A história da FAdeA, fábrica argentina que chegou a produzir um dos mais modernos aviões de guerra logo após o fim da Segunda Guerra Mundial

Jornal GGN – Assim como o Brasil tem a Embraer, a Argentina tem a Fábrica Argentina de Aviões (FAdeA), fundada em 1927, antes da brasileira, em 1969. Mas a história da FAdeA passou por altos e baixos, reduzindo a empresa de projetista de um dos mais modernos aviões de guerra do mundo, no governo de Juan Domingo Perón, para uma estatal que está berlinda hoje.
A reportagem à seguir, assinada por Luis Fajardo, da BBC Mundo, mostra que na década de 1950 a Argentina tinha em mãos o aeronave de combate Kurt Tank, desenvolvida inicialmente com o objetivo de ser supersônica, mas que conseguiu atingir 1.100 km/h, ainda assim considerada na época a tecnologia mais inovadora do mundo – especialistas revelam que os modelos lançados na mesma década, o Mig-15, da Russia, e o Sabre F-86, dos EUA, tiraram algumas ideia do argentino. Infelizmente o passo seguinte a produção do Tank não seguiu adiante por fatores políticos. O primeiro deles foi a saída de Perón.
Nos anos 1990, durante a série de privatizações do governo Carlos Menem, a fábrica foi privatizada. Em 2009, no governo de Cristina Kirchner, a empresa foi reestatizada mas nunca mais conquistou o mesmo aporte da dos anos 1950. Hoje, na gestão Macri, corre o boato de que a FAdeA pode se converter em um terminal para companhias de custo, mas o diretor, Sebastián Ugarte, negou a informação à BBC. Leia a seguir a reportagem na íntegra.
As intervenções da América Latina no mundo da indústria aeronáutica têm sido escassas e nem sempre afortunadas.
A indústria brasileira, com a Embraer, é o grande exemplo de uma empresa latino-americana que fabrica aeronaves de alta tecnologia que atraem os mercados mundiais, desde os jatos leves de passageiros até o avião de combate Tucano. Atualmente, a Embraer negocia uma possível fusão com a Boeing, o que poderia resultar em uma gigante global da aviação.
Mas há mais de meio século, outra empresa latino-americana estava à frente de um experimento ambicioso para entrar nas grandes ligas da aeronáutica.
Era a Fábrica Argentina de Aviões (FAdeA), empresa fundada em 1927 na cidade de Córdoba e financiada pelo Estado, que chegou a ter alguns dos projetos mais sofisticados do planeta, mas nunca decolou completamente e seguiu um relativo declínio que, de acordo com seus críticos, continua até hoje.
A era de ouro da FAdeA foi em 1945. A Segunda Guerra Mundial tinha acabado de terminar e dezenas de engenheiros que haviam servido à máquina de guerra nazista enfrentaram a perspectiva de uma nação destruída, sem indústria e, no pior dos cenários, um tribunal acusando-os de cumplicidade com a causa de Hitler.
Por isso, muitos partiram. Todas as grandes potências os queriam.
Os Estados Unidos, por exemplo, recrutaram Werner Von Braun, pai dos mísseis nazistas e o grande cientista por trás dos foguetes da Nasa (agência espacial americana), que eventualmente levaram o homem à Lua.
O pedido de Perón
A Argentina acabou sendo favorecida porque seus líderes haviam demonstrado simpatia pelo Eixo durante a Segunda Guerra, disse à BBC Mundo Santiago Rivas, especialista em história da aeronáutica argentina.
“Um dos primeiros foi Emil Dewoitine, um francês que trabalhou para os alemães durante a ocupação da França e, por isso, foi perseguido. Ele fugiu para cá e foi o primeiro a desenvolver um jato na América Latina, o Pulqui 1” , lembra Rivas.
Pouco tempo depois, chegou à Argentina Kurt Tank, uma das estrelas do projeto aeronáutico mundial, que esteve por trás de vários dos principais aviões do grupo militar nazista.
A Argentina o recebeu e encomendou grandes projetos, como era esperado de um país cuja riqueza, naquela época, superava a de muitas nações europeias.
“(O então presidente argentino Juan Domingo) Perón pediu a Tank que projetasse uma aeronave de combate supersônica”, diz Rivas.
Um esforço a que Estados Unidos estavam dedicados, mas contra o qual a fábrica argentina poderia competir, armada com os projetos de vanguarda vindos da Alemanha.
“Aqui nasceu o modelo conhecido como Pulqui 2, que voou em 1951. Nunca atingiu a velocidade do som, mas a 1.100 km/h alcançava o mesmo que um russo Mig-15 ou um Sabre americano F-86, o mais moderno do mundo na época. Na verdade, tanto o Mig 15 quanto o Saber tiveram algumas ideias tiradas do Tank”, explica Rivas.
