Para Alexey Dodsworth, o multiverso é uma possibilidade real, por Rogério Faria

O escritor Alexey Dodsworth é vencedor do Prêmio Argos na categoria "melhor romance" em 2015 e em 2017 por seus livros Dezoito de Escorpião e O Esplendor.

Para Alexey Dodsworth, o multiverso é uma possibilidade real

por Rogério Faria

O escritor Alexey Dodsworth é vencedor do Prêmio Argos na categoria “melhor romance” em 2015 e em 2017 por seus livros Dezoito de Escorpião e O Esplendor. Nesta manhã de quarta-feira, sob orientação do ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro e do professor Fabrizio Turoldo, acaba de ser titulado doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo e pela Università Ca’ Foscari de Veneza com sua tese sobre transumanismo e  questões éticas relacionadas à expansão cósmica humana. O transumanismo é uma área de estudo com foco em transformação da condição humana pelo desenvolvimento de tecnologias para aumentar as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas.

Vale citar que Alexey, em 2015, foi assessor especial do ex-ministro da Educação e também já atuou como consultor assistente em ética para a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

 

Conversei com ele sobre ficção científica, quadrinhos e a campanha de financiamento coletivo no Catarse da graphic novel Opticus – Intervenções, de Tiago P. Zanetic, Mauricio Leone e Rodrigo Fernandes, com participação de Raphael Salimena na capa. A campanha já atingiu 100% da meta, mas precisa ainda de ajuda para bater a meta estendida e disponibilizar um texto exclusivo de Alexey.

 

O escritor já contou que vai falar sobre “a seríssima possibilidade de um multiverso, onde incontáveis versões alternativas de você leem incontáveis versões alternativas de meu texto.” Ele ainda conclui, “o que muita gente não sabe é que o multiverso é tomado a sério tanto por físicos (Hugh Everett III, David Deutsch, para citar alguns) quanto por filósofos (David Lewis)”. Ele estuda a possibilidade de um multiverso e vai em breve para a Sicília falar sobre isso em um congresso de filosofia.

 

Vamos lá, Alexey. Qual a importância da ficção científica como gênero para se contar histórias?

Alexey – A ficção científica cumpre um papel importante ao transformar problemas científicos em protagonistas de uma história. Isso é fundamental em uma época como a nossa, em que o progresso técnico avança tão rapidamente. O problema é que este avanço acelerado não apenas resolve problemas como cria “necessidades” que antes não haviam. A ficção científica funciona como um instigador ético que nos faz pensar a respeito de tudo isso. É o que faz, por exemplo, Black Mirror. Por que essa série fascina tanta gente? Porque ela exagera coisas que já existem, ela se pauta em uma tecnologia que não nos soa fora da realidade. O problema científico é a desculpa, mas o que fascina mesmo – e sempre – é o dilema humano.

 

E como é narrar histórias de ficção científica tendo o Brasil como cenário? O tema é bem explorado aqui?

Alexey – O Brasil tem tantas histórias estranhas e tanta coisa interessante que não vejo muito sentido em escrever uma história ambientada em um lugar onde jamais pus meus pés, como, por exemplo, Nova Iorque. Eu gosto de falar do que conheço, de oferecer meu olhar dos lugares por onde passei. Eu não crio ficção do nada, ela sempre tem algum lastro no real. Em geral as pessoas gostam, curtem ver cidades brasileiras como cenário, elas se reconhecem nas histórias. Eu acho que a ficção científica é bem explorada na literatura brasileira, sim. Tem muita gente boa produzindo. O que falta são trabalhos de estímulo à leitura. Editoras grandes preferem investir no que dá retorno certo, isso é, obras famosas no âmbito internacional.

 

O seu processo de pesquisa para criação de um novo trabalho é complexo, como funciona?

Alexey – A pesquisa é uma etapa especialmente divertida, justamente porque eu gosto de ter um lastro no real. Se o leitor jogar alguns nomes e fatos no Google, por exemplo, verá que a história não brotou do vazio. Eu gosto de oferecer perspectivas fantásticas de fatos reais. Eu faço anotações, e neste processo ocorre uma alimentação mútua: a ficção bebe do real e fica forte, demandando mais pesquisa. O que eu mais gosto é de criar pontes entre coisas aparentemente desconexas como, por exemplo: haveria uma relação entre a queda do meteorito do Bendegó na Bahia e um específico episódio da vida de Aleister Crowley? Os dois fatos são reais e a ponte que os conecta é a ficção.

