Intercept, percept, interpret: percepção pública e fatos, por Frederico Firmo

O fantasma da Casa Grande volta a dominar divulgando a ideia de que o castigo no pelourinho é normal.

Intercept, percept, interpret: percepção pública e fatos, por Frederico Firmo

A principal luta do Intercept será contra a percepção pública do abuso de autoridade, e as reações ao Intercept trabalham com isto.

Folheando a Folha me deparo com Eli Gaspari, uma arma de peso na construção das narrativas, afinal não se pode ignorar seu status de grande jornalista. Ele passa superficialmente sobre Petra Costa e seu documentário, Democracia em Vertigem, interrogando sobre a coincidência do lançamento pela Netflix,com as reportagens do Intercept. Não me lembro que tenha interrogado os lançamentos dos filmes de Padilha. Frisa que o documentário tem um viés simpático a Lula, a quem enche de adjetivos negativos, e com um certo escárnio, fabula sobre a derrota eleitoral do PT. Menciona um tal messianismo de Lula, enquanto trata o Jair Messias como um capitão primaveril. Discute a parcialidade do filme ao mesmo tempo que fala que a cineasta tratou Moro “corretamente” como um instrumento “eficaz” de combate à corrupção. Não tem adjetivos ou considerações sobre o termo instrumento eficaz, que aparece como um dado não discutível. A seguir vai se debruçar sobre o que agora me debruço, o Intercept.

Faz uma crítica ao conta gotas de Glenn Greenwald e adverte Glenn sobre suas ameaças de divulgação. Usa o clichê, o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro. Isto soa como uma ameaça, mas não menciona as ameaças de Moro. Prosseguindo sua “análise” conta uma longa história sobre um jornalista conservador americano, Buckley, que nos Estados Unidos inventou uma história falsa de documentos inventados, que por serem plausíveis geraram efeitos inesperados. Segundo ele um General citado nos documentos diz que não se lembrava, mas que não poderia desmentir. Obviamente Gaspari poderia ter sido mais sutil.

Eu diria que Gaspari trabalha com a percepção pública e jamais com os fatos. Os fatos já divulgados são estarrecedores, não por serem plausíveis, mas por serem de conhecimento público e já sobejamente divulgados. Mas apesar das, agora divulgadas, 55 ações contra abusos, que já correram ou correm contra o impoluto e “eficaz” juiz de Curitiba, Gaspari prefere alimentar a dúvida e colocar em relevo o vocábulo eficaz.

Não há adjetivos ou indignação com os fatos, apenas uma minimização deles, e subrepticiamente alimenta a idéia de falsidade. Mas isto só demonstra o papel de Gaspari e outros, trabalhando sempre a percepção pública fugindo dos fatos ou do conteúdo. Seu artigo se encaixa na série de artigos de formadores de opinião, que querem transformar tudo isto apenas no que disse FHC: “uma tempestade em copo d’agua” ou como escreveu o coach do Ministro: ” A montanha pariu um rato” . Advirto que um rato pode apavorar e até derrubar um paquiderme.

Gaspari ataca o ponto, insinua que após o impacto inicial e o estabelecimento de um certo terror pelos atingidos, a reação vai se instaurar tentando resgatar o passado recente, quando todas as arbitrariedades explícitas eram cinicamente defendidas pelos autores e pela mídia como medidas necessárias para se chegar a um fim. Criaram um clima quase que rotineiro de violações. A mídia e criadores de opinião reverberavam a ideia, criando a percepção de que violar a constituição é um instrumento “eficaz” e corriqueiro. Como disse o Juiz, não vejo nada demais no que está sendo divulgado.

A violência dos ataques na guerra de assassinato de reputações alcançaram famílias. A violência de um juiz ao criminalizar um acervo presidencial, e de sua força tarefa invadindo casas, tomando tabletes de crianças, intimidando pessoas até em cadeiras de roda, para atingir o filho do presidente. Prender uma cunhada desafeta de Vaccari, na esperança de extorquir alguma informação. A prisão e liberação injustificada de representantes da Mossack Fonseca, não antes de deixar na mídia a ilação de que Lula tinha uma ligação com uma empresa de lavagem de dinheiro. A perseguição e criminalização de todos os amigos do presidente. A violação da segurança presidencial, ao grampear um telefone do palácio do planalto. A invenção de fake news pela grande imprensa. Afinal de contas, foi a grande imprensa com suas capas de sexta-feira que inventaram o conceito. Tudo isto tornava corriqueiro, conduções coercitivas injustificáveis e ou prisões temporárias e outras violências, como levar professores universitários e um reitor para um presídio, obrigando-os a uma revista íntima sem que até hoje o ato tenha sido justificado moral, ética e legalmente. Tudo isto em nome da eficácia. Como todos consideraram eficaz a libertação de ladrões confessos, denominados delatores. Estas e outras tantas violações, foram divulgadas em tom de vitória e de novos tempos.

Numa população onde as arbitrariedades são tão comuns, onde o abuso de poder é cotidiano, é fácil criar uma percepção de normalidade em todos estes atos. Num cotidiano onde os telejornais divulgam estas violações, ou onde um governador e um presidente defendem o uso de snipers e drones armados, e tratam comunidades como territórios ocupados, onde uma família pode ser metralhada e a notícia é dada como se os autores dos tiros houvessem se enganado, pensando que era um carro de um bandido. FHC o príncipe da intelectualidade deve achar que é apenas ” uma tempestade em copo d’água”. A parcela que sofre abusos diários não tem voz, e o outros vêem os abusos a distância e muitos sentem como necessários para separar os dois mundos. Quando os abusos ocorrem com os outros são justificáveis, mas quando ocorre com alguns dos nossos, devemos questionar. Assim, imbuídos de um espírito legal, muitos, corretamente, consideraram como abuso o ocorrido com Temer, mas houve pouca ou nenhuma indignação com a recusa do magistrado em absolver a falecida Marisa, mesmo diante de Claudia Cruz.

Os fatos divulgados pelo Intercept, vão lutar contra esta percepção pública disseminada. Tudo que já foi divulgado seria suficiente escandaloso em um país onde a percepção não tivesse sido tão violentada como foi.

Como já se nota a reação ao Intercept jamais fala de fatos, de ética ou de moral e muito menos da lei, a reação trabalha apenas com a narrativa que alimentou e foi alimentada pelos abusos sucessivos e que tenta transformá-los em normalidade. Não fora isto, a indignação pública com a ineficácia das ações policiais sobre Marielle seria imensamente maior.

O fantasma da Casa Grande volta a dominar divulgando a ideia de que o castigo no pelourinho é normal.

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