Crítica marxista da religião e a guerra de informações em torno de Bolsonaro, por Bruno Reikdal Lima

A disputa não é pela “verdade” do que faz ou fala Jair, mas da realidade em que Jair é canal de desvio da luta de classes para a luta na manutenção da ordem das classes.

Crítica marxista da religião e a guerra de informações em torno de Bolsonaro

por Bruno Reikdal Lima

Praticamente toda semana temos que acompanhar o árduo trabalho de peças publicitárias, montagens, produção de conteúdo tosco e mentiroso da equipe de comunicação de Jair Messias Bolsonaro. Os cenários propositalmente grosseiros (iniciados com a fatídica mesa de café da manhã aparentemente simples com pão, leite condensado e uma jarra de café ao lado de um copo americano), lives recorrentes com as personagens fardando uniformes de futebol, os trejeitos do que conhecíamos antigamente como “tiozão do churrasco” que era caricato e falava coisas absurdas, mas que deixávamos meio de lado pois era “de seu tempo”, assim como as montagens de aglomeração organizadas com as milícias digitais e os fanáticos que encontraram lugar para desaguar seus ressentimentos e violências reprimidas, são recorrentemente “respondidos” com o esforço ineficaz de desmentir a farsa (ou a tragédia, dependendo do ponto de vista).

As agências e coletivos de checagem de fatos, jornalistas e internautas tentando catar o leite derramado com uma peneira e os formadores de opinião de redes sociais tentam desmontar o ídolo mostrando o quanto ele é falso, mentiroso, ilusório, fruto de nossas próprias cabeças animadas com suas criações aterrorizadoras. E o efeito prático desse esforço? Nenhum. A margem do 1/3 da população que se mantém no núcleo duro do bolsonarismo segue seu ritmo. Não por causa do ídolo Jair, Messias ou Bolsonaro, mas pelas condições que sustentam a existência desse ídolo. Tentar quebrá-lo com as desmistificações sem derrubar o altar que o mantém de pé remonta o problema da crítica da religião na Alemanha do século XIX. Como escreveu Marx em 1844, “Na Alemanha, a crítica da religião está, no essencial, terminada; e a crítica da religião é o pressuposto de toda a crítica”.

Nesse período e nesse lugar, Alemanha do século XIX, a crítica da religião não tratava de uma crítica ao fenômeno religioso apartado de todas as demais esferas das relações sociais, como acabamos nos acostumando a fazer na ilusão de que é possível separar uma experiência histórica e comunitária de fé de todo seu contexto, imaginando que liberdade religiosa seja liberdade de um indivíduo escolher entre as opções misteriosas do mercado da religião, qual a sua preferida. O problema da religião tocava a constituição e desenvolvimento histórico do povo alemão em seu território, da constituição e justificação do Estado, das classes sociais em transformação e, também, dos valores em disputa pela estabilização ou revolução da ordem social vigente. Na ideologia alemã se disputavam os diferentes modelos de sociedade que orientavam diferentes movimentos sociais. Sob esse contexto que temos o trecho de Marx citado acima, e que tem como ponto de partida a crítica da religião realizada por Ludwig Feuerbach.

Feuerbach teve como ponto central a notação de que as imagens de Deus eram, na verdade, imagens que as comunidades humanas produziam de si mesmas, alienando conteúdos positivos nas construções divinas, de modo que a história dos deuses seria, na verdade, a história dos homens. Trata-se de uma crítica antropológica da religião, ou seja, uma crítica que conduz não à discussão se existe ou não uma divindade, mas sim quais os conteúdos humanos que são refletidos e alienados nas divindades. A existência ou não de Deus não é o problema, e sim qual o conteúdo efetivo dessa existência. Por isso, na sequência de indicar que a crítica da religião é o pressuposto de toda crítica Marx comenta que o humano, “na realidade fantástica do céu, onde procurava um super-homem, encontrou apenas reflexo de si mesmo”, o que mostra que a crítica de seu tempo tem como fundamento o seguinte: “o homem faz a religião, a religião não faz o homem”.

Entretanto, Marx não estaciona onde também estacionavam muitos dos críticos. Ele dá um passo a mais, ainda acompanhando Feuerbach, mas colocando conteúdos novos: “mas o homem não é um ser abstrato, acocorado fora do mundo. O homem é o mundo do homem, o Estado, a sociedade. Esse Estado e essa sociedade produzem a religião, uma consciência invertida do mundo, porque eles são um mundo invertido […]. Ela [a religião] é a realização fantástica da essência humana, porque a essência humana não possui uma realidade verdadeira. Por conseguinte, a luta contra a religião é, indiretamente, contra aquele mundo cujo aroma espiritual é a religião”. E dessa longa citação, o que quero chamar a atenção e nos faz voltar para o problema de enfrentar a mística do ídolo Jair e suas recorrentes produções fantasiosas, é que o conteúdo em disputa não reside nas cenas produzidas em torno do imaginário messiânico do falso salvador. Mas no mundo que dá as condições para que essas imagens tenham sentido, encontrem lugar e, até, sejam necessárias para grupos humanos.

