“Somos inacabados e a leitura ameniza e intensifica isso” – inicío com as palavras do professor e velho amigo de batalhas, Oswaldo Almeida Junior, e adianto: não tenho uma nova fórmula para solucionar as deficiências da área de leitura, da formação de leitores no Brasil, o que trago aqui são ponderações muito específicas, com todos os limites que elas carregam.
Começo com os reflexos das palavras iniciais: amenizar e intensificar. Elas não são apenas a representação do ato solitário de ler, elas pode ser utilizadas sem vaticínios na dimensão pública do universo da leitura, daí passam a abarcar o coletivo e vai além do ato exclusivo e isolado do leitor.
E quando nos referimos à leitura, a história nos fornece registros desse ir e vir entre o individual e o coletivo, as histórias compartilhadas em registros diversos, de início na memória, no boca a boca, para logo após se massificar e ironicamente passar a ser ato isolado por conta das novas técnicas.
Desloco rápido, o pensamento para o ano de 2003, Brasil quando foi implantada a “Lei do Livro”, resumindo suas intenções e implicações, em tese ela incide diretamente na desoneração e no consequente barateamento do objeto livro, contiguo a isso foi instituído um Fundo suprido por 1% das vendas de livros no país que seria depositado pelo mercado editorial e utilizado nas políticas públicas de fomento à leitura.
Pincei um exemplo e deixo um hiato para que pensemos…
Dez anos e alguns meses depois e o preço médio de capa do livro não sofreu os efeitos dessa desoneração, continua caro e elitizado, e o referido fundo segue tímido atolado no descumprimento da lei e nesse sentimento naturalizado de que ignorar regras é um comportamento aceitável.
Por que o mercado editorial e a cadeia do livro ignorou a referida Lei 11.030, ela tem falhas, ela substimou as regras do mercado, ela não foi pactuada a contexto Ela não serve para a conjuntura Reconhecer uma contradição e dissecá-la é o primeiro passo para intervir e modificar uma realidade, mas há real interesse A ver.
O livro é um objeto unânime, tirante as patologias históricas que mais pelo seus conteúdos, subjetividade e eventual transgressão do que pela forma, o demoniza e o destrói em certas conjunturas, ele é visto de forma positiva pela sociedade. Ler é “virtude” não assumida, é bom sempre para o “outro”, podemos dizer que existe um certo cinismo nos discursos de apologia aos benefícios da leitura.
O ato da leitura não implica necessariamente nesse prazer desprendido e cheio de leveza, leitura é hábito, e antes de tudo, é hábito que se adquire arduamente, depende de trabalho, depende de esforço e dedicação. E é nesse aspecto que a apologia fácil se torna falsa, quem a profere, quem a repete assume que a leitura depende desse dispêndio de energia, de disciplina ou apenas joga palavras ao vento para reforçar um falso consenso?
O fato é que essa retórica, essa ladainha incide diretamente nas políticas públicas e nos marcos legais do livro e da leitura, a roupagem do lúdico, do prazeiroso, do frugal encobre a dura realidade do universo leitor, palavras lindas e leves não resolvem as questões da democratização, acesso e circulação, e acaba acomodando tudo na seara das boas intenções e se adia reiteradamente para um constante amanhã.
Outro fator inexorável: a leitura tem um custo material, e o custo nela embutido está implicado diretamente no preço de capa do livro e no custeio do universo do livro e leitura (industria, profissionais, maquina pública etc), nesse baile circula o público e o privado – muitas vezes com seus papéis distorcidos e misturados, como é de costume nessa realidade de ideologias difusas – no topo dessa torre de babel é decidido o rumo dos recursos públicos aplicados.
Volto então aos verbos do Oswaldo (desculpem a banalização das palavras do amigo), amenizar, sim, amenizar com leis e ações práticas, mas nunca esquecer que a intensificação das cobranças, dos resultados e das consequencias nos mostram um quadro praticamente inalterado na democratização da leitura. As leis, os divisores de água, os marcos legais fazem aniversário como tudo, e nesse caso, o que nos cabe é comemorar com cobrança.
E quem convocar para fazer a devida cobrança das leis não cumpridas? Quem encabeça a lista: bibliotecários, professores, escritores (principalmente os “não contemplados”), leitores, como juntar pessoas e mesmo grupos que agem isolados?
