Os terraplanistas da 4ª Revolução Industrial, por Rogério Mattos

O termo "indústria 4.0" surge em 2011 na Alemanha. Em 2016, em Davos, ele assume o sentido de "4ª Revolução Industrial". Um batizado glorioso para o novo "conceito".

Os terraplanistas da 4ª Revolução Industrial

por Rogério Mattos

A suposta “4ª Revolução Industrial” e a geopolítica

Em entrevista ao canal do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC, o jovem economista Diógenes Moura Breda apresentou alguns dados retirados de projeção do Banco Mundial, segundo os quais, em futuro próximo, 50 milhões de postos de trabalho estariam em risco por causa da 4ª Revolução Industrial. Por causa do processo de robotização, nanotectonologia, uso de super condutores e inteligência artificial, ou seja, uma nova mecanização do trabalho, poderia reeditar o modelo de superexploração do trabalho com a migração em massa das empresas multinacionais para países com mão-de-obra mais barata, como ocorrido a partir da década de 1970.

Para se proteger dos efeitos perversos do avanço tecnológico, projetos como o de “renda mínima universal” estariam sendo debatidos no ainda chamado “setor avançado”. Parece que, com uma nova revolução industrial, a história poderia simplesmente se reproduzir, não se sabe se de maneira mais ou menos perversa…

O termo “indústria 4.0” surge em 2011 na Alemanha. Em 2016, em Davos, ele assume o sentido de “4ª Revolução Industrial”. Um batizado glorioso para o novo “conceito”. O objetivo dos capitalistas transnacionais seria recuperar a mais-valia perdida após a crise de 2008. Se existe uma nova revolução tecnológica, ela é feita para se atingir um fim preciso, já conhecido na história, num claro processo teleológico.

O problema básico desse tipo de raciocínio é desconsiderar a verdadeira fortuna ganha por essa oligarquia financeira com a crise de 2008. Com as políticas americanas e europeias de flexibilização quantitativa, ou seja, juros zerados mais impressão de dinheiro descontrolada, o mercado de derivativos chega hoje, em cifras conservadoras, a um montante de 2,5 quadrilhões de dólares. Uma dívida impagável. Logo, como “recuperar a mais-valia” num cenário onde só um lado ganhou, exatamente o lado que supostamente vem experimentando perdas econômicas?

Um outro panorama se abre se for mencionado um breve relato de viagem de Pepe Escobar: “Xi Jinping e Vladimir Putin foram vistos numa joint venture culinária. Panquecas com caviar (blin, em russo), empurrados com um shot de vodca. Aconteceu há dias, no Fórum Econômico Oriental em Vladivostok. É metáfora desenhada (e comestível) para selar a sempre crescente ‘parceria estratégica abrangente russo-chinesa”. O título de seu artigo é sugestivo: “Geopolítica: a Eurásia renasce — e quer ser alternativa“.

As discussões políticas fora do eixo transatlântico podem ser consideradas utópicas para mentes encalacradas num tipo de teoria econômica própria para formar contadores e não chefes de Estado, como também frustradas diante da bancarrota generalizada e pessimismo cultural que o mesmo setor transatlântico enfrenta de maneira mais aguda depois do 11/09. Pepe Escobar resume de modo bem simples o que está em jogo: “o futuro: de Tóquio a Londres, direto, por trem”. Nada menos do que isso é permitido nas considerações do emergente bloco eurasiático.

Ponto fundamental para essa virada no discurso foi a vitória síria e russa contra os terroristas e sua coluna de apoio, o aparato da OTAN. No outro lado, o lançamento por Xi Jinping da Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota, em 2013. Temos portanto uma vitória no campo comumente chamado de “geopolítico”, ou seja, na disputa territorial, e o anúncio de um programa para mudar todo o vocabulário dos conceitos políticos do ocidente, a partir da “temível” China.

