RESUMO
O setor de fertilizantes é um segmento estratégico para o país, estando a elevação da produtividade da agricultura fortemente relacionada a sua utilização. No entanto, a produção interna tem sido insuficiente para atender à demanda, o que tem ocasionado uma forte elevação das importações de fertilizantes ano após ano e tornado o segmento responsável por cerca de um terço do déficit da indústria química. Os diversos investimentos planejados para os próximos anos serão capazes de reduzir a dependência externa, porém ainda serão insuficientes para suprir o mercado nacional. O setor sofre com problemas de infraestrutura portuária e de armazenamento, e também relacionados a questões tecnológicas, regulatórias, tributárias e ambientais, que merecem destaque e serão objeto de estudo neste artigo.—–
10/2012—O BNDES Setorial ——Acesse a publicação (1.5 MB)pdf 49 páginas—–Leticia magalhães da costa//Martim Francisco de Oliveira e Silva**
*respectivamente economista e engenheiro do departamento de indústria química da Área de insumos básicos do bndes.
O BNDES Setorial contém textos objetivos sobre diversos aspectos da estrutura produtiva da economia brasileira. O objetivo desta publicação é divulgar parte do conhecimento técnico do BNDES aplicado à análise de projetos.
——–De acordo com dados da IFA, em 2009, a produção total de fertilizantes foi de 164 milhões de toneladas de nutrientes. China, Índia, EUA e Rússia são os maiores produtores, representando 63% da produção. O Brasil, apesar de ser o quarto consumidor, ocupava a décima posição em relação à produção, sendo responsável por apenas 2% da produção mundial de nutrientes.
O Nitrogênio (N) é a matéria-prima básica para a produção de fertilizantes nitrogenados, como amônia e ureia. Para a fabricação da amônia necessita-se da reação do nitrogênio, prontamente disponível no ar, com o hidrogênio, que pode ser obtido de fontes diversas – gás natural, nafta, carvão, resíduos asfálticos. No Brasil, assim como na maioria dos países, a principal fonte de hidrogênio é o gás natural, cujo preço no país é elevado em comparação ao restante do mundo.
No total, de acordo com dados da IFA, existiam em 2009 cerca de 77 países produtores mundiais de nitrogenados, estando a China em primeiro lugar, seguida de Índia, EUA e Rússia. Os quatro países foram responsáveis por 60% da produção mundial de nitrogenados em 2009, que foi de 105 milhões de toneladas de nutrientes, tendo crescido 18% em relação a 2000. Somente a China aumentou sua capacidade de produção em 62%. No entanto, cabe lembrar que o país tem uma base de produção “suja”, já que utiliza como principal fonte de hidrogênio o carvão. Em 2009, China, Índia e EUA eram também os maiores consumidores de nitrogenados.
O Brasil, apesar da baixa produção, ocupava a sexta posição mundial em consumo.
O Fósforo (P) é obtido por uma atividade extrativa mineral que tem como fonte a exploração da rocha fosfática. Existem dois tipos de rocha fosfática, as de origem ígnea ou as sedimentares, onde a concentração de fósforo é maior. No Brasil, ao contrário da maioria dos países produtores, a origem da rocha fosfática é ígnea em função da estrutura geológica. Em 2009, existiam cerca de sessenta países produtores, liderados por China, EUA, Índia e Rússia, respectivamente. O Brasil ocupava a quinta posição, sendo responsável por cerca de 5% da produção mundial de fosfatados, que foi de 37 milhões de toneladas de nutrientes, 14% superior ao que foi produzido no ano 2000. As principais reservas encontram-se nos continentes africano e asiático. É um mercado global formando por grandes players mundiais. Novamente China, Índia, EUA e Brasil são os maiores consumidores, representando 68% do consumo total.
O Potássio (K), obtido principalmente a partir do cloreto de potássio, é encontrado na maioria das vezes em camadas sedimentares. As reservas mundiais são de grande limitação e a produção concentra-se basicamente em 12 países. Canadá, Rússia, Bielo-Rússia e Alemanha são os maiores produtores, responsáveis por cerca de 65% da produção mundial. A produção em 2009 foi de 20,6 milhões de toneladas. Os maiores demandantes são mais uma vez China, EUA, Índia e Brasil, com 64% da demanda global.——–
——-Mercado brasileiro
O mercado brasileiro de fertilizantes é o quarto maior consumidor do mundo, representando cerca de 6% do mercado global em 2009 de acordo com dados da IFA. Segundo a ANDA (2010), foram entregues 24,5 milhões de toneladas em 2010, contendo 10,1 milhões de nutrientes. Apesar do elevado consumo, a utilização de fertilizantes por hectare ainda é baixa em relação a outros países da Europa e à China. Contudo, o país vem apresentando uma taxa de crescimento da demanda superior à taxa de crescimento mundial e de países desenvolvidos. O consumo nacional depende, principalmente, da renda dos agricultores, mas também é influenciado pelo preço relativo dos fertilizantes, pela política agrícola e expectativas de preços futuros e da produção agrícola. No Gráfico 9, é exposta a evolução do consumo de fertilizantes por tipo de nutriente no período 2000-2010.
No Brasil, diferentemente do restante do mundo, os fertilizantes mais consumidos não são os nitrogenados, mas sim os potássicos, que no ano de 2010 responderam por 38% do total de nutrientes demandados, enquanto fosfatados e nitrogenados foram responsáveis por 28% e 33%, respectivamente. A explicação para essa inversão ocorre por causa da estrutura da agricultura brasileira. Cinco principais culturas concentram o consumo no país: soja, milho, cana-de-açúcar, café e algodão. Em 2010, elas representaram mais de 75% do total de fertilizantes consumidos. A soja, que é a principal cultura consumidora, com 36%, utiliza pouco nitrogênio e muito potássio para sua produção, explicando a concentração no consumo desse tipo de nutriente. O consumo de fertilizantes por cultura no Brasil em 2010 é mostrado no Gráfico 10.
