Maio de 1968, maio de 2019, próximos, porém distantes, por Rogério Maestri

É ainda uma pauta individualista, claramente que sim, mas no próprio movimento vão descobrir que não é a solução.

Maio de 1968, maio de 2019, próximos, porém distantes

por Rogério Maestri

Muitos pretendem comparar as manifestações estudantis de 2019 com as manifestações de 2014, fazem esta comparação partindo da premissa que essas últimas foram manifestações abortadas de um movimento popular e foram capturadas pela direita numa ação mediática.

Porém não sigo esta interpretação, as manifestações de 2014 foram mais o encerramento de um ciclo que começa em 1968, é truncado no Brasil pela ditadura militar, mas no resto do mundo todas estas manifestações resultaram no fim na captura de todo o movimento ao hedonismo, individualismo e aceitação posterior do mercado como norma de conduta.

Por incrível que possa saber, maio de 1968, intencionalmente ou não, com lideranças vinculadas ao grande capital ou não, resultou na ruptura, não só com os padrões normais comportamentais do passado, mas também com a ligação que havia entre o movimento estudantil e o movimento operário, na época representado pelos partidos de esquerda tradicional.

Porém em nos pós 2010, no mundo e em 2019 no Brasil, os jovens começam a se dar conta que o sonho de 1968 se tornou um pesadelo. A pauta de costumes neste período superou as pautas sociais, e se vê no momento que apesar de vitoriosa em grande parte, as pautas de costumes não serviram muito para a liberdade individual das novas gerações.

Para que serve ter a liberdade de manter relações sexuais com seus parceiros sem a opressão paterna ou social, se estas relações deverão ser mantidas nos quartos das casas paternas, ou mesmo em moradias precárias resultante de rendimentos tão precários como suas moradias.

Durante alguns anos, havia a possibilidade de com profissões mais “revolucionárias” que no início eram privativas da nova geração que se treinara para as novas tecnologias, garantir um sustento longe da casa paterna, ou seja, a ruptura intergeracional era completa, novos hábitos, novas profissões e novas vidas.

Porém como já prescrito há quase dois séculos no momento de evolução tecnológica, as empresas que são inovadoras conseguem um lucro maior do que os setores tradicionais, porém a medida que estas tecnologias vão envelhecendo, perdendo a sua característica de inovação tecnológica, o lucro se comprime e o processo de retirada de mais valia tem que ser aumentado, diminuindo a remuneração dos novos proletários criados pelas novas tecnologias.

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Se analisarmos em termos de avanço tecnológico, vemos que o grande avanço na informática, que num primeiro momento como no surgimento da locomotiva a vapor ou da energia elétrica, pareciam um grande avanço que redimiria o capital da necessidade de explorar ao limite o proletariado dos séculos passados, a tecnologias na área de informática estão simplesmente esgotando a sua inovação e voltando ao grau de exploração dos momentos de esgotamento das tecnologias inovadoras do passado.

Pois bem, na década de 60 e 70, quando se iniciava a informática primeiro com os grandes mainframes, os programadores, operadores de sistemas e analistas, estes últimos a nobreza dos trabalhadores na informática da época, foram já nas décadas de 70 e 80 sendo substituídos pelos microcomputadores, vulgarizando o seu uso e criando um mercado já um pouco menos sedutor e com ganhos econômicos que foram lentamente encolhidos por processos conhecidos do mercado.

No fim do século XX, já se via uma compressão salarial devido o processo de redução histórica do rendimento do capital. Ou seja, quanto mais se investia no capital, pelas unidades autônomas de processamento, como os microcomputadores convencionais, mas sim pela robotização da produção, mais se aumenta a composição orgânica do capital, ou seja, a relação entre o capital constante (máquinas, ferramentas e instalações) e o capital variável (salários e mais valia).

Apesar de o aumento da composição orgânica do capital, aumentar a produtividade, é necessário para conservar o lucro das empresas economizar na única parcela que é variável no capitalismo, o preço pago ao trabalhador.

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Mas voltando as nossas manifestações de 1968 e atuais, em 1968 era necessário aproveitando a inovação tecnológica da época, que criou um ganho extra ao capital, precisava-se quebrar a estrutura sindical existente assim com qualquer ligação com noções como país e família, criando a chamada sociedade pós-industrial, a sociedade líquida e o monte de nomes que se deu à velha e gasta exploração capitalista.

O jovem do mundo, sem ligações com todos estes estorvos, podia migrar para onde ainda tinha emprego, as regiões que se apegavam aos esquemas de passado, como a famosa Detroit nos USA, viravam regiões fantasmas.

Assim como Detroit, mas ainda mais cedo do que o produto da “revolução tecnológica”, não é à toa que na cidade outrora pujante e industrial cidade de Liverpool, que começa prematuramente durante a sua decadência industrial o surgimento da famosas banda de rock os Beatles, um dos principais ícones da geração “rebelde” dos anos 60 e 70, para depois serem incorporados no mercado fonográfico como um produto de consumo.

Com este desprendimento dos hábitos e consumos do passado, as novas gerações dos anos 70 e 80 migram em massa para regiões como a Califórnia para satisfazer a nova demanda do novo mercado de informática.

Após o estabelecimento dos setores inovadores do fim do século XX, começa rapidamente o mecanismo de concentração do capital, e se vendo que nos últimos dez anos não há nenhuma nova inovação tecnológica notável, só mesmo mais do mesmo. Mais capacidade dos discos rígidos, mais capacidade de memória, mais isto e mais aquilo para servir as necessidades que eram supridas de outras formas, mas que se tornam necessidades de adquirir, por exemplo, computadores mais rápidos que servem para sistemas mais lentos, para fazermos a mesma coisa do que faríamos com os mais velhos.

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O encerramento do ciclo de 68 começa em todo o mundo nas economias mais estabelecidas, o desemprego estrutural dos jovens vira um novo paradigma de ocupação destes, principalmente pela terceirização e a precarização. Sendo que surge por último a grande novidade, a Uberização do emprego, onde um serviço “extremamente tecnológico”, como os carros de aluguel, que já existem desde a época anterior ao automóveis, é propriedade de um grande Imperialista em New York, que dentro de suas torres de comando, retiram do produto de cada corrida valores que podem variar entre 10% a 30% só fazendo uma intermediação que deve custar centavos (nem estou falando dos entregadores de pizzas da Uber).

Resumindo, há em 2019 não uma massa de estudantes, como em 1968, produtos dos anos dourados do capitalismo pós guerra, que querem pautas de costumes (apesar que muitos pensam que estão lutando por isto), é uma massa de estudantes que estão loucamente procurando com o aumento da escolarização conseguirem condições competitivas em relação aos demais para sobreviverem. É ainda uma pauta individualista, claramente que sim, mas no próprio movimento vão descobrir que não é a solução.

O grande problema que todos com uma visão clara de esquerda tem que se preocupar, é deixar claro que mesmo com a derrota do atual golpismo (totalmente desejável), não será nas soluções neokeynesianas a solução dos problemas, mas certamente no liberalismo e no conservadorismo as condições se degradarão mais fáceis.

 

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