Por alexis
Ao observar todos estes episódios de rolezinhos e, ainda (embora parcialmente) as manifestações de junho passado, além de outros numerosos indícios (pichações, brigas nos estádios, etc.), conclui-se que falta à juventude espaço para se manifestar e para ver mais gente, ou seja, para viver a vida “ao vivo”. O mundo virtual da TV e da telefonia móvel não substitui essa necessidade nem é suficiente para prender o jovem em casa. O jovem está sufocado pelo espaço, pela obrigação de ter sucesso, pela necessidade sair bem na prova, de ganhar aquela vaga, mas, os seus hormônios gritam por companhia de amigos, por paquera, por correr de carro, por testar o seu sexo, por ser um pouco “rebelde”, por mostrar habilidades aos colegas, etc. Esporte é hoje para pop-star que ganham milhões. Acabou o interesse pela pelada de final de semana ou de sair a correr por aí. Nem espaço tem mais, nem na rua nem na arquibancada, pois está tudo caro, até para torcer por outro. A obesidade é crescente nos jovens. A população brasileira duplicou e, em compensação, a média nos estádios caiu para menos de ¼ do que era nos anos do bom futebol. Eu tive um conjunto de bossa nova, em Belo Horizonte, que conseguiu levar 504 pessoas numa apresentação simples numa terça-feira (media de 300 pessoas durante vários anos). A última sessão foi suspensa por um senhor importante que morava a dois quarteirões e que ligou para a polícia por conta da Lei do Silêncio. Esse e centenas de outros barzinhos fecharam.
Que aconteceu nestes últimos 50 anos? Woodstock nunca mais?
ENTRA Por um lado, avança a tecnologia (que nos individualiza) e o mercado de consumo, com o objetivo de nos prender em casa e consumir mais, em forma isolada. Fazemos compras pela internet. Não sabemos nem falar (muito menos escrever) direito o português. A vida coletiva quase não existe. As famílias são atomizadas, justamente visando à multiplicação do numero de entes consumidores. O mundo virtual de hoje nos divide, nos seduz, e nos faz viver isolados como bichos consumidores e carentes. Ouvimos músicas no youtube. Vivemos uma vida virtual, sofrendo ou rindo com personagens de novela de TV. Soltamos as nossas energias olhando lutas MMA. Trocamos a caminhada no parque por um vídeo game.
SAI O poder público, erradamente a meu ver, segue a onda da economia global, contribuindo para nos tirar da rua e prender em casa, fomentando o nosso ócio e solidão. A violência e a criminalidade nos afastam das ruas. Quem cuida da violência e da criminalidade parece que acha bom este ”toque de recolher” que realmente vivemos. A Lei do Silêncio tira o direito de milhares de pessoas que querem manifestar alegria, num barzinho, a se submeter ao “direito” de tranqüilidade de uma única pessoa que ligou para policia. O comércio se escondeu em shopping Center e o shopping Center se esconde da juventude. Os parques têm grades. As cachoeiras têm dono. As músicas têm direitos autorais. As nossas manifestações cívicas são politizadas por poucos aproveitadores ou servem de cobertura a bandidos saqueadores. Foi-nos tirado o direito de viver a vida “ao vivo”.