Apesar de o Brasil ter experienciado altas taxas de crescimento na demanda por fertilizantes, a produção interna para a fabricação de suas matérias-primas não vem crescendo no mesmo ritmo, resultando em um grande desbalanceamento entre oferta e demanda. A indisponibilidade de matérias-primas básicas, além de questões logísticas, tributárias e ambientais, vem sendo gargalos para novos investimentos. Dessa forma, o atendimento ao consumo interno vem ocorrendo principalmente via aumento das importações.
No ano de 2010, a entrega total de fertilizantes formulados no Brasil alcançou 24 milhões de toneladas de produtos, dos quais 15 milhões de toneladas foram importadas e 9 milhões produzidas internamente. Em relação ao ano 2000 houve um crescimento acumulado de 50% do consumo, 17% da produção e 48% das importações. A participação das importações sobre o consumo total manteve-se, de certa forma, constante no período analisado, por volta de 60%. No ano de 2007, ano de alta no consumo de fertilizantes, o percentual ocupado pelas importações chegou a superar 70%. Já em 2009, em razão da grande queda na demanda por conta da crise econômica de 2008, o volume importado teve sua participação reduzida para 49%, pois muitos produtores utilizaram os estoques acumulados nos anos anteriores. No ano de 2010, com a retomada do mercado de fertilizantes, as importações cresceram novamente e representaram 62% do total consumido (Gráfico 12).
A dependência externa não é função apenas da elevada demanda do setor agrícola nacional, mas também da disponibilidade de matérias-primas (nitrogênio,
fósforo e potássio) e da estrutura de produção. A produção interna de fertilizantes nitrogenados no ano de 2010 atendeu aproximadamente a 24% da demanda.
No início da década, no ano 2000, esse número já foi próximo a 40%. No entanto, como pode ser observado no Gráfico 13, enquanto o consumo de nitrogenados
cresceu, a produção permaneceu estagnada. Gás natural, gás de refinaria e resíduo asfáltico são as matérias-primas utilizadas para a fabricação de amônia, cujas unidades produtivas são localizadas próximas a refinarias petroquímicas ou de fontes de hidrogênio. No Brasil, o preço do gás natural, utilizado como matéria-prima, é superior a outras regiões do mundo, tornando o país menos competitivo.
Os fertilizantes fosfatados são os que exibem a situação mais favorável, porém ainda insuficiente. A produção nacional consegue atender a cerca de 59%
das necessidades do país. Essa situação vem se mantendo estável, com elevação da produção ao longo da década, como se pode verificar no Gráfico 14. Contudo, um agravante é o fato de o Brasil não ter produção destinada à indústria de fertilizantes de enxofre, matéria-prima básica para a produção de ácido sulfúrico, que é utilizado para obtenção de ácido fosfórico. Este é utilizado como matéria-prima intermediária para a produção de fertilizantes fosfatados.
Por fim, em relação ao potássio, a situação é mais preocupante. Apesar de ser o nutriente com maior demanda pelo setor agrícola brasileiro, a produção nacional é muito inferior à demanda e tem atendido somente a 10% do consumo interno (Gráfico 15). O Brasil conta com apenas uma mina de potássio explorável hoje.
Apesar de existirem grandes reservas, estas não são economicamente viáveis ou oferecem grandes riscos ambientais.

Na Tabela 3 são mostrados os volumes de importação, produção e exportação, para os principais fertilizantes básicos e intermediários, realizados no ano de 2010. Com base nos números, foi calculado o consumo aparente 7 dos produtos e a participação das importações no total consumido. Verifica-se que, com exceção do SSP, do qual há quase autossuficiência na produção, sendo apenas 6% importado, todos os outros fertilizantes apresentaram uma participação das importações superior a 50%. Em alguns casos, como o DAP e cloreto de potássio, a dependência externa chega a ultrapassar 90%.
A situação atual no mercado de fertilizantes brasileiros, que vem experimentando elevações no consumo e baixa capacidade de produção interna, aumenta a vulnerabilidade do país, deixando-o exposto às variações na taxa de câmbio e preços no mercado internacional, além de outras conjunturas econômicas. Para que esse quadro seja revertido, são necessários investimentos na produção e na infraestrutura logística, que serão discutidos mais à frente.—–
*respectivamente economista e engenheiro do departamento de indústria química da Área de insumos básicos do bndes.
os autores agradecem os comentários de gabriel lourenço gomes, felipe dos santos pereira, marcelo gonçalves tavares e rodrigo matos huet de bacellar, respectivamente: chefe de departamento e gerente do departamento de indústria química e assessor e superintendente da Área de insumos básicos, e os comentários da Área de pesquisa econômica do bndes (ape). os autores são gratos também a david roquetti filho, diretor-executivo da associação nacional de difusão de adubos (anda), e carlos eduardo florence, diretor-executivo da associação dos misturadores de adubos do brasil (ama) por recebê-los para conversas sobre o setor. erros e omissões eventualmente remanescentes são, entretanto, de responsabilidade dos autores.
URL:
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/bndes/bndes_pt/Institucional/Publicacoes/Consulta_Expressa/Tipo/BNDES_Setorial/201210_10.html
texto pdf 49 páginas
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/livro60anos_perspectivas_setoriais/Setorial60anos_VOL2Quimica.pdf
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