Quem vai parar o fascismo?, por Bruno Reikdal Lima

Desde o ano passado, ouvimos de ministros e pretendentes a ministros (que tiveram seus sonhos políticos interrompidos após as eleições de 2018) lembrarem da inspiração para o governo que iniciava suas atividades: o Chile de Pinochet.

Quem vai parar o fascismo?, por Bruno Reikdal Lima

Chamar o movimento em torno de Bolsonaro de fascista não é uma ofensa: é uma avaliação. Fascismo é um movimento de massas, coordenado não por um programa político amplo, mas em prol da manutenção e fortalecimento do próprio movimento, sempre reacionário, que procura por meio da monopolização do patriotismo potencializar os aparatos de dominação canalizando as frustrações de pertencentes a grupos dominantes que não gozam socialmente das benesses de ser uma elite capitalista. Fascismo é um fenômeno do mundo capitalista. Seja na Itália ou Alemanha na primeira metade do século XX, seja o bolsonarismo ou o golpismo na Bolívia.

É um movimento destruidor. Não é um partido, como falava Mariátegui na Itália dos anos de 1920, é uma “máquina de guerra”. Uma guerra social cujos inimigos são os opositores e os dissidentes, comumente taxados de “comunistas” (mesmo que não o sejam). Toda solução se reduz à potencialização da violência, permitida aos participantes do movimento e negada a toda outra parcela social, que pode ser “legitimamente” combatida se aparecer como violenta ou como risco à ordem social. Militarização, religião, ritos simbólicos em torno de bandeiras, gestos e imagens são fundamentais. Como escreveu Mussolini em um artigo certa vez, os brigadistas fascistas tinham aprendido nas trincheiras o valor fundamental das religiões: a obediência.

O papel da disciplina, mesmo que seja formal, introduz ao grupo a coesão rítmica de “fazer parte” do mesmo grupo – além, claro, da cor da pele, da posição social e dos sentimentos recalcados da impossibilidade de alçar ao patamar de elite desejado, canalizados todos para o “inimigo” como grande culpado pelo insucesso individual. Um grupo de meia-idade, classe média, branco, com camisetas amarelas marchando e batendo continência para uma réplica da estátua da liberdade em uma loja de conveniências ao som do hino militar manifesta bem o processo esteticamente tosco, historicamente devastador. Se a cena estivesse solitária no palco social brasileiro seria risível. Frente ao que vivemos em nosso presente, é mais um alerta de que a casca do ovo da serpente rompeu:

Leia também:  Apocalipse já: a destruição do estado de bem estar social, por Sonia Fleury

Desde o ano passado, ouvimos de ministros e pretendentes a ministros (que tiveram seus sonhos políticos interrompidos após as eleições de 2018) lembrarem da inspiração para o governo que iniciava suas atividades: o Chile de Pinochet. Fazendo coro ao eleito presidente que anos antes havia dito que a Ditadura brasileira tinha matado pouco e que o que nos restava era matar mais uns 30 mil, o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, falou do banho de sangue nas ruas chilenas como um mal necessário para o desenvolvimento do país. As ruas foram palcos de massacre? Foram. Mas a economia vai bem (ou ia, à época), obrigado. Não apenas ele, como o próprio superministro da Economia, um Chicago Boy, da mesma escola que realizou o experimento neoliberal chacineiro chileno, também passou pano para o plano do ditador Pinochet – assim como um de seus mestres, Milton Freedman, à época.

Com nosso ministro da Justiça capa-preta com ares de herói, Sérgio Moro, não vendo nada demais na tortura de presidiários sob a tutela de um agente que ele mesmo enviou, temos mais um sinal de que violência e mortes pouco importam se forem “contra os inimigos”. Ou mesmo acompanhar dia-a-dia os disparates do governador do Rio de Janeiro que espera “tiro na cabecinha”, comemora mortes e considera (assim como o presidente) perdas de civis que nada tem a ver com a história como “efeitos colaterais” ou “efeitos negativos”, vemos bem do que é que estamos falando. General que ameaça constantemente a democracia, que aceita estudar sobre a possibilidade de um AI-5 lembrado e proposto por um deputado, filho do presidente, ou ainda pelotões da polícia que tem como grito de guerra no treinamento o louvor a execução em operações como “pena de morte à moda brasileira”.