A Síria é um eixo central para que a nova imaginação política surja efeito e a “Eurásia” não se confine a China e Rússia, mas se expanda para a Europa ocidental e além. Uma breve vista ao Projeto Alepo, como desenvolvido pelo Instituto Schiller, pode nos dar uma amostra do que será a visão do futuro da humanidade nos próximos cinquenta anos:

O sistema nacional de transporte da Síria deve ser atualizado, incorporando ferrovias de alta velocidade, e as rotas de transporte terão que se adaptar às rotas transcontinentais do Mar Mediterrâneo, do Oceano Índico, do Mar Vermelho, do Mar Cáspio e do Mar Negro. Essa foi a visão do Presidente Bashar Assad em sua “Estratégia dos Cinco Mares”, que ele pronunciou em 2009 antes do início da guerra.

A estratégia da Nova Rota da Seda não envolve somente transporte, mas dois corredores internacionais de desenvolvimento, um Leste-Oeste e outro Norte-Sul, que trarão vitalidade e crescimento a longo prazo para as antigas encruzilhadas da Síria. Além das ferrovias, esses corredores de desenvolvimento incluem oleodutos, projetos hídricos, zonas industriais, agricultura avançada e novas cidades. Os mais altos níveis de tecnologia, como a energia nuclear para dessalinização de água e ionização atmosférica para melhorar o aumento das chuvas, abrem uma grande oportunidade para tornar verdes os desertos, diminuir os efeitos das tempestades de areia e recuperar vastos territórios desérticos para agricultura e colonização, em cooperação com nações vizinhas, para o máximo desenvolvimento e uso de recursos.

O centro do corredor leste-oeste da Nova Rota da Seda passa pela Síria, pela antiga cidade de Alepo

Todo o problema dos refugiados na Europa simplesmente acabaria com projetos como esse, como também o Projeto Transaqua, de revitalização do lago Chad, no norte da África. Neste caso em específico, é porque pude chamar uma vez que, os elementos mais sãos dentro do governo italiano tem como meta “Levar ao Centro o centro do mundo“. Não se deve ter medo de inovações tecnológicas num mundo em que há tanto por fazer, tantos trabalhos para serem criados e, em parceria com as mais avançadas tecnologias, aumentar a qualidade de vida do planeta de um modo geral. Do oriente, portanto, vamos chegar mais próximo ao nosso ocidente há muito perdido…

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O caso da Alemanha e o Green New Deal de Barack Obama

O caso da Alemanha é sintomático. Em entrevista para a Executive Intelligence Review, Larry Bell, professor da universidade de Houston e especialista em arquitetura espacial, deu alguns dados simples para serem pensados.

Depois da reunificação do país, houveram grandes investimentos em energia solar e eólica. Hoje, se diz que as duas combinadas compõem 37% da capacidade de geração energética do país. Surgem dois problemas: como são fontes de energia intermitentes, os 37% de capacidade são um teto e não a média da capacidade energética. O segundo problema é que em nove anos o custo da energia em mais de 40 milhões de residências subiu 50% e 25% na indústria e no comércio.

O custo da energia limpa afeta massivamente a população mais pobre. A segurança energética do país também fica afetada. Como são fontes intermitentes, se saiu de uma situação onde praticamente não haviam registros de apagões em 2008, para 1000 registros em 2012 e 2500 em 2018. Para sanar as falhas do sistema, se investe numa capacidade similar em energia fóssil. Quando há nuvens ou falta de ventos, ligam-se as turbinas das termoelétricas. Logo depois, elas são desligadas. Ligam-se e desligam-se intermitentemente essas turbinas, ou seja, elas são usadas da maneira mais ineficiente possível. Esse “modelo” é o que se almeja nos últimos anos nos EUA.

Em 2009, Obama lançou um amplo pacote econômico conhecido como “estimulo” (American Recovery and Reinvestment Act), com gastos previstos de 800 bilhões de dólares. Destes, 90 bilhões foram dirigidos diretamente para a renovação da matriz energética estadunidense. Segundo reportagem do Politico, o “estímulo” teria como objetivo principal a criação de uma espécie de New Green Deal, ou seja, a criação de uma nova matriz energética no país serviria como estímulo à grave recessão econômica enfrentada depois da crise de 2008. O posicionamento das novas lideranças do Partido Democrata como Ocasio-Cortez é de aprofundar essa agenda, no que ela chama de um “novo movimento pelos direitos civis”…

O plano econômico de Obama, contudo, foi um desastre por não ter reindustrializado a economia do país, ter baseado a criação de novos postos de trabalho através de contratos de tempo parcial e com baixos salários e de ter feito uma massiva transferência de renda da sociedade para os conglomerados financeiros através da flexibilização quantitativa (escrevi mais detidamente sobre o caso no artigo chamado Genocídio e liberalismo). O foco na renovação da matriz energética não ajudou em nada para mudar essa realidade. Pelo contrário, além da eleição de Trump, as soluções criativas para enfrentar a crise econômica criaram situações como o programa AARP, um jeito de contratar idosos a salários baixos e servir de “estímulo” para a continuidade dos baixos salários e a superexploração do trabalho.

