Bolsonaro, o descartável, por Fernando Horta

Ocorre que Bolsonaro ainda é necessário até a aprovação das reformas. É ele que precisa ser queimado na pira da opinião pública para que o “mercado” atinja seus objetivos.

Bolsonaro, o descartável, por Fernando Horta

Há um consenso na historiografia sobre o golpe de 1964 no que diz respeito às mudanças implementadas. A maioria das reformas feitas pelos militares (como a mudança dos regimes de trabalho, as reformas bancárias e financeiras, educacional e etc.) eram impossíveis de serem feitas em regimes democráticos. O custo delas seria excessivamente alto. O “mercado” requeria, o novo arranjo financeiro internacional pressionava, os EUA (capitaneando os “investidores”) também estavam desejosos, mas a verdade é que o custo era alto demais para qualquer político em período democrático.

Ocorre o mesmo, hoje, com o Brasil.

O custo das reformas que o “mercado” quer é altíssimo. A destruição da previdência social brasileira (vendida enganosamente como apenas uma “reforma”), o aprofundamento da destruição de todas as leis de seguridade do trabalho e a implosão do sistema público de educação e saúde do Brasil são muito “bem-vindos” pelo mercado. Como se sabe, o “mercado” não preza nem respeita ninguém. É o lucro pelo lucro e ponto final. A aposta do setor financeiro nacional e internacional era em Temer. Um político velho e velhaco, corrupto fisiológico, apavorado pela possibilidade de passar seus poucos anos de vida preso, e oriundo de um partido que virtualmente dominava o parlamento brasileiro desde o final do regime militar.

Temer, contudo, não esteve à altura do desafio. O estado de desarranjo político que impeachment deixou, mais a obsessão e necessidade do ex-vice em proteger seus telhados de vidro (Eliseu Padilha, Moreira Franco e etc.) foram alvejados de morte com a prisão de Geddel Vieira. Todo este reboliço enfraqueceu o governo e as “reformas” não vieram. Ainda que Temer conseguiu se segurar no poder com a compra de votos e a aprovação das leis que destruíram a CLT. Mas foi só.

Diante do fracasso deste plano e da ascensão da extrema-direita, a aposta foi renovar a dobradinha que tinha dado certo no final dos anos 20 e dos anos 30, na Europa. Um autoritário insano e ignorante “apoiado” por liberais, a privatizarem tudo o que tinha pela frente. Aos que não sabem, Hitler foi um privatizador contumaz nos seus primeiros anos de governo. Ao contrário do que fazia o resto da Europa, o nazista chegou a privatizar serviços básicos de água e esgoto em algumas cidades alemãs. A aposta da época era que o populismo insano de Hitler se dobraria ao capital e a regra do “lucro pelo lucro” mandou os capitalistas seguirem em frente com o apoio ao nazismo.

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Guedes não é apenas um fraco economista num governo de lesados intelectualmente. Guedes é o símbolo da mesma aliança daquela época. E, como eles não estudam História, a aliança vai naufragar aqui, como o fez lá. O autoritarismo “pop”, potencializado pelas fraudes em redes sociais de Bolsonaro, é usado pelo capital como matéria de combustão para as “reformas”. Tão logo Bolsonaro as aprove (e se queime completamente no processo) ele será descartado e Mourão entrará no seu lugar, como bombeiro a apagar os “resquícios” de fogo. Todos ficarão felizes. Mourão fará o que gosta: bater na população, o mercado terá acesso aos recursos da previdência, da educação, da saúde e tudo mais, e o sistema internacional terá o Brasil novamente na condição de colônia.

Todos, menos o povo brasileiro e, imaginem, Bolsonaro. Bolsonaro será descartado como fralda plástica de bebê. Pesado de “cocô e xixi”. Sem serventia. Ele e os filhos. O mercado, que é o cérebro por trás de tudo, já viu que o custo-capitão é altíssimo. Cada asneira dele ou dos filhos e o PIB cai. Cada insanidade dita em linguagem de latrina pública pelo “guru” de Richmond e investidores se afastam. Ninguém, de qualquer espectro político, atura um indigente mental no comando de um país. Especialmente um país do tamanho do Brasil.

