Diversidade Cultural
Zona Portuária do Rio de Janeiro, conhecida como Pequena África
“Um porto novo de antigas maravilhas”
Já era esperado. As obras de “revitalização” da área portuária carioca – Porto Maravilha- não poderiam ocultar a imensa herança africana no local. Assim, das escavações ou do remodelamento da região, se redescobriu um afrocircuito. São monumentos, prédios, bairros inteiros, que demarcam a presença afro na zona portuária.
Território do Cais do Porto, e que muitos convencionam chamar “Pequena África”, por que aqui desembarcavam, durante o período da escravidão, milhares de negros escravizados que seguiriam dali para diversos territórios do Brasil.
O que fica de história, também ficou de cultura. Aqui se preservam vivas diversas manifestações artísticas e culturais. O Samba carioca surge no Cais, trazidos pelas tias baianas. A primeira Favela do Brasil, Morro da Providência, surge no Porto. “Os Filhos de Gandhi”, bloco Afro mais antigo do Rio, até hoje ocupa o cais. Além de outras manifestações, como por exemplo os achados arqueológicos do Cais do Valongo. Tais descobertas tornam esse território único em valores artístico, cultural e econômico.
CIRCUITO HISTÓRICO E ARQUEOLÓGICO DA CELEBRAÇÃO DA HERANÇAS AFRICANAS
CAIS DO VALONGO E DA IMPERATRIZ (Praça Jornal do Comércio) – A Intendência Geral de Polícia da Corete da Cidade do Rio de Janeiro construiu o Cais do Valongo em 1811 para atender à antiga determinação do Vice-Rei, o Marquês de Lavradio, feita em 1779. Seu objetivo era retirar da Rua direita, atual Primeiro de Março, o desembarque e comércio de africanos escravizados.
O mercado de escravos se intensificou a partir da construção do Cais. No Valongo, segundo estimativas de historiadores, passaram pelo menos, 1 milhão de escravos, vindos de diversas nações africanas. De acordo com o historiador Carlos Eugênio Líbano Soares, trata-se do maior porto escravista das Américas. Soares foi quem localizou o Valongo, após estudos de uma década sobre a herança africana nos bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo.
Ao longo dos anos, o Cais sofreu sucessivas transformações. A primeira intervenção, em 1843, foi remoldado com requinte para receber a Princesa das Duas Sicílias, Teresa Cristina Maria de Bourbon, noiva do (então) futuro Imperador D. Pedro II. O local passou a se chamar “Cais da Imperatriz” em memória ao acontecimento. Com as reformas urbanísticas da cidade no início do século XX, o Cais da Imperatriz foi aterrado em 1911. Um século depois, em 2011, as obras de reurbanização do Porto Maravilha permitiram o resgate do sítio arqueológico, agora monumento preservado e aberto, o que atende a uma antiga reivindicação do Movimento Negro.

Cais do Valongo
PEDRA DO SAL (Fim da R. Argemiro Bulcão, Largo João da Baiana) – No local, o sal era descarregado por escravos que trabalhavam como carregadores nos cais de atracação e trapiches. Na Pedra do Sal, foram fundados os primeiros ranchos, antecessores das escolas de samba, pelas chamadas “tias baianas”, que se instalaram, ali, a partir de 1870, vindas de Salvador. Ponto frequentado pela fina nata do samba do início do século XX: Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Sinhô, Caninha, China, entre outros. Após o trabalho, nos cais, os estivadores se reuniram ali para noitadas de cerveja, samba, alegria e prazer. Em 20 de Novembro 1984, dia da Consciência Negra, o INEPAC (Instituto Estadual de Proteção ao Patrimônio Cultural) tombou a Pedra do Sal como patrimônio do estado do Rio de Janeiro.

Pedra do Sal
PRAÇA DOS ESTIVADORES (Largo do Depósito) – Por volta de 1770, o Marquês de Lavradio transferiu o mercado de escravos da Praça XV para a antiga região do Valongo. O Largo do Depósito, hoje Praça dos Estivadores, era onde se concentravam os armazéns dos negociantes de escravos que controlavam o tráfico negreiro. Em 1831, foi o extinto o depósito de escravos na Rua da Valongo.
CEMITÉRIO DOS PRETOS NOVOS (R. Pedro Ernesto, 80) – A transferência do mercado de escravos da Região da Rua Primeiro de Março (antiga Rua Direita) para a do Valongo implicou mudança do Cemitério dos Pretos Novos do Largo de Santa Rita para o Caminho da Gamboa – hoje, a Rua Pedro Ernesto, onde funciona o “Instituto dos Pretos Novos”. Pretos Novos eram os cativos recém-chegados ao Brasil. Muitas vezes não resistiam aos maus tratos da viagem desde a África e morriam pouco depois de desembarcar. O sítio arqueológico com ossos dos escravos foi descoberto, em 1996, quando moradores faziam sondagem do solo para obras. Assim, nasceu o instituto. Arqueólogos coletaram milhares de fragmentos de restos mortais de jovens, homens, mulheres e crianças africanas.
Considerado o maior cemitério de escravos das Américas, estima-se, que tenham sido enterrados de 20 a 30 mil pessoas, embora nos registros oficiais esses números sejam menores, 6.122 entre 1824 e 1830. Seus corpos foram jogados em valas e queimados. Além de ossos humanos, havia também pertences dos pretos novos, como restos de alimentos e objetos de uso cotidiano descartado pela população. Hoje a casa funciona como centro cultural para resgate da história da cultura africana e oferece cursos e oficinas, além de uma biblioteca sobre a temática negra.