ALGUMAS IDEIAS
- As autoridades devem compreender melhor o problema;
- Tolerar e deixar mais espaço para a juventude se expressar – enquanto são revisadas as políticas públicas pertinentes;
- Desenvolver iniciativas para permitir aos jovens voltar a ocupar o seu tempo, os espaços e as ruas, canalizando a sua energia em forma positiva e cívica;
- Melhorar o transporte público e procurar opções para incentiva a deixar os carros em casa;
- Reformulação das policias, tirando-as da atual relação próxima e às vezes promiscua com o crime, e aproximando-as das pessoas de bem, fazendo com que a população engajada com a polícia e com o bem comum, no seu conjunto, seja a melhor ferramenta contra o crime;
- Escola: Integral, com artes, cultura geral, esportes e recreação, saúde e alimentação;
- Esporte: Política nacional utilizando como elemento irradiador as universidades federais e, junto com elas, penetrar em colégios e escolas. Educação física obrigatória nas escolas. Campeonatos coordenados e planejados pelas universidades de cada área: inter escolas, inter colégios e até universitários – estes últimos em nível nacional; com torcidas, bandas e até meninas “animadoras de torcida”. Fazer ao jovem praticar e viver mais o esporte;
- Serviço cívico-militar: Trazer à juventude para a construção do país. Cursos técnicos profissionalizantes, atividades comunitárias, estudantes de medicina no interior, etc. Um serviço militar bem servido, qual fosse um mutirão cívico, irá fornecer ao jovem disciplina, amor ao Brasil, e a receita com a qual os chineses são hoje a maior potência econômica do planeta. O jovem vai parar de pichar muros e de jogar lixo na rua e, quem sabe, até parar de cheirar e fumar bobagens;
- Saúde: Encher de médicos cubanos até que as escolas de medicina do Brasil comecem a tomar vergonha;
- Revisar Leis que estão na contramão, tornando elas mais adequadas para esta cruzada. Priorizar direitos de todos ao invés de submeter à maioria da população a super direitos de pequenas minorias. Parques e jardins abertos. Estimular o turismo e caminhadas em áreas rurais próximas dos centros urbanos. Com esta moda de atender apenas às minorias, o país esqueceu-se da sua maioria silenciosa, que hoje explode de reivindicações por todas as partes. Novas Leis têm agido como tesouras cortando assas da gente comum, que não fala, mas que vota e que se revolta algum dia.
- A nação deve olhar e proteger minorias, sim, mas visando a sua inserção nesta cruzada nacional e não criando apartheid para cada minoria pedinte por super direitos.
Posso ter-me excedido em alguns pontos ou posso ter errado em algumas definições, mas, alguém mais preparado do que eu, principalmente no Governo, deveria aprimorar esta análise.
Agradeço a quem chegou até aqui com a leitura (rs, rs, rs)
Theolg
19 de janeiro de 2014 6:37 pmBoas ideias, alexis.
Comecei
Boas ideias, alexis.
Comecei ficar isolado com a tecnologia invadindo minha vida e em 2014 estou testando um novo sistema (metas nao funcionam. Monte o sistema e execute):
Toda semana tenho que participar de pelo menos um evento: aula gratis de algo que soe interessante, meetup, palestra, curso, jogo de futebol, happy hour com colegas de trabalho, qualquer coisa. A ideia eh sair de casa e conversar, viver o mundo real.
Gregório Macedo
19 de janeiro de 2014 9:47 pmNo blog domacedo.blogspot
Alexis, publicarei seu post em meu blog, pelo que agradeço desde logo. Não concordo integralmente com as opiniões expostas, mas louvo sua iniciativa.
Um abraço.
alexis
19 de janeiro de 2014 9:50 pmObrigado
Obrigado Gregório.
Não tenho a competência suficiente para gerar um diagnóstico e uma solução correta, para um país desta dimensão. Deve existir gente bacana, dentre os seus associados, que possam enriquecer este assunto.
Agradeço a gentileza.
Pinto
19 de janeiro de 2014 11:38 pmParabéns
Parabéns, Alexis.
Compartilho em cheio com seu pensamento. Obrigado por expressá-lo por aqui.
Lucinei
20 de janeiro de 2014 12:47 amAlexis,a sua intuição – e
Alexis,
a sua intuição – e argumentação – é precisa. Essa sociedade televisiva na qual as pessoas só dialogam sobre o que “viram” na tv está “por fora”. Pretextos de conversação são uma coisa, coerção sobre o que deve ser falado e pensado é desespero demais de pessoas, como você salientou, muito desacostumadas a falar com os outros.
Uma das explicações – diria até razões – da queda de audiência das tvs, sobretudo da rede goebbels, é o aumento da renda e da auto estima de muita gente que não aguenta mais ser tratada como ralé que está ali pra engolir o que alguém que decidiu que é a cara deles o que foi posto na tv.