 

 

 

 Como pegar esses elementos, muitas vezes complexos, e contar uma boa história para aquele leitor não familiarizado com conceitos da área?

Alexey – Eu digo que basta pegar o essencial e tomar cuidado pra não transformar a ficção científica em uma apostila de ciências. Mesmo que a ideia seja uma obra de hard sci-fi, não vejo muito sentido em se concentrar tanto em detalhamento tecnológico. Um erro comum [que eu mesmo já cometi] é querer explicar tudo, detalhar o que não precisa. É só não subestimar o leitor. Se ele gostar da história, ficará curioso e pesquisará por si próprio. Veja Interestelar: um filme altamente funcional, que conta uma história muito bem e deixou muita gente encantada. Lembro de testemunhar um sem número de adolescentes pesquisando sobre buracos negros. A gente não precisa dar tudo mastigado. Basta confiar que o leitor também é um sujeito inteligente.

 

Nos quadrinhos, o que você indica no gênero de ficção científica?

Alexey – Em termos de quadrinhos de ficção científica, eu gostei muito do francês “Le Château des Étoiles”, de Alex Alice. Não sei se publicaram no Brasil. Parte do seguinte princípio: e se a conquista do espaço tivesse acontecido um século antes? Outro trabalho excepcional é o também francês Shangri-La, de Mathieu Bablet. Este eu sei que foi publicado no Brasil, com o mesmo nome do original francês. O plot é bacana: a Terra se tornou inabitável e a humanidade agora vive em uma estação espacial governada por uma multinacional que é venerada como uma divindade. Eu também me divirto bastante com “Saga”, de Vaughan, que foi publicado no Brasil pela Devir. Uma mistura divertida de “Star Wars” com “Romeu e Julieta”. Também do Vaughan, temos Y – O Último Homem, cujo título é autoexplicativo, e é uma obra-prima. Por fim, eu sou um fã absoluto dos quadrinhos de The Walking Dead, de Kirkman. Aquilo é uma aula de roteiro e construção de personagens. A série de TV nem chega aos pés dos quadrinhos originais.

 

Você está trabalhando com a editora Draco num novo projeto para 2020 que se relaciona com ficção científica. O que pode nos contar?

Alexey – Meu próximo projeto de quadrinhos na Editora Draco é uma graphic novel que brinca com o conceito de Einstein acerca da deformidade do espaço e do tempo. Quatro pessoas separadas no tempo e no espaço são a última esperança do planeta. Mas se elas vivem em épocas e lugares diferentes, como poderão agir? Isso é o que os leitores descobrirão ao ler Saros 136, um roteiro meu com arte de Ioannis Fiore. Foi muito divertido desenvolver esse roteiro. Eu pesquisei muitos fatos reais e terminei descobrindo que uma equipe de cientistas britânicos que veio ao Brasil no começo do século XX ficou hospedada na casa de meus ancestrais.

 

É isso aí! Obrigado.


Enquanto “Saros 136” não chega, podemos colaborar com a campanha da Opticus – Intervenções no Catarse para saborearmos nesta realidade esse provocativo texto do Dodsworth sobre multiversos! Lá também você encontra a graphic novel Cabra d’Água e a Peleja contra os Gigantes, a primeira graphic novel desse herói nordestino que tropeça em problemas por onde passa .

 

Por apenas R$ 242,00, uma das recompensas é um pacotão de quadrinhos com seis coletâneas e mais três revistas em quadrinhos (mais de 1.000 páginas), além de cupom de descontos e marcadores de página. Entre as HQs, poderemos ler YHVH (pronuncia-se “Iavé”), o primeiro roteiro de quadrinhos de Alexey Dodsworth, que ele classifica como um elogio à mentira: “Em ‘YHVH’, o diabo tem um propósito. Ele é o aperfeiçoador da divina obra, é aquele que lutou pela liberdade humana”.

 

Clique aqui para acessar a campanha.

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