A política
Mas o passo seguinte, a construção em massa desses modelos argentinos, nunca aconteceu. De acordo com alguns relatos da época, os alemães reclamavam que a infraestrutura industrial que tinham na Argentina era precária.
E, acima de tudo, a política interferiu.
Perón, um grande promotor do projeto, foi derrubado em 1955. Os financiamentos começaram a ficar escassos. Vários dos protótipos se envolveram em acidentes.
O Pulqui 2 estava pronto para produção em 1959. “Mas o que era um modelo novo já estava começando a envelhecer em comparação com as alternativas disponíveis”, diz Rivas. “Foi um projeto que durou dez anos de desenvolvimento quando a tecnologia avançava muito rápido. Quando nasceu, já competia com o Saber 86 ou o Mig-15, mas em 1959 ele compete com os supersônicos”, ressalta o especialista.
No final dos anos 1950, a Força Aérea argentina decidiu comprar um avião americano em vez do Pulqui. Algum tempo antes, Tank tinha levado seus projetos à Índia, onde conseguiu fabricar um avião em série.
Vaivém
A empresa FAdeA continuou sujeita ao vaivém político da história argentina. Eventualmente, alguns modelos menos ambiciosos foram produzidos, como o Pucará, um avião de turboélice que foi usado brevemente na guerra das Malvinas.
Na década de 1990, durante o governo de Carlos Menem, a fábrica foi privatizada para se tornar um centro de serviços da americana Lockheed.
Mas na década seguinte, quando Cristina Kirchner chegou ao poder, ela foi renacionalizada em 2009 e virou alvo de ambiciosos projetos- que, para Rivas, nunca tiveram base na realidade orçamentária da empresa.
Dizia-se que muitos ativistas políticos haviam sido contratados pela empresa, enquanto projetos para a produção de 40 aviões Pampa a jato, destinados às Forças Armadas argentinas, não saíram do papel.
Sob o atual governo de Mauricio Macri, as autoridades dizem que estão focadas em melhorar a situação financeira da empresa, reduzindo o grande déficit que enfrenta.
Mas algumas semanas atrás, alguns veículos de comunicação argentinos relataram planos para suspender permanentemente a fabricação de aeronaves na planta, dado o fraco desempenho comercial do Pampa.
Ambições
Debatia-se, de acordo com esses relatos, converter a fábrica e sua pista em um terminal para companhias aéreas de baixo custo. A FAdeA nega que esses planos existam. Continue lendo…
aureliojunior50
10 de janeiro de 2018 6:10 amINVAP
A FAdA ( Fabrica Argentina de Aviões Brigadeiro San Martin ) já se foi, sobrevive somente como uma fornecedora de partes e serviços para outras empresas, como a EMBRAER , aliás sua maior cliente, e vamos combinar, deixar claro, que a FAdA não tem nem um projeto próprio viavel desde do IA-58 Pucará do final dos anos 60, já o “celebrado” IA-63 Pampa sempre foi um projeto cedido pela Dornier como uma versão simplificada do Alphajet , dos anos 70. A “nova” versão 3 esta sendo produzida em escala quase artesanal, com apenas seis encomendas firmes da FAA.
Uma comprovação que a FAdA será paulatinamente reduzida a uma forncedora de peças/partes está refletida no recente acordo ( Maio passado ), no qual a européia Leonardo Aerospace ( antiga Finmeccanica ) irá aportar até US$ 20 Milhões para renovar certas instalações da fabrica.
O maior problema de soberania industrial argentino NÃO é a FAdA , um assunto já resolvido, mas sim o que está ocorrendo com o INVAP ( http://www.invap.com.ar ), um instituto de pesquisas muito importante com grandes realizações, inclusive é nosso parceiro em uma area muito sensivel ( nuclear ).
Paulo F.
10 de janeiro de 2018 12:03 pmPrego no caixão
Não se fala . mas a sensível (nos anos 50-60) tecnologia de fabricação de motores (leia-se motores a reação , turbinas para o populacho), foi o prego no caixão da fábrica dos hermanos. Lembremos que até os soviéticos se beneficiaram de projetos “compartilhados”.
Aqui em Pindorama aproveitamos o que nos foi possível com a FNM (devidamente torpedeada pelos gringos com ajuda dos mercadistas de então).
A Embraer foi filha dileta do ITA e do CTA, mas hoje os meninos que se formam no ITA encontram que lhes pague melhor no mercado financeiro….
E vale lembrar que o EMB-123 que não passou da fase de protótipo era uma iniciativa conjunta da Embraer e da FAdA.
O acordo de 95 com Lockheed-Martin (que visava recuperar os A4, pelo menos oficialmente) jogou por terra qualquer viabilidade da FAdA. A jogada da Boeing vai nesta linha, só que o tamanho da presa é muito maior!