Instituto Pretos Novos
SAÚDE, GAMBOA E SANTO CRISTO – Bairros afro por excelência, onde moravam os estivadores negros do cais. Em qualquer parte do destes bairros, possível encontrar diversos vestígios afrodescendentes nas ruas, em casas e na maneira de relacionamento étnico dos moradores.
MORRO DA CONCEIÇÃO – Hoje, muito ocupado por artistas plásticos de classe media. No entanto, em meados do século XIX, foi o local onde a comunidade negra baiana se instalou e ali manteve sua tradição cultural através do samba, religiosidade, culinária, música, eventos, musicalidade.
TRAPICHES – Entre o final do século XIX e início do XX, estes imensos depósitos de mercadorias, foram construídos e manipulados pela mão de obra afro. Alguns deles, estão se transformando em centros culturais ante o crescimento da revitalização do local via projeto Porto Maravilha.
CENTRO CULTURAL JOSÉ BONIFÁCIO (R. Pedro Ernesto, 32/34) – Construído em 14 de março de 1887, o Centro Cultural José Bonifácio, foi o primeiro colégio público da América Latina. Construída por ordem de D. Pedro II para educação da comunidade carente da Região Portuária. Desativada em 1977, deu lugar a Biblioteca Popular da Gamboa. Um palacete, com dezenas de salas e áreas abertas, que abriga exposições e eventos de cunho negro, sob o controle da Secretaria Municipal de Cultura. Acaba de ser reinaugurado, depois de uma reforma.

Centro Cultural José Bonifácio
MORRO DA PROVIDÊNCIA – Primeira favela do Rio de Janeiro, surgida, em 1897, após retorno dos soldados cariocas que lutaram na Revolta dos Canudos, na Bahia. Para se ter uma ideia, no local, existem duas capelas, construídas, há mais de um século. Devido à sua importância histórica e estratégica para os Jogos Olímpicos- é vizinha da futura Vila Olímpica e da Cidade do Samba- receberá um teleférico com três estações.
JARDIM SUSPENSO DO VALONGO (Ladeira do Valongo, R. Carmerino) – A antiga Rua do Valongo, que ligava o Cais do Valongo ao Largo do Depósito, era um dos locais que abrigava lojas que vendiam escravos e artigos relacionados á prática da escravidão. No eixo formado por este caminho, escravos recém-chegados ganhavam peso, de modo a valorizar seu preço no mercado. Nesta área havia mercados onde os africanos escravizados eram expostos aos potenciais compradores. No início do século XX, por ocasião do alargamento da via,, foram construídos o Jardim Suspenso do Valongo, a casa da Guarda e o Mictório Público.
Parte do Plano de remodelação e embelezamento da cidade pelo prefeito pereira Passos, o parque foi projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rey e inaugurado em 1906. Escavação arqueológicas encontrou vasto acervo que remete a “tralha doméstica” da época, revelando aspectos da vida cotidiana, costumes e mentalidade dos habitantes do Morro da Conceição.
ComDOMÍNIO CULTURAL
Quando foi anunciada uma reforma urbanística para “adequar” a Cidade Maravilhosa às exigências ou demandas de um interesse internacional, os olhares começaram a se voltar para a Região portuária.
O porto, antes esquecido, agora é local de disputas acirradas, estimuladas pelo estado com um nome dado por muitos – mas aceito apenas por alguns – de “Revitalização”. Em meio a essa dita “revitalização” é criado o movimento “ComDOMÍNIO Cultural” protagonizado por artistas das mais diversas áreas, grupos, coletivos, instituições, blocos, cordões, cidadãos e produtores culturais da região que desenvolvem atividades no território da Pequena África, região do Cais do Porto.
O objetivo principal deste coletivo é apresentar e fortalecer esse território, já que com anúncio das reformas urbanas que estão sendo feitas para adequar a Cidade aos grandes eventos a região do Porto tem sofrido muito com a especulação imobiliária. Isto provoca graves desdobramentos: uma reforma urbana desigual, atendendo a interesses econômicos e causando a expropriação e exclusão daqueles que já ocupam o lugar há séculos: a comunidade negra e pobre que constitui a maioria da ocupação da área central do Rio de Janeiro. Por isso foi criado o movimento “ComDomínio Cultural”, para dar visibilidade às diversas manifestações artísticas e culturais guardadas no seio desses territórios, muitas vezes invisíveis, da grande cidade. Faz nascer um grupo articulado que, em levante, usa a palavra para defender o seu quintal: “Porto novo, mas de antigas maravilhas”.
Signatários
AACATED – Associação do Armazém Cultural das Artes e Técnicas Em espetáculo de diversão.
ACIMBA – Associação Cultural Mestre Benedito de Angola.
Afoxé Filhos de Gandhi
Associação de Capoeira Estilizada Portal da Gamboa
Bloco Escravos da Mauá
Casa Amarela
Casa da Cultura do Porto
Centro Cultural da Ação e da Cidadania
Centro Cultural Velhos Malandros
Companhia Mariocas
Conexão Cariocas de Rodas na Rua/Roda do Cais do Valongo
Feira de Artes Rio Porto em Harmonia
Grande Companhia Brasileira de Mystérios e Novidades
IPM – Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos
Instituto Fim
Instituto Galpão Gamboa
Mostra + CineRG Registro geral e Vozes do Cais
MAR – Museu de Arte do Rio
Projeto SANIN
Sônia Baiana
Tia Lúcia
*Mafalda Pequenino, atriz, 37 anos, paulista, residente no Rio de Janeiro
Carlos FM
22 de dezembro de 2013 1:04 pmParabéns!
São ótimas as iniciativas relatadas na reportagem, semelhantes a outras implantadas em muitas outras cidades do mundo, mas só as que valorizam sua herança cultural.
implacavel
23 de dezembro de 2013 1:03 pmLindas fotos
http://www.cidadeolimpica.com.br/galeria/cais-e-jardim-do-valongo/