4 de junho de 2026

Os Brasis: furar as bolhas!, por Arkx

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Os Brasis: furar as bolhas!

por Arkx

“O diálogo não é a conversa entre iguais, mas sim a conversa real e concreta entre diferenças que evoluem na busca do conhecimento e da ação que dele deriva. Diálogo é resistência.”

é preciso furar as bolhas. escapar delas, circular entre elas. visualizar outros pontos de vista. encarar outras perspectivas. dialogar com outros discursos. falar outras línguas. pensar fora da caixa. fugir da estreiteza das molduras. dar umas voltas. tomar um ar. viver.

as bolhas sempre existiram. elas são bem anteriores a web. a bolha virtual tem sua raiz nas bolhas do cotidiano. agora umas retroalimentam as outras.

comentário: ok! mas o que isto tem a ver com a situação atual do Brasil? nada! mas somente caso se olhe em torno e várias pessoas de camadas sociais diferentes não estejam grudadas no celular, até mesmo num vagão de metrô rumo a periferias soturnas e distantes.

o efeito-bolha na Internet é incessante. um algoritmo em constante adaptação e sempre se aperfeiçoando. a cada like. a cada compartilhamento. a cada google. a cada post.

sempre somos nós mesmos!

gerando gratuitamente os dados. apenas para alimentar o processamento que nos mantém aprisionados em bolhas de membranas espelhadas, refletindo um mundo customizado à nossa imagem e semelhança.

“Nós não vivemos, após 2008, uma brusca e inesperada “crise econômica”, nós assistimos apenas à lenta falência da economia política enquanto arte de governar, com a ascensão de uma nova ciência de governo: a cibernética.”

assim como a economia política reinou sobre os homens deixando-os livres para cuidarem de seus interesses, e a cada negócio que faziam se tornavam menos livres, a cibernética estimula a comunicação: quanto maior for nossa conectividade mais deixamos de interagir uns com os outros.

mas se há plena liberdade para se mover pelo ciberespaço do universo de hiperlinks, como sentir as correntes que ainda nos prendem?

comentário: as bolhas se encarregam de seu próprio serviço de patrulhamento interno. seus habitantes são cada qual policial dos demais. o terror é a norma. filtrar a admissão. adaptar os neófitos. expurgar os dissidentes. interditar o contraditório. eliminar a divergência. suprimir a crítica. não se espere a ascensão de nenhum outro fascismo, além daquele já em vigor em nas bolhas.

a sociedade em rede é um onipresente e onisciente panóptico distribuído, interconectando o concreto e o virtual, o digital e o analógico. as dualidades da economia política se transmutaram num sofisticado e complexo sistema de coleta e processamento de dados, capaz de executar controle e vigilância em regime de missão crítica 24×7.

ao mesmo tempo em que caem as fronteiras do Estado Nação soberano, ergue-se por toda parte uma teia molecular de infinitas delimitações e isolamentos.

sob a promessa de aproximar pessoas, nunca foram tantas as separações. nichos e guetos se proliferam. mesmo que os campos de concentração deste admirável mundo novo sejam percebidos como reconfortantes grupos de afinidades nas redes sociais.

“É possível imaginar o deserto humano que foi necessário criar para tornar desejável a existência nas redes sociais? O Facebook é seguramente menos o modelo de uma nova forma de governo do que a sua realidade já em ação.”

numa permanente Contra-Revolução Zumbi, a vampirização on-line da energia vital   mais do que reduzir pessoas a máquinas, como no paradigma do capitalismo industrial, ou mesmo transformar máquinas em pessoas, como sonham as mentes mais elétricas do Vale do Silício, constitui cada um de nós como ciborgues.

comentário: vide a invasão instantânea dos pokemóns, colocando uma horda de teleguiados para caçá-los, enquanto na verdade os usuários do jogo on-line estão é sendo caçados pelos artífices dos pokemóns.

se no paradigma da economia política o modelo de cidadão foi o de consumidor, no capitalismo cibernético passa a ser o de usuário. ao mesmo tempo multi sensor de input, dispositivo de saída dotado de processamento com armazenamento local e veículo driveless controlado à distância.

na IoT (Internet of Things) as pessoas são mais uma dessas coisas, assim a reificação se completa sob a égide C3I (Comando, Controle, Comunicação e Inteligência).

o capitalismo cognitivo e a informática de dominação estão reconfigurando as populações como CiB-Org, organismos cibernéticos formados por circuitos integrados e conectados ao sistema global de fluxos de informação.

comentário: o capitalismo se tornou logístico. parem as máquinas! não estarão tão preocupados. bloqueiem os fluxos! imediatamente aplicam a Lei Anti Terrorismo.

já não há “indivíduos” dentro de uma “sociedade”, e sim pontos de intercessão, nós numa imensa e complexa rede. tudo e todos são relações sociais. circulação e processamentos se cruzando e se interconectando incessantemente, gerando uma rede infinita como um fractal. em cada nó desta teia rizomática, nós mesmos surgimos, nossa subjetividade é produzida.

o sujeito passa a ser subsidiário dos fluxos e não seu autor.

eternamente plugados, como uma colméia de drones sem nenhuma rainha-mãe, o trabalho já não pode cessar. o trabalho se torna imaterial.

a completa negação do ócio vem com as próprias experiências de vida sendo ininterruptamente disponibilizadas na web, para sofrerem pronta monetização. a mercantilização da vida se completou. o tempo de vida coincide com tempo de trabalho não remunerado.