Como também se encontra em Genocídio e liberalismo, os EUA tem um déficit massivo em infraestrutura devido aos anos de subinvestimento em metrôs, estradas e ferrovias. O programa espacial, grande catalizador de investimentos convertidos em novas plataformas tecnológicas, igualmente foi zerado na era Obama. Em termos de indústria pesada, o ex-presidente democrata manteve a política de seu antecessor, George H. Bush, a de investimento na indústria bélica. Como resultado desses últimos quatro mandatos presidenciais, a população dos EUA enfrenta hoje as maiores taxas de suicídios e drogadição de sua história.

Um programa viável para os EUA foi apresentado por Lyndon LaRouche em 2010, o North American Water and Power Alliance XXI, reedição de programa criado na década de 1950 e nunca implantado. Em resumo, o projeto se baseia no redirecionamento das águas do oceano Pacífico e das geleiras do norte dos EUA e do Canadá, num sistema de canais, para tornar verdes as terras desérticas no meio-oeste americano. No século XXI, ele seria impulsionado com usinas de dessalinização nucleares, a construção de corredores de desenvolvimento e a ionização da atmosfera. Um processo muito similar ao que se busca, em especial no Oriente Médio, com a Nova Rota da Seda.

O NAWAPA pode – e deve – ser imediatamente conectado com planos de conexão regional da América do Sul e Caribe, através de projetos de infraestrutura engavetados desde o século XIX. Para um detalhamento de como a Nova Rota da Seda pode se integrar ao continente americano como um todo, sugiro a leitura do texto de Dennis Small, também da EIR, chamado “A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América“.

O “terraplanismo” dos defensores do Green New Deal, e todos seus associados da “nova esquerda” mundial, ainda muito imatura para discutir questões relevantes para a humanidade como um todo, é a de entender a economia nos termos da escola britânica clássica, de Adam Smith, Malthus e Ricardo, ou seja, a de que há limites para o crescimento. Igualmente devedor dessa mesma escola, Marx não considera como fundamental para o progresso e desenvolvimento das sociedades o avanço científico e tecnológico. Toda essa escola, fora os prejuízos que seus representantes mais tardios sofreram por influência da filosofia decadentista alemã, de Kant a Hegel, não conseguem compreender que o crescimento humano é ilimitado, não apenas no planeta porém no sistema solar e suas adjacências. Continuar pensar a Terra como o horizonte único é reeditar um novo geocentrismo, ou seja, ignorar os fatores que guiaram o desenvolvimento da vida no planeta desde seu passado mais remoto.

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O ser humano se transformou numa força geológica planetária, como afirma o falecido cientista russo Vladimir Vernadsky. A transposição da biosfera para a noosfera, para o aumento da intervenção humana nos processos que provocam uma migração cada vez maior dos átomos na biosfera, dinamizando o mundo natural e trazendo novos elementos químicos para a tabela periódica, seja na busca por hélio-3 na superfície lunar ou por processos internos, que podem ser ainda mais potencializados com o desenvolvimento da energia de fusão nuclear, permitem possibilidades infinitas para a criação de novas cidades, para a interligação de antigas rotas e para o incremento da qualidade de vida generalizado da população do planeta como um todo.

O objetivo da geopolítica como desenvolvida no século XX, de John Mackinder a Samuel P. Huntington, serviram para boicotar a integração entre continentes, desde os planos de Bismarck, por exemplo, de criação de uma ferrovia Berlim-Bagdá ou os projetos originais da ferrovia transiberiana, capitaneados por Sergei Witte. Para o continente americano, como exposto no artigo acima mencionado, “A Ponte Terrestre Mundial: Redescobrindo a América“, são igualmente do século XIX os primeiros projetos de integração total do continente e frustrados pelos componentes oligárquicos que ajudaram a frustrar parte considerável desses planos e provocar as duas guerras mundiais.

