O patriarcado queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri

No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo são nuances de um mesmo padrão.

Forest fire in night. Shot near Stellenbosch, Western Cape, South Africa.

O patriarcado queima florestas e assedia as mulheres, por Dora Incontri

Diante da avalanche de más notícias que nos atordoaram nesse último mês – em que eu estava de molho por causa de uma cirurgia – penso que pode haver um link comum entre a maioria delas. Confesso que ao lado do fogo da Amazônia, dos pronunciamentos cafajestes daquele que não nomeio, dos vazamentos inacreditáveis sobre a injustiça da justiça brasileira, houve uma notícia que me pegou também o coração. Uma notícia que não tem a mesma dimensão da queima das nossas florestas, mas queimou a reputação de um homem que eu sempre admirei.

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Estou falando da denúncia de assédio feita por nove mulheres contra o tenor espanhol Placido Domingo. É certo que não podemos julgar antes de uma investigação concluída, mas também não podemos desqualificar o testemunho das mulheres, sendo que o próprio cantor disse que as declarações eram imprecisas, mas admitiu: “Reconheço que as regras e padrões dentro dos quais vivemos hoje são muito diferentes daqueles do passado”.

A notícia me impactou porque se já esperamos de um machista confesso o total desrespeito à mulher, temos a expectativa de que um artista genial na música e respeitado em sua liderança, tenha sensibilidade em relação ao feminino.

Mas é então que se configura o quanto o patriarcado está arraigado nas estruturas mentais da humanidade. E mais do que isso, o quanto o assédio de um artista às mulheres do alto do poder do seu talento tem mais a ver com as queimadas da Amazônia do que pensamos. Em todas essas atitudes que violentam a dignidade do outro, que são carregadas de desrespeito à integridade da vida, do ser, da criança, da mulher, da natureza, está a mentalidade do macho que sujeita, que invade, que possui, que agride e se acha detentor de poderes ilimitados no mundo. Alguém já viu uma mulher liderando uma invasão de grileiros, ateando um incêndio nas matas, cometendo um abuso de outros colegas artistas ou profissionais, fazendo um chiste de desrespeito ao esposo de outra mulher (sendo esse esposo de uma presidente de um país estrangeiro)?

No limite, a piada machista, a postura de violência e sadismo, o estupro e o assédio, o poder do dinheiro e do militarismo, tudo são nuances de um mesmo padrão. O padrão de não respeitar a sensibilidade, de achar compaixão uma fraqueza, de considerar a não-violência e o diálogo como coisas indignas do masculino, de objetificar o outro, seja no trabalho escravo, seja na mulher objeto, seja na criança abusada sexualmente.

Pode-se alegar que há mulheres poderosas, há mulheres guerreiras, há mulheres abusadoras. Sim, há. Mas este é o padrão masculino, e quando as mulheres assim se comportam, estão assumindo o padrão do homem. E são minoria. O padrão feminino histórico é o de cuidar, é o de sentir, é o de intuir, e por isso que a lei do mais forte vigente no mundo sempre sujeitou a mulher.

É verdade que o feminino e que o masculino são dimensões presentes em todo o ser humano. Tanto que espíritas como nós, reencarnacionistas, consideramos que ora podemos nascer homens, ora podemos nascer mulheres, justamente para desenvolvermos os dois princípios no espírito imortal. Mas ainda nos padrões sociais da humanidade, a masculinidade está associada à violência, à posse, e a feminilidade esteve muitas vezes associada à submissão, à passividade e à fraqueza. Já há mais de 200 anos, as mulheres têm mudado essa visão, assumindo sua força – que não é a da violência – com sua voz firme e transformadora no mundo. Mas o homem ainda encontra muita dificuldade de mudar seus parâmetros de constituição do masculino. Há iniciativas louváveis nesse sentido, e quero citar aqui meu amigo Leandro Uchoas, um espírita progressista, que está promovendo rodas de conversa com homens sobre novas masculinidades.

Por tudo isso, apesar de a nós mulheres muitas vezes enraivecer o desrespeito, o assédio, a violência, a maneira como a maioria dos homens conduz os governos do mundo, quando vemos um Placido Domingo com uma carreira tão linda, que espalhou música e beleza por mais de 50 anos, manchada por esse padrão de masculinidade tradicional, chegamos a experimentar constrangimento e compaixão. Os primeiros a sofrer com esse padrão de insensibilidade diante do outro são os próprios homens. Por isso, urge fazermos uma educação que permita ao homem sentir, chorar, mostrar sua vulnerabilidade, e não reprimir tudo isso com uma arma na mão, com incêndios ou com gritos selvagens.

Que pena, Placido! Desculpa, Brigitte!

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