Leia também:  Responsabilidade penal por derramamento de óleo na costa brasileira

São eleitores que creem poder esfaquear um capoeirista ou um professor universitário por serem negros, que creem poder chamar de “macaco”, rebaixar aquela gente que quer “tomar meu lugar”. Que podem violentar, agredir, atacar ou demonizar homossexuais e pessoas trans, podem gritar “morte aos esquerdistas” ou “vamos metralhar a petezada”. Os culpados, claro, por “não sermos da elite”. E a normalização da violência e do ode à violência vão se normalizando. O velho “é só uma expressão”, “não foi isso que ele quis dizer” ou “não é bem isso” ganham mais ares do comum aceitável quando são lembrados por uma mídia tosca como “polêmica” ou “fala contra opositores”. Não é chamado de violência, incitação à violência ou mesmo crime. São tratadas como polêmicas, excentricidades.

Os atos simbólicos são permissíveis, os ataques realizados por aparelhos repressivos oficiais, também. Pode um candidato a deputado aos urros de uma massa branca, de classe média, com camisetas amarelas e repetindo gritos e ritos de guerra, quebrar uma placa que homenageava uma vereadora assassinada por milícias. Pode, também, o presidente para ser eleito ameaçar sua oposição em uma vídeo conferência para eleitores na avenida Paulista, vestidos de amarelo, classe média, etc., de um lugar de tortura no período da ditadura militar, a “Ponta da Praia”. Pode um deputado no dia da consciência negra planejar quebrar uma placa contra o racismo e o genocídio da população preta, muito bem planejado, assim como a entrevista “polêmica” de outro que decide relacionar criminalidade a cor da pele. Pode um grupo branco querer atacar uma missa celebrativa por ser da consciência negra. As brigadas estão soltas…

O fascismo se organiza por brigadas. Elas alimentam os representantes e estes a encorajam. O movimento ganha força. Agora quer um partido para si. Um partido em nome das armas, de Deus e aparentemente da família; assim como negação ou persecutório do “comunismo”. A placa da “Aliança pelo Brasil”, cuja logo tem as cores verde-amarela, feita de projéteis é mais uma normalização da violência, acompanhada pelo alusivo número de legenda “38”. Uma estética tosca, que seria risível em outros tempos, não fosse nosso fascismo. Ativo, altivo e com os aparelhos do Estado moderno (definido por Weber como a instituição que pode fazer uso legítimo da violência), prepara sua grande onda para os próximos anos – e os sinais, para além do já indicado, estão mais que dados.

Leia também:  Brexit, Facebook, doutrina do ódio e mentiras na rede, por Gilberto Maringoni

O projeto de lei do atual governo que tem o intuito de permitir o assassinato e a violência por parte de militares em operações por “Garantia da Lei e da Ordem” (que ainda não trouxeram resultados positivos para que consideremos ações que devam ser mantidas), é uma arma persecutória: não apenas ou especificamente contra a adversários políticos, mas, primeiramente, contra populações cada vez mais pressionadas pelo arrocho econômico e as anti-políticas trabalhistas e sociais em desenvolvimento. A permissão para matar e violentar sem precisar responder sobre suas ações é máquina de perseguição, de controle social. Trata-se de instaurar medo com validade de lei (como se fosse legítima ou justa), antecipando as forças do Estado contra as convulsões sociais que estão prestes a potencializar seus efeitos no país mais desigual do mundo. A similaridade com o decreto da autoproclamada presidenta boliviana e sua junta militar não é coincidência; é padrão.

As brigadas estão a solta, os aparatos de violência estatal já apontados. E a pergunta é: quem vai parar o fascismo?

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora