Autora: Mariana Desidério Barbosa
Do Edifícios Abandonados | Mauá, 354
Mauá, 354



Por entre os bares sujos e as lojinhas de roupa barata, portas de aço fechadas escondem espaços desocupados de antigos comércios e dominam a paisagem na rua Mauá, à beira da estação da Luz, centro de São Paulo. Os muros altos e tapumes das novas obras do Metrô completam a sensação de lugar vazio, numa região antes apinhada de gente e cheia de vitalidade, na órbita da principal estação de trem da cidade.
Uma sequência de cinco dessas antigas lojas traz em suas portas sujas de poluição quatro desenhos: uma cabeça de porco branca, contornada de laranja, com os dentes afiados e os olhos revirados voltada para um mosquito azul de olhos gigantes que parecem peitos de bicos verdes. Ao lado, o rosto de uma mulher de lábios grossos, adornado com espirais por todos os lados dá as costas a uma pessoa com rosto amarelo e vestido de capuz simples que segura um objeto marrom e assobia notinhas musicais.
Escondido por trás destes grafites non-sense, está o antigo hotel Santos Dumont. Na fachada recuada, roupas, lençóis e vasos de planta empoleirados nas janelas. No topo do prédio, alguém pichou uma frase do século 19: “A propriedade é um roubo”, do anarquista francês Proudhon. Construído pelo comerciante polonês Mayer Wolf Szifer e hoje de propriedade de Leon Zsniefr e seus irmãos, o edifício no número 354 da Mauá está tomado por sem-teto desde 2007 e é uma das principais ocupações no centro, sede do MTSC (Movimento dos Sem Teto do Centro).
Branca e vermelha, com jeito de que foi pintada ontem, a porta do antigo hotel Santos Dumont se destaca na paisagem cinza e enferrujada da rua Mauá. Na entrada, uma pessoa responsável pela segurança pergunta ao visitante onde vai, se alguém está esperando. Liga do celular para confirmar e libera a passagem. No térreo, uma moradora montou uma pequena mercearia, com direito a frango assado na televisão de cachorro. Há um espaço formado pelo vão da construção, para onde estão voltadas todas as janelas dos apartamentos de fundos. Basta uma bola, cinco pessoas e este pátio vira campo de futebol, sob a moldura das roupas penduradas nas janelas.
Ali não há elevador. Os banheiros são coletivos. O cheiro do lugar é uma mistura de umidade, comida e limpeza. Existe uma vontade quase teimosa em manter o espaço limpo. Quando chegaram, os invasores se depararam com ratos e sujeira por todos os lados.
Estreitos e meio esverdeados pela luz fraca, os longos corredores apresentam fileira de portas de madeira iguais, quase juntas, com grandes números pretos escritos em tinta spray identificando os apartamentos. De vez em quando, uma criança aparece no caminho. O Santos Dumont abriga muitas delas. De acordo com a permissão das mães, elas circulam pelos corredores, vão à casa de outras criança, pegam um brinquedo, voltam para o seu canto. Se sentem seguras ali.
Assim como no Prestes Maia, na ocupação do hotel a convivência com os vizinhos é política. Além de decidir como será a limpeza das escadas e definir regras para o convívio, os moradores se reúnem para discutir os rumos da ocupação quando há ameaça de despejo e são cúmplices na luta por sua própria moradia –o grande objetivo de todos ali.
São cerca de 1.000 pessoas espalhadas por seis andares. Cada quarto de hóspedes tornou-se um apartamento para as 253 famílias moradoras, como a de Meire, a de Grazielle e a de Manoel.
Meire é apelido de Meiriane Sampaio Barros. Ela veio do Maranhão com 25 anos cursar pós-graduação em turismo e acabou num cortiço sem energia elétrica. Com diploma de ensino superior, é exceção entre os moradores de qualquer ocupação. No Maranhão, vivia com a família em casa própria e aqui se deparou com uma pobreza que imaginava, mas não via de perto.
Já para Grazielle Alves dos Santos , 22 anos, os prédios ocupados sempre foram parte da realidade. Entrou em sua primeira ocupação – um quartel – com 15 anos, levada pela irmã, responsável por ela após a morte da mãe. Antes, morava em pensão. Há alguns anos, um carro a atropelou em frente ao Mercado Municipal e ela passou dois meses em coma. Hoje, resta uma cicatriz na garganta e a voz fanha de quem precisou respirar pela traqueia. Sobre a ocupação, só elogios.
Manoel Pedro dos Santos Filho é outro entusiasta das ocupações e do movimento sem-teto. Veio de Pernambuco com 14 anos, a mulher grávida e a necessidade de um emprego para sustentar a família. Em 2002, mudou-se para o Prestes Maia, saindo de um aluguel de R$ 600 em Guarulhos. Com o dinheiro economizado, montou uma empresa de transporte. Não mora mais na ocupação na rua Mauá, por onde também passou, mas aparece por lá todos os dias, para ajudar na luta dos companheiros.
Proprietário
![]()
Leon Snifer tem 78 anos, o rosto enrugado, os poucos cabelos, brancos, as maçãs do rosto sobressalentes, que escondem pequenos olhos azuis. O corpo cede à pressão da gravidade e curva-se cada vez mais para baixo, deixando parecer que o terno, antes no tamanho ideal, hoje é grande demais. Um senhor esperto e enigmático, amante dos livros e de um bom papo – oportunidade para mostrar o que sabe do mundo. Filosofia, religião, direito, línguas e medicina são alguns dos campos pelos quais se arrisca.