“O que se esconde, com a Google, sob a capa de um inocente interface, de um motor de busca de uma rara eficácia, é um projeto explicitamente político. Uma empresa que mapeia o planeta Terra, expedindo equipes para cada uma das ruas de cada uma das suas cidades, não pode ter objetivos estritamente comerciais. Jamais se faz cartografia daquilo que não se pretende conquistar.”

o confinamento solitário em bolhas transparentes experimentado como hiperconectividade, redunda numa avassaladora epidemia de ansiolíticos: os enxertos e implantes psicofarmacológicos indispensáveis para que todos estejam sempre ok. haja Rivotril!

prospera a indústria do bem estar. as técnicas de auto-ajuda e o coaching se popularizam. o evangelho da prosperidade promete o paraíso material e as seitas espirituais pregam a paz interior.

mesmo nas delegacias há psicoterapeutas. as discussões de relacionamento são feitas em grupo na web. multiplicam-se os programas de TV relacionados à saúde. os exames médicos periódicos se tornam rotinas obrigatórias na empresas.

comentário: um hemograma mais simples ou uma dosagem hormonal complexa se baseiam em faixas obtidas por estatística. o resultado fora destas faixas indica uma tendência a se desenvolver processos patológicos. entretanto, assim como a água ferve a 100º C apenas nas CNTP, as faixas estatísticas utilizadas nos exames não são válidas sob novas condições ambientais. assim, como distinguir uma tendência à patologia, sob os parâmetros anteriores, do que já pode ser um processo de adaptação as novas condições climáticas? quais seriam as faixas de “normalidade” para as novas condições climáticas?

por todos os lados o comando, o controle, a comunicação e a mensagem são os mesmos: conforme-se. resigne-se. não se rebele. fique bem. aceite. entregue. confie. morra, mas continue vivo. é assim que precisamos de vocês.

quase todas as citações e referências deste texto podem ser buscadas nos links abaixo:

“Fuck off Google”, Comitê Invisível;

La hipótesis cibernéticä”, Tiqqun;

“Antropologia do Ciborgue”., Donna Haraway Hari Kunzru Tomaz Tadeu.

vídeo: O Círculo – Trailer Oficial Legendado

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4 Comentários
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  1. Geraldo Tavares

    20 de novembro de 2017 6:09 am

    Discurso retrógrado
    Saudades do imaginário bucolismo feudal?
    Era um sistema socioeconômico muito mais violento e injusto do que o capitalista…
    Medo do progresso?
    TV e Internet são coisas do capeta?

    1. arkx

      20 de novembro de 2017 10:09 am

      os Brasis: furar as bolhas!

      go, go…

      .

  2. povobrasileiro

    20 de novembro de 2017 11:53 am

    deturpação da tecnologia

    É infinita a capacidade do capitalismo de destruir as possibilidades trazidas pela tecnologia.

    Desde o rádio, bem usado por muitos para educação e entretenimento saudável (ver BBC, e os programas educacionais da Austrália e da antiga União Soviética, combinando rádio com correspondência para ensino em todos os níveis), no Brasil dominado pela quadrilha futebol-novela-religião-submúsica; passando pela televisão, com ainda maiores possibilidades e maior deturpação, chegando à computação, na qual trabalho. São infinitas suas possibilidades de libertação, mas quase totalmente dominadas pela sua captura pelo capitalismo. Além do pokemon, o boicote ao software livre, o uso da Internet para campanhas dominadas pelo dinheiro, pela imbecilização das pessoas que passam o dia mandando fotos de todos os seus movimentos e vendo os de seus “amigos”, e destruindo também este conceito.Cada vez mais o tempo de computadores e comunicações é gasto em atividades inúteis ou perniciosas. Em vez de ajudar, a Internet mal usada atrapalha a educação, 

    Alguém mais jovem poderia das sugestões de como fugir a essa escravidão?

     

    1. arkx

      20 de novembro de 2017 5:25 pm

      os Brasis: furar as bolhas!

      -> chegando à computação, na qual trabalho.

      -> Em vez de ajudar, a Internet mal usada atrapalha a educação, 

      -> Alguém mais jovem poderia das sugestões de como fugir a essa escravidão?

      O Hacker normalmente é associado exclusivamente ao mundo das redes digitais ou, ainda pior, ao “terrorismo informático”, mas na realidade não tem nada a ver com isso.

      Um hacker é alguém que tem a curiosidade de criar algo novo ou resolver um problema, um apaixonado pelo saber-fazer, um bricoleur.

      Podemos pensá-lo também fora do mundo dos bytes, num sentido social mais amplo, como todo aquele que se questiona (sempre perante o fazer) como funciona isto, como se pode interferir no seu funcionamento, como poderia funcionar de outro modo. 

      E preocupa-se em partilhar os seus conhecimentos.

      Vivemos quotidianamente rodeados de “caixas negras”: infra-estruturas opacas que reduzem as nossas possibilidades e os nossos gestos a uma forma pré-estabelecida. Quando ligamos um electrodoméstico, quando pagamos a conta da água ou da luz, quando vamos a um supermercado…

      O capitalismo não triunfa diariamente por ter um discurso convincente, mas porque nos enreda materialmente nas suas caixas negras.

      O espírito hacker rompe o mundo natural estabelecido e normalizado, ao qual nos adaptamos como podemos, revelando o seu funcionamento, encontrando falhas, inventando novos usos, etc.

      “O código é a lei” diz uma máxima fundamental da filosofia hacker. É o código (técnico) e não a lei (jurídico-institucional) que define a realidade: o possível e o impossível, as limitações e as potencialidades, etc.

      Os hackers acessam o código, isto é, o que está por detrás das superfícies; ajustam e alteram as técnicas colocando-as ao seu dispor.

      Tudo isto não só para eles, mas para a utilização de todos.

      A REVOLUÇÃO COMO PROBLEMA TÉCNICO. DE CURZIO MALAPARTE AO COMITÉ INVISÍVEL

      .

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