O ano de 2014 é ano de eleição no nível federal e estadual, ano de rediscutir as políticas públicas e as prioridades em todas as áreas, uma boa oportunidade para avaliar o que é real, o que é promessa, o que é de fato, o que é discurso, o que é leve, o que é pesado. Como disse acima, leitura dá trabalho e exige dedicação e empenho, momento de unir o ameno ao intenso e dar rumo a essa prosa solta.
helcio dias de sa
16 de janeiro de 2014 12:46 pmler é dificil sobre politicas publicas
Baseando na minha vigorosa ignorancia,sou do tempo que indentificavam o busão para ir pro trabalho pela cor da carroceria,depois passaram a ler as placas,agora,na geraçao celular,todos sao obrigados a ler ,conseguiram até reabilitar a letra morta “K”, até esses jornalzinhos ordinarios de 25 centavos contribuiem para aumentar o “vicio(leitura vicia).Entretanto o glamour proibitivo ainda inibe,nao existe nada maistenebroso que frequentar biblioteca,certas peças de teatro com bula, entao exige um saco desse tamanho.Quanto aos livros o roubo chamado pecinho da capa inibe e a obrigatoriedade de ler certas tranqueiras inibe completamente.Vamos fazer um rolezinho lec lec lec lec entre os intelectuais cheios até a tampa de pre-conceitos.
Anarquista Lúcida
16 de janeiro de 2014 1:02 pmGostei da parte sobre a formação do hábito
Leitura é algo que se adquire. Há muito tempo atrás ouvi falar de um estudo da UNESCO que dizia que se o hábito de ler nao se formasse até os 10 anos era muito difícil que o fosse depois disso. Talvez porque exija, entre outras coisas, condicionamento cerebralÇ nem todo mundo sabe, mas temos circuitos cerebrais especializados para a leitura, pode existir uma espécie de afasia que só incide na leitura. O que aponta para um problema: é difícil que ssse hábito se forme na família no caso de crianças filhas de pais pouco letrados, e a aquisição por meio da escola tem dificuldades especiais, porque muitas vezes o que a escola fomenta é a idéia de que ler é um troço chato, que se faz por obrigação (nao tinha que ser assim, claro, mas muitas e muitas vezes é o que acontece).
Marcos K
16 de janeiro de 2014 1:54 pmVou deixar o meu testemunho.
Vou deixar o meu testemunho. Venho de uma família de pais iletrados, como a maioria dos brasileiros, pais que cursaram até a 4a série e jamais tiveram o hábito da leitura. Eu tinha tudo para ser mais um analfabeto funcional, todavia tive uma trajetória muito diferente e minha porta de entrada foram os gibis. Dos gibis passei para os livros juvenis especialmente do Júlio Verne que para mim foram o diferencial quando eu tinha meus 11 anos. Apesar dos livros desse autor terem mais de 100 anos suas obras despertaram o meu gosto pela leitura por uma simples razão: tem o argumento simples, são cheias de imaginação, são fáceis de entender, e usam linguagem acessível. Daí foi só seguir em frente e até hoje pra mim nada substiui um livro. Se for bom, melhor ainda.
PS.: Acho que uma forma de incentivar o hábito da leitura é justamente fazer crianças e adolescentes lerem obras como os do Júlio Verne, ideiais para a idade em que se cria o hábito. Que fazer um adolescente odiar a leitura? Então empurre um livro do Machado de Assis pra ele. Por usa linguagem rebuscada e complexidade poucos entendem e concebem a falsa impressão de que livro é tudo igual ao do Machado de Assis.
ArthurTaguti
16 de janeiro de 2014 5:53 pmEu gostava dos livros do
Eu gostava dos livros do Monteiro Lobato e dos gibis da Turma da Mônica.
Realmente, na minha época leitura obrigatória era Camões, Machado de Assis, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos…numa boa, isto deve ser de propósito mesmo, para a molecada adquirir trauma da leitura, hehe.
São ótimos livros, claro, mas que entendimento um moleque ou uma guria de 15 anos possuirão de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”?
Maria Luisa
16 de janeiro de 2014 2:52 pmIncentivo à leitura vai ter que começar pelas escolas
Interessante constatar que apos 10 anos da Lei do Livro, as editoras continuam agindo como se não fosse obrigatorio o fundo para fomentar a leitura, através do incentivo às bibliotecas. Livro é sim caro no Brasil. Mas também é pouco considerado. As crianças não léem porque pais, professores, direitores de escola, avos, tios, primos; ninguém lê. Não ha o habito da leitura.