Como diz Lyndon LaRouche, em seu último escrito antes de sua morte, “a química é a vara de medir a história”:

O progresso humano, como medida mais simples como espécie, é expresso tipicamente no poder crescente do poder do princípio da vida humana sobre as habilidades da vida animal, de um modo geral, e sua superioridade relativamente absoluta sobre os poderes dos processos não-vivos, para alcançar, por sua intervenção deliberada, seus efeitos pretendidos. O progresso somente existe sob um aumento progressivo, contínuo, dos poderes produtivos e correlatos da espécie humana. Esse progresso define a distinção absoluta da espécie humana sobre todas as outras conhecidas por nós. Um governo da população baseado nas políticas de ”crescimento-zero da população e dos padrões  da vida humana per capita” é uma abominação moral, e na prática.

Enquanto se ver o ser humano como um espécie meramente planetária, talvez única no universo, não se pode investigar as implicações do envolvimento da humanidade nos processos de criação de vida que ocorrem em seu próprio habitat, mas como no espaço adjacente. Hoje, crianças de 11 a 15 anos fazem protestos nas ruas dos países desenvolvidos, falam a parlamentares, lamentando que, com o atual estado de “aquecimento global”, eles não terão mais do que vinte anos de vida pela frente. Nesse panorama se insere a grande favorita para o Nobel da paz desse ano, a adolescente Greta Thunberg, espécie de porta-voz da atual histeria infanto-juvenil. Em que medida a “nova esquerda” ecoa mais essa infame operação de propaganda, agora com o uso de crianças?

Greta sabe falar com os donos do poder e será laureada por isso

Pós-escrito sobre a questão ambiental

O debate ambientalista, por ser um tanto delicado e não ser o objeto principal do tema desse artigo, foi deixado um pouco de lado. Mas existe algo que eu poderia ter enfatizado melhor, ainda que isso fosse abrir espaço para mais considerações. Seria a distinção entre a “energia verde” e a energia de fusão nuclear. O texto acima já é meio grande e iria ficar, talvez, inviável para o “formato internet”. Contudo, a discussão deve ser feita.

O objetivo principal das palavras acima seria procurar mostrar que o avanço científico e tecnológico não deve ser entendido como empecilho para a criação de novos empregos. Acho que esse é o ponto falho dos debates sobre a “indústria 4.0”. Não sei nem em qual ponto isso pode ser considerado uma “revolução” (chamada de 4ª revolução industrial), porque me parece uma extensão de descobertas científicas que já conhecemos. Pelo contrário, o que aponta para uma ruptura em direção a novos conhecimentos é o desenvolvimento da energia de fusão nuclear.

Vou apontar dois fatos: 1) a possibilidade de transformar a matéria em plasma, algo que modifica totalmente a exploração das matérias-primas. Na parte ambiental, a própria questão do lixo, seja industrial, farmacêutico, urbano, residencial, os resíduos das usinas nucleares, etc., em forma plasmática, pode ser transformado em novas matérias-primas e não ser meramente acumulado em algum lugar. 2) A fusão nuclear não deixa os resíduos tóxicos que a fissão nuclear deixa. Ela se desenha, pelo menos até aonde apontam as pesquisas atuais, como a fonte de energia mais limpa e eficiente construída até agora. Os problema atuais da produção da energia de fusão são as altas temperaturas em que ela (a fusão) é realizada, o que requer reatores muito sofisticados. Cada reator nuclear acaba reproduzindo quantidades de calor da proporção das que são produzidas no sol… O outro problema é que a fusão acontece com o deutério + hélio-3. Esse só é obtido, pelo menos atualmente, na Lua. A atmosfera da Terra quebra as partículas de hélio-3, transformando-as em hélio-2. Somente com a exploração da Lua ou sua mineração esse elemento poderá ser largamente utilizado por aqui.

