4 de junho de 2026

Tudo em Elvira é saboroso, sem resquício de soberba

Elvira Helena acaba de lançar Elvira (Fina Flor), o seu primeiro CD autoral. Compositora (são dez as faixas em que escreveu versos para melodia de parceiros diversos, além de outras três, para as quais criou letra e música), ela já é, de fato, uma intérprete diferenciada. Seu timbre é encorpado, o que dá às notas um sentido de profundidade. Ele vem acrescido de uma afinação firme e de um suingue que se apresenta quando o ritmo da música assim pede, além de uma delicadeza condizente com cada canção interpretada.
 
Elvira é delicioso de se ouvir. Os arranjos são o que há de melhor e permitem que o repertório flua com preciosa musicalidade. A cada faixa, uma grata surpresa. Músicos gabaritados e com larga experiência de estrada tornam o som de cada um dos arranjos um companheiro que conduz a intérprete.
 
A faixa que abre o disco é uma linda composição de Elvira Helena: “Quando Eu Canto pra Você” tem apenas o piano de Fenando Moraes e o violoncelo de Jaques Morelenbaum a ampará-la. A fluidez da harmonia se soma a versos amorosos: Não procure/ espere, espere, eu te acho/ Você vive o tempo todo em mim. O piano dá a segurança harmônica, o cello tece desenhos de profunda beleza… Já na abertura vemos uma das mais belas músicas do álbum.
 
Com arranjo de Fernando Moraes e Mimi Lessa, “Chorim”, uma das seis parcerias de Elvira Helena com Mimi, é um bolero que começa apenas com a voz de Elvira e o piano de Fernando Moraes. Com o ritmo marcado pelo bongô de Ricardo Costa e pela percussão de Robertinho Silva, a guitarra de Felipe Poli dá o ar de sua graça, bem como brilha a flauta em sol de Zé Carlos Bigorna. Elvira se esmera e sem esforço canta como se deve cantar um bolero.
 
“Vida Partida” (Claudio Guimarães e Elvira Helena) é um samba com levada bossa nova. Destaque novamente para a flauta em sol de Zé Carlos Bigorna. É o violão de Claudio Guimarães (também autor do arranjo) quem sola a introdução. A voz de Elvira vem macia. O contrabaixo de Luiz Alves e a percussão de Robertinho Silva seguram as pontas e a tudo sustentam com energia.
 
“Amor, Saudade, Amor” (Hamilton de Holanda e Elvira Helena) tem arranjo de Fernando Moraes e conta somente (para que mais?) com o seu próprio piano, o vibrafone de Jota Moraes e o baixo acústico de Sergio Barrozo. O piano toca a introdução. Elvira chega e se revela docemente afinada. O baixo dá sustança à harmonia. O vibrafone improvisa. Tudo é beleza, é naturalidade.
 
Um samba daqueles de mexer com as cadeiras é “Reclama de Mim” (Elvira Helena). Com arranjo do grupo Gente Fina e Outras Coisas, as flautas de Zé Carlos Bigorna somam-se ao bandolim de Ronaldo do Bandolim e ao violão de Fernando Coelho, e, sob a benção do suingue do contrabaixo do grande Bebeto Castilho, entregam-se ao ritmo tocado por Jovi Joviniano e Ricardo Costa. Supimpa!
 
Tudo em Elvira é saboroso, sem resquício de soberba. É simples como deve ser o que não precisa de fanfarronice para ser bom para os ouvidos.
 
 
PS. Hay hombres que luchan un día y son buenos. Hay otros que luchan un año y son mejores. Hay quienes luchan muchos años, y son muy buenos. Pero hay los que luchan toda la vida, esos son los imprescindibles. (Bertolt Brecht). 
 
Descanse em paz, imprescindível Mandela.

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Recomendados para você

Recomendados