Pedagogia da Intimidação, por Fernando Horta

Ao invés de esperar pela polícia ou pelo sistema judicial brasileiro, a violência de gênero, de classe e de raça passa a ser exercida nas escolas, contra professores e alunos “transgressores”.

Pedagogia da Intimidação, por Fernando Horta

Durante as eleições, um candidato desconhecido quebrou uma placa em homenagem à vereadora do RJ assassinada a mando de milícias próximas ao presidente e sua família. O ato, digno do brucutu que o praticou, provocou a eleição do liliputiano ao Congresso. Ontem, outro destes ignorantes que passaram a povoar a câmara quebrou uma charge do Latuff que denunciava o comprovado extermínio da população jovem e negra nas mãos de matadores de farda e pagos com dinheiro público que insistirmos erroneamente chamar de “polícia”. Os dois atos, comemorados por racistas e preconceituosos de todas as partes do país, demonstram um dos caminhos que levaram Bolsonaro e seu bando ao poder: a intimidação como ferramenta para “colocar as pessoas no seu lugar”.

As transgressões da ordem social historicamente construída no Brasil começaram a se avolumar no tecido social no segundo mandato Lula. São inúmeros os exemplos e “corpos não autorizados” transgredindo os limites que a sociedade brasileira branca, rica e urbana permitia. Desde pobres com seus carros nas estradas (como “denunciado” por jornalista conhecido por sua verve preconceituosa), nos aeroportos ou em shoppings, até a emancipação feminina (que chegaria ao cargo da presidência da República, com Dilma Rousseff) e a visibilidade das populações LGBT, que conseguiam programas sociais de auxílio ao estudo e formação e, finalmente, puderam ter seus nomes sociais reconhecidos. Todo este bloco de liberdades reconhecidas e espaços concedidos provocou a fúria dos que acreditam que a sociedade, a geografia das cidades e os espaços de poder têm donos. Era preciso “colocar esta gente no seu lugar”. A sociedade com espaços delimitados precisava voltar.

Uma boa parte do que representa Bolsonaro para a classe média está aqui.

O exemplo mais evidente desta revolta foram os “rolezinhos”. Corpos negros e jovens, transgredindo os espaços que as sociedades brancas e ricas lhes deram. E, para além da revolta de uma classe média que se julga rica, os meios de comunicação e a plutocracia brasileira perceberam a oportunidade de fortalecer seus eternos guardiões sociais. As reportagens feitas em tom de aceitação da tese da criminalização da transgressão dos jovens negros, apesar de claras não foram suficientes. O diagnóstico foi bem feito. Estes jovens só tinham a petulância de imporem-se em espaços que não os viam ou os aceitavam porque lhes fora ensinado perigosos conceitos como “igualdade de direitos”, “emancipação”, “empoderamento” e etc. E o lugar onde se ensina, é claro, é nas escolas.

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Por séculos no Brasil, os jovens negros conviveram com o dilema de escolherem entre serem subalternos submissos (como trabalhadores com baixo nível educacional) ou serem transgressores claros à margem da lei (criminosos). A sociedade neoliberal dos anos 80 e 90 adicionou ainda a esta escolha a possibilidade de eles serem presos por décadas, sem nenhuma justificativa. Nos EUA, assim como no Brasil, o nível de encarceramento da população negra cresce exponencialmente exatamente durante o período neoliberal. Os poucos negros e negras que subvertiam a ordem, o faziam somente em comparação com outros negros e nunca com os brancos. Ainda que os negros chegassem em espaços de poder, riqueza e prestígio, nunca eram aceitos completamente ou gozavam dos privilégios, sempre brancos.

Os professores e as escolas, portanto, eram os vetores da desobediência e, em consonância com a chancela à violência policial, assassinatos e um maior nível de encarceramento, o governo que foi eleito exige também o ataque às escolas e aos professores que promovem o pensamento emancipatório. Não são, portanto, dissociados os ataques de Bolsonaro aos negros, às mulheres, populações LGBT e aos professores e à escola. É o combo da intimidação e do autoritarismo tentando se reproduzir por meio da escola.

O exemplo evidente da “militarização” das escolas chega a ser caricato. Não é a violência militar (ou de policiais militares) que faz os Colégios Militares serem “bem-sucedidos”. É uma mistura de altos salários (professores dos Colégios Militares ganham como professores universitários), alta qualificação (quase 60% de mestres e doutores), estruturas pedagógicas diversas e em funcionamento, e uma enorme dose de exclusão. Os Colégios Militares fazem concursos para escolherem seus alunos, e podem – a qualquer tempo e interesse – expulsar alunos que não sigam suas regras. Assim, já buscando os melhores alunos e depurando o que sobra por anos com ameaças de expulsão e outros tipos de violência, os que sobrevivem a este sistema e chegam ao ensino médio são, evidentemente, sobreviventes capazes. Ocorre que este modelo não pode ser replicado em termos públicos. Qualquer diretor de escola pública sabe que o afastamento de algum aluno significa, mais cedo ou mais tarde, uma ordem judicial em sua mesa mandando a reintegração do aluno, não importa o motivo da expulsão. A lógica do ensino público é a inclusão, a lógica dos Colégios Militares é a exclusão. Basta visitar uma sala de aula de qualquer escola pública e contar os alunos com necessidades especiais e, em seguida, fazer o mesmo nas salas dos Colégios Militares.

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O que fazem os governadores que aderiram ao risível modelo de “militarização” de Bolsonaro é demonstrar seu completo desconhecimento a respeito da educação pública e dos objetivos desta farsa. Chovem denúncias de violências, assédio, crimes e outras abominações ainda piores nos “colégios militarizados” e nada, ou nenhum resultado, será alcançado. Se militarizar uma escola significasse aumentar o salário dos seus professores para cerca de R$ 9600,00 e implementar no corpo docente 50 ou 60% de mestres e doutores veríamos alguma mudança. Apenas dar emprego a policiais militares recalcados, autoritários e que deveriam estar nos lugares dos estudantes para aprender alguma coisa, não é solução para a educação brasileira.

Ainda que não venhamos a ver qualquer melhora, o projeto de Bolsonaro, encampado por governadores que concordam com sua visão racista e preconceituosa de sociedade, será bem sucedido ao iniciar a intimidação a professores e alunos na base. Ao invés de esperar pela polícia ou pelo sistema judicial brasileiro, a violência de gênero, de classe e de raça passa a ser exercida nas escolas, contra professores e alunos “transgressores”. Esta é a única função das escolas “militarizadas”. Cortar ou prender o cabelo, usar roupas que tornam invisíveis as identidades, suprimir determinados conteúdos, ameaçar professores e professoras, e todo o leque de anormalidades criminosas nos espaços pedagógicos cumpre o papel da intimidação simbólica exatamente dentro das estruturas que deveriam servir para formar uma sociedade menos desigual.

Um estado autoritário é sempre uma ferramenta a serviço de algum projeto sócio-econômico. O autoritarismo precisa aviltar o passado, o presente e o futuro ao mesmo tempo. É pela negação da memória do período militar que Bolsonaro violenta o passado. É pela violência policial genocida e acobertada pelo Estado em conluio com o judiciário que Bolsonaro agride o presente. E é pelo ataque aos professores, às escolas e à educação que Bolsonaro conforma o futuro doentio que pensa para o Brasil.

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