Mesmo com a idade avançada, vai todos os dias para o escritório de advocacia que divide com uma colega na avenida Liberdade, centro de São Paulo. Um espaço grande e mal iluminado de paredes de compensado barato que imitam os desenhos da madeira. A localização foi escolhida quando ele veio trabalhar em São Paulo e lhe apareceram muitos clientes orientais. Hoje trabalha mais para amigos.
Solteiro, faz mistério quando o assunto é a própria família, deixando transparecer de propósito uma vida amorosa agitada. Não gosta de falar sobre quantos filhos tem, com a desculpa de poder comprometer as mães. Também disse ter várias formações acadêmicas, mas sem entrar em detalhes, dizendo não querer alimentar o próprio ego. Sabe-se apenas que atua como advogado e já foi jornalista no Jornal Revista Inter/Nacional, do qual era diretor-presidente.
Editorial assinado por Leon na edição de setembro de 1987 da publicação defendia a pena de morte no Brasil: “(…) os criminosos presos tem garantidos as refeições nas horas certas – o cardápio é regulado – e assistência médica certa (…). Quais as perspectivas? Nenhuma positiva, só a construção de mais presídios e mais gastos de manutenção e mantança. A pena de morte é solução? Não acreditamos. A pena de morte é remédio? Acreditamos. Acreditamos e justificamos.”
A sede da diretoria do jornal era o escritório na avenida Liberdade e a sede de distribuição, o edifício da rua Mauá, herdado por Leon e seus irmãos, Abram e Sara.
Construído por seu pai, o comerciante polonês Mayer Wolf Szifer, o hotel era uma forma de aproveitar o momento turístico do quarto centenário de São Paulo, comemorado em 1954. O terreno havia sido comprado da família Gordinho em 1945 por Cr$ 1.652.840. Em 1953, Mayer Wolf demoliu as antigas lojas que ocupavam o espaço e ergueu o hotel, cujo nome completo é “Santos Dumont – o orgulho do centenário”. Na época, a região da Luz era valorizada e frequentada pela elite paulistana.
Mayer Wolf morreu em 1957, e a propriedade foi transferida para sua mulher Melania e os três filhos. Apesar da crescente decadência da região, o hotel funcionou até o fim da década de 1990, segundo Leon. Depois, as salas foram alugadas para escritórios e usadas por ele para abrigar sua biblioteca, uma parte de seu escritório de advocacia e o jornal. A viúva de Mayer Wolf também viveu no prédio até morrer, em 2002.
Em 2003, houve a primeira invasão do movimento sem-teto. Segundo Leon, na época, o prédio abrigava alguns inquilinos, sua biblioteca e os pertences de sua falecida mãe. Ele mesmo estaria no local no momento da ocupação e diz que tentaram agredi-lo. Sem lugar onde guardá-los, os livros de Leon e os pertences de sua mãe precisaram ser doados.
As versões são contraditórias. O MSTC diz que, quando houve a ocupação, o prédio estava vazio há 17 anos, infestado de ratos e sujeira, e Leon estava em uma das lojas do terreno na hora da ocupação, não dentro do hotel.
A família Zsnifer pediu a reintegração de posse e passados dois meses os ocupantes saíram. Mas em 2007, houve nova ocupação e desta vez os proprietários não se interessaram em reaver o prédio. Leon reclama que, mesmo com a reintegração de posse decretada pela Justiça, a polícia não seria capaz de manter os invasores longe. Também reclama da falta de colaboração de seus irmãos na briga pelo edifício.
Passados quatro anos da ocupação, Leon e seus irmãos não têm mais nenhum interesse no imóvel e gostariam de vendê-lo, “se aparecesse um comprador”. É evidente que o problema do antigo hotel não está entre as principais preocupações da família.
Mesmo que houvesse um esforço, a venda parece tarefa impossível – a dívida do imóvel com o IPTU é milionária, e a família nem sequer sabe disso. O imposto não é pago regularmente desde 1974 e os proprietários devem R$ 2.220.586,49 à prefeitura. Entretanto, Leon acredita que sua mãe pagava o IPTU regularmente até pouco antes de morrer e a dívida fiscal começou somente nos anos 2000. “A prefeitura pode dizer que a dívida vinha de antes, mas o IPTU era pago pela minha mãe”, diz.
Segundo ele, uma parte do imposto atrasado foi paga um pouco antes da invasão dos sem-teto. Mas os documentos ficaram no prédio, e foram destruídos pelos moradores. Hoje ele não sabe o valor devido e não se interessa pelo assunto. A prefeitura, a quem o imóvel já pertence ao menos parcialmente, devido ao tamanho da dívida, há dez anos diz que pretende desapropriar o prédio para fazer moradia popular, mas nunca fez uma proposta concreta, diz Leon.

antonio francisco
15 de dezembro de 2013 12:54 amprédios abandonados, BH também os tem.
Tamára, é impressionante como os órgãos públicos deixam edifícios nas cidades jogados às baratas. Quando invadidos, seus ocupantes podem inclusive correr riscos de saúde.
Em Belo Horizonte há vários prédios (alguns, públicos) abandonados. Um exemplo:
http://g1.globo.com/minas-gerais/noticia/2013/10/grupo-ocupa-predio-abandonado-e-pede-revitalizacao-do-espaco-em-bh.html
Tamára Baranov
15 de dezembro de 2013 2:32 pmÉ impressionante isso
É impressionante isso Antonio, aqui onde moro, uma cidadezinha interiorana de São Paulo, existe isso também, imóveis históricos abandonados e alguns postos abaixo para dar lugar a estacionamentos. E não é somente aqui não, nos EUA, a falência da cidade de Detroit é inacreditável, parte dela ainda está em condições, mas do outro lado há espantosos 78 mil mil imóveis vazios, as fotos dos prédios abandonados são chocantes.
Um abraço