O problema do New Green Deal, como o de toda política com foco central em premissas ambientalistas, é pensar na utilização de fontes perenes para o abastecimento energético da sociedade. Essas “fontes perenes” são questionadas tanto por sua eficiência (são intermitentes), quanto por seus gastos e até pelo aproveitamento territorial (precisam de largas áreas para produzirem o mínimo de energia requerida). Além do fato de ainda estar por se provar que a criação de novas fontes energéticas prescinde de novos avanços físicos na exploração da matéria. O que seria dizer também que chegamos a um ponto de não retorno, já que os “moinhos de vento” estão sempre aí e que basta aperfeiçoá-los pelo resto dos tempos para que o planeta seja abastecido energeticamente de maneira adequada.

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O problema do New Green Deal, como o de toda política com foco central em premissas ambientalistas, também é desconsiderar que sem a modificação ampla da atual configuração geo-humana da Terra, não irá ser criado plataformas de desenvolvimento suficientes para dar conta não só do aumento populacional, mas dos imensos gargalos de investimento necessários para que a população atual viva em condições dignas. Ainda que haja um ponto de contato entre a proposta do New Green Deal com a visão que defendo, ou seja, a necessidade da construção de trens de alta velocidade (em especial, os de levitação magnética), não acredito que essa proposta leve em consideração a integração regional e esteja mais preocupada com a resolução de problemas mais imediatas, como o da logística nas grandes cidades.

De fato, a alta concentração populacional nos grandes centros urbanos faz com que o ecossistema dessas regiões seja altamente poluído, se não tóxicos. Mas desconfio que haja um problema global, um aquecimento verdadeiramente global. O consenso sobre o aquecimento global é bastante frágil. Mas, talvez, teria que fazer um texto à parte para colocar os questionamentos pertinentes, de uma maneira ainda mais cuidadosa atualmente devido à forma com que a ciência ambiental vem sendo tratada com o avanço da extrema-direita no mundo. O debate anos atrás era sobre a impossibilidade de uma China, por exemplo, ser desenvolvida devido aos riscos de aquecimento do planeta. A China se modernizou bastante e não sei se esse fato contribuiu para a piora do quadro das supostas altas de temperaturas… Imagina se a África se desenvolve um pouco mais, os países subdesenvolvidos de um modo geral? Ou caímos na premissa de que só os países banhadas pelo norte do oceano Atlântico podem se desenvolver, ou o que talvez dê no mesmo, de que há um limite populacional para o planeta. Essa é a perspectiva falaciosa básica, defendida pela escola de economia britânica clássica. Se Thomas Malthus não acreditava que a população mundial chegasse a um bilhão de pessoas, por que estariam certos os que hoje dizem que dez ou vinte bilhões de pessoas seria algo inviável?

O desenvolvimento do Oriente Médio e do norte da África são fundamentais para mudar a política de guerras na região e integrar a Ásia com a Europa. A geopolítica sempre teve essa integração como anátema, porque um sistema eurasiático bem construído seria uma afronta, ou mesmo o fim, do Império Britânico. Lamentavelmente, a Europa e os EUA, mesmo após o fim da 2ª Guerra, continuaram a ver assim, isto é, não mais como um impeditivo para a primazia econômica e naval britânica, mas vendo o surgimento de um novo e potente bloco econômico como algo fatal para a dominação física e econômica do setor transatlântico, da City de Londres e Wall Street e da OTAN. Iniciativas como as dos BRICS e a união entre diferentes países asiáticos tem como premissa a construção de um modelo econômico bastante diferente do atual, baseado na economia física e não na especulação, e em grandes projetos de infraestrutura.

Um mundo com 5 ou seis bilhões de pessoas ainda se mostra relativamente manejável, fácil de ser controlado por um setor muito restrito da população mundial. Um mundo com 10 ou 20 bilhões de pessoas seria o fim dessa velha oligarquia e de seu atual sistema financeiro e sua geopolítica. Para resolver de maneira mais incisiva os problemas da fome e da guerra, somente a mudança da estrutura física do planeta (ou da noosfera, como chamava o Vladimir Vernadsky), com a construção de novas cidades e a conexão entre países, além dos avanços num modelo de produção energético mais eficiente, pode valer. Não é que diversas regulamentações ambientais devam ser desconsideradas. Elas não podem servir de empecilho para uma política mais humana, baseada numa perspectiva mais larga. Quando o ambientalismo se torna histeria, como é exemplificado pelo caso dos protestos infantis atualmente, não dá nem para se começar a fazer o debate. Com uma arquitetura inteligente, uma concepção até mesmo estética da política, esse mundo mais complexo que se entrevê com a emergência do sul global, acredito que se possa construir um planeta mais bonito e habitável e não, claro, mais florestas de concreto e aço e suas inúmeras injustiças sociais.