Como fazer ? Vai ter que ser, mais uma vez, através do governo, via Ministério da Educação. Criar o habito de leitura a começar pelas escolas maternais, no pré-escolar. Ao contrario do que se acredita, é no Jardim da Infância, antes mesmo da criança saber ler, que ela deve começar a manusear, a ouvir historias e se naturalizar com os livros, com ilustrações, poesias. Se não se começar ai, depois ficara cada vez mais dificil, mas não impossivel.
Meu filho de quatro anos têm uma pequena biblioteca em casa, outra na casa dos avos, ainda traz livros da boblioteca da escola maternal publica que frequenta e nos o levamos a leituras em livrarias a na biblioteca do bairro. De tanto gostar de livros, ele ja esta praticamente lendo às vésperas de completar cinco anos. Mas não ha milagre, ha incentivos e exemplos desde bebê.
ArthurTaguti
16 de janeiro de 2014 4:08 pmBem. Na parte de que ler é um
Bem. Na parte de que ler é um hábito que se adquire com trabalho árduo, o articulista tem plena razão.
Claro, depois que se se acostuma à leitura, tudo vira um belo e delicioso passatempo, mas, geralmente, um leitor ávido na sua maturidade foi uma criança que gostava de histórias em quadrinhos, que depois pulou para livros infantis, passando para livros adultos mais “leves”, e assim doravante.
Resumindo, ao identificar um leitor, muito provável (existem exceções) que se chegue a uma família habituada a leitura, que fomenta este hábito em seus filhos e netos.
Ninguém aprende, no Brasil, a ler no colégio, seja público, seja na mais respeitada (e cara) escola privada. Até porque temos uma cultura muito bacharelista. Parece que estamos ainda numa sociedade escravista, em que, se pega mal hierarquizar pessoas conforme títulos de nobreza e de sangue, substitui-se tudo isto por títulos acadêmicos e cargos pomposos.
Não há, em nossa sociedade, uma cultura que valorize o livre-pensar, a criatividade e a inovação (Gurgel manda lembranças), o que certamente demandaria das pessoas uma bagagem cultural (livros, filmes, música, teatro, etcétera etcétera) e uma interdisciplinaridade impensável em nosso país. O sujeito, desde criança, além de não ter a leitura incentivada no colégio, se torna um robô que decora almanaques e apostilas para passar numa universidade pública.
E depois, aprende que será muito mais valorizado se passar num concurso público para virar autoridade, do que investir numa carreira em que se demande criatividade e conhecimento que ultrapasse o tecnicismo puro. Assim, é até compreensível o porque brasileiro rejeita tanto o hábito da leitura. Fica tudo no campo do “faz bem para o espírito, te torna uma pessoa culta, sensível”, mas dificilmente o jovem enxerga que isto vá se traduzir em um maior reconhecimento pessoal e profissional.
Verifique-se que em várias das principais universidades do mundo o candidato precisa demonstrar para o avaliador uma capacidade que vá além das boas notas no “vestibular”, enviando currículo, relatando quais atividades extracurriculares se viu envolvido, seja no campo das artes, da política, e por aí vai.
Ora, se para um jovem norte-americano, pode significar sua admissão em Harvard ter feito parte do teatro do colégio ou não, ter sido Presidente do Grêmio Estudantil ou não, ter vencido um prêmio de ciências ou não, ter sido editor do jornalzinho do colégio ou não, vamos combinar que, para um brasileiro aprovado na Usp ou Unicamp, tanto faz qual o seu perfil, o que você faz ou pensa da vida, a única coisa importante é decorar apostilas e pronto. Se por um lado possui uma certa eficácia para “filtrar” candidatos (leia-se, pessoas que têm pais com dinheiro para pagar colégios privados e cursinhos), do outro não identifica de jeito maneira quem possui aptidão para a vida acadêmica.
Eu mesmo fui aprovado na Usp sem ter feito atividade extracurricular alguma, o que significa que dificilmente eu teria sido aprovado se esta possuísse critérios mais lagos de admissão. Só que, se assim o fosse, muito provavelmente eu teria corrido atrás, na adolescência, destas atividades extracurriculares, me preparado de maneira condizente a um processo de admissão mais rigoroso. Então, qual a diferença, para o estudante brasileiro, ler ou não, gostar de cultura ou não, para estudar nas melhores faculdades do país (o que, em resumo é, pelo menos em teoria, uma espécie de passaporte para uma vida profissional feliz e bem sucedida)? Nenhuma.
