Tambores e flautas para afastar o inferno, por Douglas Portari

Povo Wayú, da Colômbia, luta para ter seus saberes tradicionais valorizados e ganha destaque em evento cultural que reúne artistas de diferentes estilos musicais em Cartagena

Povo Wayú Mercado Cultural

Tambores e flautas para afastar o inferno

por Douglas Portari*

Um a um os instrumentos do povo Wayú tomam forma na folha em branco: maasi, sawawa, turompa, kaasha. São flautas, gaitas, berimbaus de boca e tambores. Muitos deles são peças ancestrais dos Wayú, outros foram assimilados dos colonizadores brancos e de povos africanos escravizados nas Américas. Joaquin Prince Jayaryu, uma liderança Wayú, rabisca o papel na tentativa de fazer seu interlocutor entender as peças. Músico e artesão na comunidade de Uribía, em La Guajira, na Colômbia caribenha, Joaquin sabe também dar vida a esses desenhos, construindo e tocando os instrumentos.

Em sua mochila a tiracolo ele guarda uma pequena caixa de madeira onde estão duas maasi, as pequenas e delicadas flautas, mas o que ele tira de lá é o berimbau de boca. Estalando sua haste de metal ritmadamente, Joaquin faz o instrumento produzir um som característico, entre o cômico e o hipnótico. Há um saber tradicional e uma resistência ancestral no ato. “Nós fazemos os instrumentos com materiais da natureza, como casca de frutas, plantas e madeira, que tem de ser cortada no tempo certo, sob a Lua, para suportar as más energias, para ter o toque de cura espiritual e afastar o inferno.”

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Babel cultural
O líder Wayú está em Cartagena de Indias, cidade aberta ao mar do Caribe, cuja hedonista e vibrante paisagem musical – da salsa à cumbia, do bullerengue à hoje onipresente champeta – deve muito às influências indígenas e africanas. Responsável pela Escola Tradicional Sauyeepia Wayuu para as Artes, o Esporte e a Música, entidade criada há 20 anos para evitar a perda de identidade cultural e promover a reafirmação dos valores de seu povo, Joaquin irá participar do Mercado Cultural do Caribe, uma iniciativa que se propõe a contribuir para o reconhecimento, respeito e difusão da diversidade cultural da Colômbia.

Sob o comando do músico e produtor Rafael Ramos, líder do grupo Tambores del Cabildo (também uma escola de música tradicional), o evento chega à sua décima primeira edição, numa Babel musical que reúne criadores e produtores e ainda fomenta atividades para os saberes nativos. “Identificamos duas comunidades vulneráveis, os afrocamponeses, afetados pelos conflitos armados, e os indígenas, como o povo Wayú, que sofrem exclusão social e abandono. Nos dois casos, era claro que havia problemas em comum, em especial quanto à promoção de suas culturas.”

Morte e silenciamento
Com 48 milhões de habitantes, a Colômbia possui cerca de 100 diferentes povos indígenas, quase 2 milhões de pessoas, ou 4,4% da nação, de acordo com um censo de 2018. Para efeito comparativo, o quase um milhão de indígenas brasileiros representa menos de 0,5% da população brasileira. O povo de Joaquin, os Wayú, de língua aruaque, é um dos mais numerosos da Colômbia, com cerca de 270 mil pessoas. A maioria vive em seu próprio território, no departamento de La Guajira, o mais setentrional dos estados colombianos.

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Seis décadas de conflito armado no país produziram massacres horrendos, 260 mil mortes, mais de 30 mil desaparecidos e o desplazamiento – o deslocamento forçado – de 7,4 milhões de pessoas, 3% delas indígenas, segundo as Nações Unidas. Para os sobreviventes, a morte de parentes e o exílio não foram violência suficiente. Houve também um silenciamento. Longe de suas terras, proibidos de vagar por suas florestas, muitos grupos não puderam mais cortar árvores e conseguir as madeiras certas. Sem elas, não havia como construir seus tambores e outros instrumentos musicais.