Ocorre que Bolsonaro ainda é necessário até a aprovação das reformas. É ele que precisa ser queimado na pira da opinião pública para que o “mercado” atinja seus objetivos. E a escolha foi mais que perfeita. Nenhum político com alguma inteligência aceitaria este papel. Bolsonaro nunca mais será eleito para nada, seus filhos serão escorraçados e até o exército já se deu conta que pode ser tragado neste buraco negro de impopularidade. Hoje, já há “previsão” de PIB negativo, contrariando as “previsões” do início do ano de que o Brasil cresceria 3%. Não sei exatamente se foi a mãe Dinah ou o “Homem do Rá” que fizeram aquelas primeiras previsões. Economistas sérios é que não foram. Todo o caos, entretanto, que Bolsonaro já causa, atentem, NÃO tem relação com o cenário político e econômico internacional e nem com as próprias medidas do seu (des)governo.

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Avizinha-se uma guerra entre EUA e Irã. Guerra de verdade. A qual nem Rússia, nem China poderão se furtar. Qualquer um que conheça as bases do conceito de “complexo de segurança” sabe que estes países não tolerarão a queda individual de seus aliados. A guerra comercial entre EUA e China é uma disputa que os EUA NÃO podem vencer. E ela levará a enormes turbulências internacionais. Há, ainda, a questão de uma nova crise no sistema financeiro mundial. Aos moldes de 2008. Trump desregulamentou tudo o que Obama tinha conseguido fazer, após o colapso de 2008. E Obama tinha conseguido, a bem da verdade, muito pouco. Todo este complexo jogo de forças internacional deve estourar no prazo de um a dois anos. O capitão (ou quem estiver no poder) vai viver dias amargos.

Além deste nada convidativo cenário internacional, as medidas do governo Bolsonaro são todas contracionistas, ou seja, retiram dinheiro da sociedade. Só há uma coisa que faz um país crescer: demanda. Se não há consumo, não há produção. E sem dinheiro, ninguém consome. Marx chamava esta a “contradição interna do capitalismo”. Enquanto o trabalhador tem que ser explorado ao máximo ele é, também, consumidor. E se ele não tiver como consumir o sistema capitalista funciona apenas para o 1%. Isto gera violência, contradições e leva – necessariamente – ao questionamento e à queda de todo o sistema.

A menos, é claro, que você tenha um político burro o suficiente e popular o suficiente para não entender nada disto e se imolar na “fogueira” do “mercado”. Achar Bolsonaro não foi fácil. Não seria possível fabricar o seu nível de ignorância e cegueira. O problema é que ele é tão incompetente quanto burro.

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Assim que aprovar as reformas, Bolsonaro cai. Mourão assume com o lustro dos coturnos e o tilintar dos fuzis. O Brasil será “pacificado” da mesma forma que foi com o Duque de Caxias, no século XIX. Quem não se adaptar morre. Fuzilado, se for preciso.

O mercado ficará feliz. O Capitão, não. É exatamente isto que seus filhos, dois milímetros mais inteligentes que o pai, estão preocupados. Duvido que eles consigam entender o que está acontecendo, mas estão ouvindo o “zumbido do mosquito”. Seria interessante eles lerem a biografia de Mussolini, especialmente a parte final dela. Assim saberiam o que acontece com líderes fascistas quando o capital lhes abandona a retaguarda.

Se eu fosse Bolsonaro, somente faria esforço para aprovar as reformas no final do meu período como presidente. E isto condicionado ao apoio dos capitalistas à reeleição. Se o capital gosta de trocar os políticos e as fraldas de tempos em tempos e pelos mesmos motivos, com Bolsonaro encontraram um estrume que vai feder pouco. Embalado nas modernas fraldas de bebê que hoje chamamos de “redes sociais”. A aposta é que o Capitão nem verá de onde virá o tapa da “mão invisível”.

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