A crítica marxista da religião (tantas vezes esquecida por parecer ser um “tema menor” ou ainda confundida com a discussão inútil sobre existência ou não de uma divindade) tem como resultado a noção de que “a exigência de que abandonem as ilusões acerca de uma condição é a exigência de que abandonem uma condição que necessita de ilusões. A crítica da religião é, pois, em germe, a crítica do vale de lágrimas cuja auréola é a religião”. Portanto, a quebra das ilusões não tem como lugar propriamente dito a disputa em torno das ilusões, mas pelo fim das condições que requerem ilusões, que são seu solo fértil, as condições históricas e sociais que as enchem de sentido, de conteúdo. A disputa não é pela “verdade” do que faz ou fala Jair, mas da realidade em que Jair é canal de desvio da luta de classes para a luta na manutenção da ordem das classes. Achar que o problema é desinformação do povo, falta de cognição, consciência individual, crenças ou preferência de cada um e cada uma que compõem o 1/3 que segue o jogo como proposto, é não entender o fundamento de nossas mazelas e as relações históricas, sociais e de produção/exploração que nos constituem enquanto pessoas, enquanto classes, enquanto sociedade brasileira.

Desse modo, a chamada “disputa de narrativas” não faz sentido dentro do debate discursivo de critérios de verdade ou de melhor conto convincente se não estiver aliada e comprometida com as transformações das condições históricas e sociais que tornam essas mesmas narrativas possíveis. Os jornalistas e opinólogos liberais que lutam pela verdade dos fatos e se vangloriam de serem “científicos” ou “verdadeiros” por saberem que há uma ilusão montada, na verdade não lutam, descansam em paz nas poltronas do privilégio à espera de que a história vingue os que foram moralmente bons para com a “verdade” (seja lá o que isso signifique) sem que a realidade da reprodução social seja tocada. O problema é a mentira de Jair, e não a verdade das condições de violência, exploração e dominação que constituem a realidade brasileira que produziu Messias e nos fez chegar ao limite com Bolsonaro.

A crítica marxista da religião não para no esforço de desmascarar essas formas “sagradas da autoalienação humana”, dessas imagens e ilusões desenvolvidas para mitificar personagens da história, mas na crítica das formas “não sagradas”, comuns, tão corriqueiras que se tornam imperceptíveis, que chegam ao que Marx chamou em um dos trechos do livro III d’O Capital de “religião da vida cotidiana”. Os iluminados param no esforço da religião especial, evidente, manifesta nas formas mágicas e fantasiosas, não avançando para as formas sociais, intocadas, que sustentam e dão conteúdo para todas as outras. Chegam à crítica do céu, mas não voltam para a crítica da terra.

Na Alemanha do século XIX a crítica da religião havia chegado com Feuerbach à conclusão de que “o homem é o ser supremo para o homem”. Havia descoberto, portanto, que critérios de verdade eram construídos, desenvolvidos e aprimorados pelo próprio humano, e que sua racionalidade e modo de vida eram o ponto de partida e chegada do processo cognitivo, de pensamento, da crítica e de suas construções, de suas formas sociais. Mas não dava o passo decisivo de implicar a necessidade de, sabendo-se disso, enfrentar as condições materiais e históricas sistematicamente para que a realidade que requeria tais ilusões fosse derrubada de seu altar. Ela se manteria, pois o problema do homem em abstrato e acocorado fora de seu mundo era solucionado por meio de seu próprio esforço teórico, abstrato e fora do mundo. Cada um com sua iluminação chegaria (ou não) à verdade, ao fim das ilusões assim que descobrisse que eram “ilusões” com a demonstração teórica do problema. Por isso Marx acrescenta um imperativo categórico prático: “a crítica da religião tem seu fim com a doutrina de que o homem é o ser supremo para o homem, portanto, com o imperativo categórico de subverter todas as relações em que o homem é um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível”.

Alertar formalmente no esforço de cobrar informação contra desinformação, verdade contra inverdade, notícia contra notícia, sem que isso esteja implicado na luta pela vida e ao lado das vidas das pessoas diariamente exploradas, violentadas, humilhadas, escravizadas, abandonadas e desprezadas, tem o mesmo efeito que avisar ao religioso que uma divindade não existe. O conteúdo da luta não está no “esclarecimento” abstrato de acalmar o dia com a informação correta. Ela não acalma. Ela não alimenta. Ela não alivia o peso. Ela não retira das situações de marginalização quem foi produzido e reproduzido carregando a pirâmide social nas costas.

 

REFERÊNCIAS

MARX, Karl. Crítica à filosofia do Direito de Hegel. Boitempo: São Paulo, 2010.

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