Pelo “subúrbio” do rio, por exemplo, em pleno horário de jornal nacional e novela não é raro ver gente na porta de casa – sim, com mesa e cadeira e tudo – ou fazendo um churrasquinho ou com uma panela de cozido, ou, sei lá, uma sirizada – e com uma cerveja sempre à mão e sempre aos risos – mas, com o “som” ligado, tocando, sei lá, beyoncé, rap…
Piora, em vez de melhorar quando o dono do buteco da esquina “contrata” uma rapaziada pra tocar uma samba. Eles, em vez de começarem a tocar no “miudinho” e dar tempo pro samba crescer, não: querem “dar show”; botam o som alto pra caramba; cavaquinho agudão, parecendo vidro quebrado; e, pior, tocando a musiquinha do jabá do faustão, haha…
Não dá certo… É melhor fazer a brincadeira “em casa”, haha.
De brincadeira, dizem que a bossa nova foi consequencia dde tocar e cantar baixinho nos aps de ipanema…
Fernando Lopes
20 de janeiro de 2014 1:21 amSó um comentário…
Alexis,
Concordo com você em quase tudo, e por coincidência sou músico e de Belo Horizonte também. Então sei bem como a “lei do silêncio” expulsou a música dos bares para trocá-la pelo futebol transmitido pela TV (MAIS BARULHENTO) mas como vem pela mídia ninguém pode reclamar do barulho.
Mas discordo da crítica ao direito autoral !! Direito autoral não é restrição de manifestação artística. É somente pagamento ao autor pelo uso de sua obra. Você colocar o direito autoral como restrição vai ainda contra ao que se preza no meio virtual que é não respeitar o direito autoral. E não por causa de alguns reais por mês que o bar deixou de ter música !! Foi porque a massificação da mídia em cima do futebol fez o loobie perfeito. Música ao vivo não dá dinheiro para Globo!!
Repense e reveja este detalhe no seu post e ele ficará muito mais coerente!
alexis
20 de janeiro de 2014 11:27 amObrigado Fernando
É verdade. Foi apenas um desabafo e posso ter me excedido em muitos pontos.
Mas, o tema vale a pena ser abordado por gente mais entendida. Teremos pela frente mais rolezinhos ou problemas com a copa e o Governo precisa compreender melhor a natureza destes movimentos e extrair deles o lado positivo.
Durvaldisko
20 de janeiro de 2014 1:47 amLei do Silêncio, no Rio, é
Lei do Silêncio, no Rio, é de rara aplicação.Portanto há uma possibilidade do seu negócio prosperar por aqui.
Escola de tempo integral ,foi executada por Brizola e concebida por Darcy Ribeiro.Contudo, a mais intensa campanha contra o ensino público de qualidade, encontrou na pessoa de Roberto Marinho e na sua organização seus patronos.A meta de 500 CIEPS,jamais pode ser concluida .
nilccemar
20 de janeiro de 2014 3:56 amO Importante é que a Nossa Emoção Sobreviva
Exatamente Alexis, nossa vida foi sequetrada, lenta e mornamente, pelo trabalho muito árduo, dificuldades de locomoção, pela TV etc, até o ponto em que hoje estamos, não vivemos, sobrevivemos. Quem conheceu tempos de vida viva, sabe como é emocionante. Nas décadas de 60 e 70 as ruas de São Paulo eram cheias de barzinhos simples, onde muita gente se reunia para cantar e tocar violão. Ouvia-se muita cantoria ao andar pelas ruas. Um símbolo desse hábito era Viola Enluarada, muito cantada. Cantávamos muito, decorávamos as letras, traduzíamos Beatles. Não só, tínhamos também hábito de estudar muito, ler muito, ir ao cinema, teatro e shows: havia vida cultural. Não havia muita droga nessa época, o máximo era uma cervejinha, uma caipirinha e ficava nisso. A vida era da temporalidade de nossos sentimentos, não impunha ritmo às nossas emoções.