A sistemática destruição da maneira de viver e de pensar de um povo, sem necessariamente a destruição física deste, tem um nome: etnocídio. Joaquin não sofreu pessoalmente do desplazamiento, mas o povo Wayú têm um longo histórico de violências sofridas. “La Guajira é o lugar onde os piratas enterravam seus tesouros e a gente teve de se defender deles. Depois, tivemos de defender nosso território dos espanhóis”. E depois de paramilitares, guerrilheiros e até da Força Aérea Colombiana. “Nós temos uma cerimônia tradicional, uma corrida de cavalos, e construímos estradas longas, largas. Eles a bombardearam pensando que fosse uma pista para aviões de tráfico.”

De piratas a turistas
Em Cartagena, Joaquin terá uma agenda cheia, com reuniões de trocas de saberes e apresentações com instrumentos tradicionais: tambores e flautas (também chamadas de gaitas) cujas batidas marciais e melodias indutoras de transe ele conhece desde menino. Antes, é preciso chegar ao local do Mercado Cultural, a Cidade Amuralhada de Cartagena, a antiga fortaleza colonial que protegia uma das muitas veias abertas da América Latina, o porto de onde a riqueza se esvaía. Hoje, é uma cidadela pródiga em sacadas coloridas e turistas satisfeitos.

Mas Joaquin está abrigado em La Boquilla, a cerca de dez quilômetros dali, e não consegue transporte para o lugar. Ele segue esperando pacientemente por um ônibus. Não é à toa que, em seu território, ele seja membro da comissão dos palabreros. O palabrero é aquele que conserta, que apazigua duas partes em disputa, como um juiz, é parte do sistema normativo dos Wayú, prática reconhecida como patrimônio imaterial da humanidade pela Unesco. Apesar da centralidade da herança africana e indígena para a cultura colombiana, negros e indígenas seguem à margem – literal e metaforicamente.

Povo Wayú Mercado Cultural

Capitalismo, colonização e escravagismo
Como tantas cidades latino-americanas, Cartagena combina beleza abundante com males crônicos, sendo a mobilidade urbana precária apenas um deles. E, no fim de novembro, o povo decidiu sair às ruas no país todo com El Paro – manifestações contra a falta de desenvolvimento social. Apesar de nossa parcela considerável nesse pecado, o antropólogo Claude Lévi-Strauss, em artigo de 1961, abordou algumas de suas raízes: “As sociedades que hoje chamamos ‘subdesenvolvidas’ não o são por sua própria culpa, (…) foram essas sociedades que, por sua destruição direta ou indireta, entre os séculos 16 e 19, possibilitaram o desenvolvimento do mundo ocidental”.

Esta passagem consta de sua rica biografia, lançada pela professora e historiadora francesa Emmanuelle Loyer, em 2015. Ciente da força dessa crítica à época, e de sua triste atualidade, Loyer acrescentou “os historiadores atuais mostram como a economia escravagista da plantation (de cana-de-açúcar) no Caribe no século 18 permitiu, por exemplo, uma acumulação de capital necessária à Revolução Industrial na Europa. Assim, capitalismo, colonização e escravagismo estão intrinsecamente ligados numa história violenta e violentamente interdependente”. Uma dinâmica histórica que reverbera como os tambores tradicionais.

Finalmente, Joaquin chega ao seu destino, o Mercado Cultural do Caribe. Quase uma hora e meia depois do previsto e vestido com as indumentárias e chapéu tradicionais Wayú, ele irá mostrar como sua tradição é um dos esteios da música e da cultura da Colômbia. Irá também desenhar seus instrumentos para um jornalista perdido, na esperança de que os alijuna – “um não Wayú” ou “aquele que traz dano”, nós, os brancos – possam entender que sem seus territórios e sua cultura, sem seus tambores e flautas, os povos nativos não vão suportar as más energias, nem possuir o toque de cura espiritual. E o inferno não poderá mais ser afastado.

*Bolsista da Fundação Gabriel García Márquez – Bolsa Gabo de Jornalismo Cultural 2019, que reuniu 15 jornalistas do mundo todo para uma semana de oficinas e produção de textos em Cartagena, Colômbia, e da qual uma versão desta reportagem faz parte.

Fotos: Rafael Bossio/Fundación Gabo/@kabezarodante e Emmanuel Upegui/Fundación Gabo/@e.upegui 

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