O aumento demográfico do planeta não é mais algo a ser impedido, por inviável, como era a utopia do Império Britânico no século XIX. Logo, devem ser criadas novas ferramentas para se lidar com esse mundo bem mais povoado, assim como é preciso uma nova imaginação, generosa, onde caibam o protagonismo de novos povos, como também um ambiente mais agradável e bonito onde todos nós possamos viver. Para isso é urgente, além de todas as considerações políticas, econômicas e sociais, o desenvolvimento de uma fonte energética mais potente e eficaz como a fusão nuclear. Nessa perspectiva, a exploração espacial é inevitável.


Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.

3 comentários

  1. Caro Rogério,
    Você está apostando que o colapso que estamos vivendo é apenas o do longo ciclo de desenvolvimento que se iniciou no pós-guerra e teve os EUA como país central. Pode ser que sim.

    Mas pode ser que seja também o colapso do próprio capitalismo:
    1- A queda dos empregos na indústria e na agricultura devido à tecnologia é uma realidade incontestável. Se o operário chinês começar a ganhar mais, as indústrias de lá o substituem por máquinas, mesmo nos setores de baixa intensidade tecnológica.
    2. A precariedade do trabalho parece ser uma realidade que não tem volta, inclusive na China e Rússia. Isto é sintoma de que o mercado de trabalho, faça-se o que fizer, vai abrir muito mais vagas precárias do que boas – inclusive na construção da infraestrutura (ferrovias, portos, pontes, linhas elétricas, gaseodutos etc)
    3. Diante dessa realidade, quando a farra consumista do Ocidente, baseada em crédito (capital fictício) colapsar, quem vai consumir os produtos chineses? A ásia inteira não tem poder de consumo suficiente e não há nada que indique que terá.
    Uma observação: você que Marx “não considera como fundamental para o progresso e desenvolvimento das sociedades o avanço científico e tecnológico”. Ora, para Marx, a contradição fundamental do capitalismo é justamente que ele propicia um enorme desenvolvimento tecnológico, mas este mesmo desenvolvimento acaba por diminuir o lucro global (valor global), justamente porque economiza trabalho humano. Como as pessoas só sobrevivem com trabalho no capitalismo, massas enormes vão ficando às margens do sistema, inúteis para ele. Não é o que está acontecendo com o desemprego estrutural e as várias formas de precariedade?
    Os profetas do apocalipse capitalista, talvez estejam certos desta vez.

  2. Obrigado pela resposta, Wilton. Acho que está bem demonstrado é que são infinitas as possibilidades de atuação humana. É sofística a tese dos “limites para o crescimento”. Nem a revolução industrial 1.0 nem a 4.0 ou a 12.0 conseguem diminuir essa capacidade de atuação humana. Pelo contrário, a divisão social do trabalho se torna mais complexa e inúmeras novas profissões são criadas.

    Em relação ao fim do capitalismo, ele já está morto, falido. Se o entendermos como esse que você menciona, o do pós-guerra, é um defunto. O que se procura não é a produção de créditos para o consumidor financiar seu carro, casa ou celular. Esse componente é menor. O crédito criado, principalmente nos últimos anos, foi para qualquer lugar menos para a economia física. E não há como criar crédito numa situação com altas taxas de desemprego ou de sub-emprego, como nos EUA e Europa. O crédito ao consumidor, nesse caso, tem o efeito quase nulo.

    O crédito que se diz é o de longo prazo e a baixas taxas voltados exclusivamente para a criação de novos postos de trabalho e no investimento em ciência e tecnologia. Quantitative Easing, como eu disse, foi uma forma de transferir recursos da sociedade para o sistema bancário e não um “neo-desenvolvimentismo” dos países ricos.

    A tese do Marx que você menciona ainda está por ser comprovada. Se a preferência for por alemãs, prefiro Fredrich List.

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