Democracia em vertigem ou vertigem da violência, por Dora Incontri

    Assisti ontem ao documentário Democracia em Vertigem de Petra Costa. Muito bem feito, roteiro excelente, falas precisas, numa narrativa em que se entrelaçam a história política do Brasil desde o Golpe de 64, passando pelo golpe de 2016, até a eleição do atual (des)governo e a história de vida da própria diretora e de sua família. 

    Na mesma safra de fim de semana, vi outro documentário (esse em série) – também muito instigante – Guerras do Brasil de Luiz Bolognesi.

    São histórias de nosso povo, de nossa nação, de que todos nós brasileiros, fazemos parte – são nossas raízes ancestrais e ao mesmo tempo a história mais recente, a que todos assistimos com maior ou menor grau de participação e consciência política.

    O que ressalta de toda essa releitura histórica são as raízes de violência que fazem parte de nosso passado e estão plenamente ainda instaladas em nosso presente. O genocídio indígena, que continua ainda e sempre; a escravidão, a discriminação e a matança contínua dos africanos aqui trazidos e dos afro-brasileiros, que constituem a maioria da nossa população; a dívida histórica que temos com o Paraguai, com a guerra de extermínio, promovida no século XIX; a hedionda situação do sistema prisional e a criminalidade institucionalizada; a violência da tortura e dos assassinatos políticos da ditadura de 64…

    E tudo isso ainda permanece vivo e agora defendido por aqueles que estão não poder e não têm mais vergonha de abertamente fazer a apologia da morte.

    O que se lê é violência, sangue, desigualdade, abuso, injustiça… culminando com essa história tenebrosa do golpe contra Dilma e da prisão de Lula, orquestrada politicamente, como está cada vez mais comprovado pela Vazajato. 

    Quando aqueles, como eu – que se enojam com o sangue derramado, que se indignam com a injustiça, que se sensibilizam com a desigualdade, que sentem náuseas com as traições, os jogos de poder e os abusos de autoridade – mergulhamos numa revivescência histórica dessas, tendemos ao desânimo. 

    Mas essas questões estão entranhadas na história do mundo – antiga ou recente… Lembremos dos banhos de sangue da Revolução Francesa, da Guerra de Secessão americana, da Revolução Russa, da Revolução Maoísta – ou seja, mesmo quando a causa é supostamente boa, em busca de justiça social, de igualdade e de quebra de estruturas totalitárias, ainda assim, a violência se faz, e depois mais retrocessos, mais totalitarismo, mais desigualdade. Basta pensar nos recuos históricos depois da Revolução Francesa, com a volta da Monarquia e do Império; de um Lênin (que poderia ter feito uma revolução mais inclusiva, mas acabou trucidando aqueles mesmos que o apoiaram, como fez com todos os anarquistas) e depois com a consequente entrada da ditatura de carnificina de Stalin, e a China que até hoje vive num sistema totalitário, sem liberdade de expressão.

    Sem mencionarmos outras violências extremas do século XX, como o holocausto, promovido pelos nazistas, a bomba atômica, as constantes guerras engendradas pelo imperialismo norte-americano, para impor sua hegemonia no mundo, para garantir o seu uso e abuso do petróleo e para sustentar a indústria bélica…

    Nesse breve panorama, falamos de sangue e violência na esquerda e na direita…

    E uma questão que nos angustia a nós, espíritas, que somos evolucionistas: será que estamos evoluindo mesmo? Será que não somos sempre a mesma natureza bárbara, ávida de sangue e poder e será que um dia poderemos viver num mundo em que a justiça, a paz e a fraternidade legítimas sejam a tônica das relações entre as pessoas e entre os povos?

    Essa questão é delicada e nos afeta a todos – adeptos ou não do evolucionismo  – porque em certa medida, os que lutam por um mundo melhor, tenham ou não alguma forma de espiritualidade, sejam sociais-democratas, socialistas de diversas matizes, anarquistas, marxistas, todos de uma forma ou de outra o fazem porque acreditam que possam mudar o mundo.

    E parece que a realidade não se deixa modificar, parece que a impotência nos toma. Parece que andamos um passo à frente e recuamos dois. Ou será, numa perspectiva mais otimista, que andamos dois passos à frente e recuamos um? Questões difíceis de avaliar, quando estamos mergulhados no momento histórico.

    É certo que hoje, a estrutura do capitalismo baseada no lucro, sem nenhum compromisso com a ética, com o respeito ao ser humano e à natureza, explica em grande parte nossas desditas. A nossa situação brasileira atual é resultante de uma agenda neoliberal internacional e da hegemonia do império americano, que faz do Brasil e de outras nações latino-americanas o quintal de seus interesses econômicos. Em Democracia em Vertigem, isso fica bem explícito: o quanto esse processo que enfrentamos nos últimos anos se sintetiza na continência de Bolsonaro diante da bandeira americana e das ligações espúrias de Moro com os EUA.

    Por tudo isso, a caminhada necessária e possível, para uma quebra dos sistemas de poder, para maior igualdade e mais justiça, para a erradicação da violência, passa por dois atalhos, que estão aquém e além da ação política também urgente:  a cura terapêutica e a educação para a ética.

    Não andaremos definitivamente para um mundo melhor sem mudar a estrutura do psiquismo humano, curando seus traumas, trabalhando com os impulsos profundos de dominação, narcisismo, sadismo, agressividade e educando novas gerações para a cooperação, para a empatia, para a igualdade de gênero, étnica e social.

    Enquanto não fizermos um mutirão de educadores-terapeutas e terapeutas-educadores que consigam espalhar um apaziguamento interno das pessoas, que consigam despertar em si mesmos e em outros valores humanistas que se enraízem profundamente nas consciências, todas as revoluções, todas as eleições, todos os avanços estarão sujeitos a serem tragados pelas ondas de ódio, de ambição e poder desmedido.

    Acima de tudo, teríamos que ferir o sistema capitalista de morte com uma ferramenta que muitas formas de espiritualidade apontam, mas que a maioria das igrejas não adotam em suas instituições de poder: o desprendimento dos bens terrenos, a busca da simplicidade, a substituição dos prazeres que o dinheiro pode trazer por uma felicidade mais genuína – da consciência tranquila, das relações humanas consistentes e amorosas… 

    Afinal toda essa violência narrada, todos esses embustes políticos, toda essa tragédia humana de sempre se resume a que? Ao desejo de dinheiro, poder, domínio – que faz com que os incautos passem por cima de outros seres humanos, se encastelem no narcisismo, pratiquem as piores injustiças e deixem o mundo pior.