Então, claro, o governo tem e deve empreender políticas públicas para incutir o hábito da leitura nos jovens. Mas, é difícil do sujeito adquirir este hábito sem exemplos, ou até mesmo uma certa “compulsoriedade” desta prática, como requisito para ser bem sucedido na sua posterior vida acadêmica e profissional. Dizer “leia, vai ser bom para você” é um argumento necessário, mas nem sempre suficiente. O caminho é complexo, mas a molecada tem que começar a acreditar que ler, ter cultura, será um elemento imprescindível para o seu sucesso pessoal, profissional, acadêmico, e por aí vai.
PS: é ÓBVIO que, em alguns casos, a bagagem cultural acaba importando. Se prestar bem atenção, um Nassif, um Jabor, um Dráuzio Varela, um Sardenbeg, um Washington Olivetto, ou um Jô Soares da vida não teriam “chegado lá” se não lessem, não tivessem cultura alguma, só com o conhecimento técnico adquirido na faculdade dentro da mala. Só que este continua sendo um mecanismo de dominação bem sutil de nossas elites, que passa para a classe média a impressão de que tanto faz ler ou não, ter cultura ou não, enquanto manda seus filhos para estudar nas melhores universidades americanas e europeias.
Anarquista Lúcida
16 de janeiro de 2014 11:02 pm“Alguma compulsorie//” só leva a criar ojeriza pela leitura
A leitura deve ser estimulada, nao obrigada. E o estímulo vem com a associação ao prazer (mesmo se, no início, seja preciso esforço). Um professor que deseja incentivar a leitura deve, em primeiro lugar, ler para os alunos. Depois, em vez de ” Passar livros para ler” e ” verificar a leitura” por meio de fichas idiotas, poderia criar atividades lúdicas, como solicitar a criação de finais diferentes, propor que as crianças desenhem a história, fazer ” discussoes” sobre os motivos dos personagens para agir assim ou assado, atividades desse tipo, que possam atrair as crianças.
ArthurTaguti
17 de janeiro de 2014 12:36 amNa verdade, quando falei de
Na verdade, quando falei de “compulsoriedade” (talvez esta expressão tenha ficado ambígua mesmo) quis discutir o seguinte assunto: pegando como exemplo a pedagogia que você mencionou para instigar os alunos a gostarem da leitura, esta é ótima, mas vamos convir que este tipo de atividade lúdica não é uma preocupação muito recorrente de diretores de colégio e professores Brasil afora, ciosos que estão de aprovar seus alunos em vestibulares que pouco ou nada analisam a bagagem cultural do estudante.
Em suma, se nosso sistema institucional (que engloba a universidade, o mercado de trabalho, dentre outros) fosse menos “bitolado”, e privilegiasse uma criatividade/inovação do indivíduo que só é possibilitada por uma boa bagagem cultural, é bem provável que nossos colégios (públicos e privados) se adaptariam e incluiriam este tipo de atividade mencionada por você, já que no Brasil colégio bom é o que aprova no vestibular e PONTO FINAL.
Este exemplo que você mencionou é interessante, pois lembro que um Professor, primeiro ano de faculdade, mostrou um filme iraniano para a sala e passou um bom tempo se dedicando a discutir todos os aspectos do filme. O pessoal da sala (eu incluído, confesso) não entendeu muito bem a intenção do Professor, e alguns ficaram irritados porque ele estava “enrolando” e abordando algo que não tinha “nada a ver” com a matéria.
O mais grave é que 90% dos meus colegas eram classe média alta para cima e tinham estudado nos melhores colégios privados de São Paulo. Fato, pelo menos para mim, indicativo de que tipo de preparo nossos “ótimos” e caríssimos colégios privados oferecem.
Não que os colégios privados sejam incompetentes, já que a proposta é colocar o pessoal na Medicina da Usp, na Poli, no Ita, na Fgv, e preparam seus alunos conforme o edital do vestibular. Também não é culpa dos estudantes, que desde cedo aprenderam a pensar de deteminada forma, dando pouco valor a leitura que não seja a que cai no vestibular, ou a acadêmica, quando já estão na faculdade.
É muita coisa que precisa mudar, muita. Lógico que será uma ótima experiência aplicar a pedagogia mencionada por você, mas seria e é algo um tanto subversivo, se considerarmos o que nosso sistema destina às pessoas. Tanto que há muito tempo é um consenso que leitura é fundamental, cultura é muito importante para a construção de um país, e blábláblá, sendo que basicamente nada mudou: gosto pela leitura depende, no geral, de ambiente familiar favorável. PONTO.
Se ainda fosse uma coisa de classe (“classe média para cima é letrada, culta, consumidora fervorosa de livros, filmes, teatro, música, etcétera”) já estaríamos muito melhor que agora. Mas infelizmente não é assim.