oliveira

    7 de fevereiro de 2018 6:58 pm

    Nunca perdoou Tom
    Nunca perdoou Tom pela”traição” de gravar um álbum com Sinatra, agente do Rio Sam.

  4. joel lima

    7 de fevereiro de 2018 7:14 pm

    José Ramos é, se não o maior,

    José Ramos é, se não o maior, um dos maiores pesquisadores da história da música brasileira. Só que o personagem Tinhorão muitas vezes esconde o pesquisador. Tinhorão vive pra provar que tal música de um tal compositor – principalmente aquele que ele não gosta, que acha que não faz música brasileira (como Tom ) – não passa de plágio. E aqui no blog do nassif, há um tempo já, Tinhorão disse que As Rosas não falam, de Cartola, era plágio de uma música de um jazzista americano. Ouvi a música e realmente é bem parecida a parte incial de ambas as músicas, mas pra afirmar algo grave assim, no mínimo, Tinhorão tinha que provar que haveria alguma chance de Cartoloa ter ouvido essa música e ela ter ficado no seu inconsciente. 

  5. Não é professor na ECA

    7 de fevereiro de 2018 9:01 pm

    Mais vale uma pesquisa na mão

    Mais vale uma pesquisa na mão do que alguém pra beijar (a mão). 

  6. Ricardo da Mata

    10 de fevereiro de 2018 4:18 pm

    Tinhorão é um simplório que

    Tinhorão é um simplório que nada entende de arte, só bate nas teclas gastas da “autêntica expressão popular” e do nacionalismo, como estes fossem padrões a serem seguidos…

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