Lô Borges alinhavou o cotidiano de nuvens, por Marcelo Mattos
Ontem foi mesmo barra, um dia daqueles de tristeza encharcando as horas, como difíceis tem sido esse acúmulo de perdas gotejantes nas artes, uma dor úmida ainda e sem nome. Lô Borges talvez tenha sido um dos primeiros compositores a alinhavar um universo ecológico (ambiental) ao cotidiano de nuvens, liberdade, amores, sons e serranias, além de tantos outros sentimentos solares daqueles jovens na encruzilhada das Ruas Divinópolis e Paraisópolis.
Talvez tenha sido esta uma característica futurista daquele Clube da Esquina (gravado somente em dois canais), impregnado de uma nova poesia bucólica, mineral, arada ao pó das estradas, dos versos em ventanias soprando longe, tão longe até nos alcançar naquelas noites insones, na barra de 1972, os sons daqueles jovens que, debruçados sobre a aragem da Serra do Espinhaço que entorna BH, sobre os diamantes esquecidos da Serra do Mel que abraça Montes Claros, os sons nos envolvia como chuva entardecendo por ondas radiofônicas, longe, longe…
Lô por toda tempo, por toda parte nos soprava o seu canto, silvo de viração, pássaro raro, bem-me-vi, bem-lhe-vi, bem-te-quis, bem-me-quer não me quis, os pintassilgos em cor, saíras viajantes, surucuá lavrando o ouro no sumidouro de Minas, ah! beija-flor em flores esquecidas. Lô sempre no encantamento: nas pedras de ponta no contra-corpo de Minas, cordilheiras acordoadas cristalinas de Minas, a forja voz de Minas transmineral, o pastoril, o carro-de-boi, as roças barrentas lavradas de musicalidade, a voz tão terna de Lô no sempre… enquanto uma fina garoa atravessa a tarde e nos encharca de saudades.
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