Elvira Helena acaba de lançar Elvira (Fina Flor), o seu primeiro CD autoral. Compositora (são dez as faixas em que escreveu versos para melodia de parceiros diversos, além de outras três, para as quais criou letra e música), ela já é, de fato, uma intérprete diferenciada. Seu timbre é encorpado, o que dá às notas um sentido de profundidade. Ele vem acrescido de uma afinação firme e de um suingue que se apresenta quando o ritmo da música assim pede, além de uma delicadeza condizente com cada canção interpretada.Elvira é delicioso de se ouvir. Os arranjos são o que há de melhor e permitem que o repertório flua com preciosa musicalidade. A cada faixa, uma grata surpresa. Músicos gabaritados e com larga experiência de estrada tornam o som de cada um dos arranjos um companheiro que conduz a intérprete.
A faixa que abre o disco é uma linda composição de Elvira Helena: “Quando Eu Canto pra Você” tem apenas o piano de Fenando Moraes e o violoncelo de Jaques Morelenbaum a ampará-la. A fluidez da harmonia se soma a versos amorosos: Não procure/ espere, espere, eu te acho/ Você vive o tempo todo em mim. O piano dá a segurança harmônica, o cello tece desenhos de profunda beleza… Já na abertura vemos uma das mais belas músicas do álbum.
Com arranjo de Fernando Moraes e Mimi Lessa, “Chorim”, uma das seis parcerias de Elvira Helena com Mimi, é um bolero que começa apenas com a voz de Elvira e o piano de Fernando Moraes. Com o ritmo marcado pelo bongô de Ricardo Costa e pela percussão de Robertinho Silva, a guitarra de Felipe Poli dá o ar de sua graça, bem como brilha a flauta em sol de Zé Carlos Bigorna. Elvira se esmera e sem esforço canta como se deve cantar um bolero.
“Vida Partida” (Claudio Guimarães e Elvira Helena) é um samba com levada bossa nova. Destaque novamente para a flauta em sol de Zé Carlos Bigorna. É o violão de Claudio Guimarães (também autor do arranjo) quem sola a introdução. A voz de Elvira vem macia. O contrabaixo de Luiz Alves e a percussão de Robertinho Silva seguram as pontas e a tudo sustentam com energia.
“Amor, Saudade, Amor” (Hamilton de Holanda e Elvira Helena) tem arranjo de Fernando Moraes e conta somente (para que mais?) com o seu próprio piano, o vibrafone de Jota Moraes e o baixo acústico de Sergio Barrozo. O piano toca a introdução. Elvira chega e se revela docemente afinada. O baixo dá sustança à harmonia. O vibrafone improvisa. Tudo é beleza, é naturalidade.
Um samba daqueles de mexer com as cadeiras é “Reclama de Mim” (Elvira Helena). Com arranjo do grupo Gente Fina e Outras Coisas, as flautas de Zé Carlos Bigorna somam-se ao bandolim de Ronaldo do Bandolim e ao violão de Fernando Coelho, e, sob a benção do suingue do contrabaixo do grande Bebeto Castilho, entregam-se ao ritmo tocado por Jovi Joviniano e Ricardo Costa. Supimpa!
Tudo em Elvira é saboroso, sem resquício de soberba. É simples como deve ser o que não precisa de fanfarronice para ser bom para os ouvidos.
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PS. Hay hombres que luchan un día y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años, y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida, esos son los imprescindibles. (Bertolt Brecht).
Descanse em paz, imprescindível Mandela.
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