Um elefante embaixo do tapete

    Há mais de um mês, manchas de óleo começaram a aparecer nas praias do Nordeste. Desde então, as evidências de um vazamento monstro de petróleo foram se avolumando enquanto quantidades variáveis de petróleo se acumulavam por mais de 2 mil quilômetros de costa, do Maranhão até a Bahia.

    A extensão do desastre evidencia um vazamento gigantesco ocorrido a longa distância da costa, contaminando vasta área do Atlântico Sul pelo caminho. Sugere também que a contaminação não se tenha restringido apenas às áreas que vão do ponto de vazamento até a costa, mas tenha-se alastrado em todas as direções por, no mínimo, extensão tão longa quanto a desse ponto à costa, causando envenenamento das águas e matança por vastíssima área de milhões de quilômetros quadrados.

    Apesar das evidências avassaladoras de um desastre de proporções extraordinário, os meios de comunicação decidiram encobrir o caso, tendo noticiado até o final de setembro tratar-se do resultado da lavagem do tanque de navio.

    A ação orquestrada durante um mês revela a cumplicidade dos meios de comunicação para com o autor do crime ambiental ao apresentar uma falsa explicação para um fenômeno constatado pela população costeira de todo o nordeste brasileiro. Note que aos olhos dos frequentadores das praias a explicação seria plausível, dada a suposição, para cada um deles, de se tratar de fenômeno local. A constatação da extensão do desastre, o fato gerador do informe, no entanto, expõe a notícia como uma espécie de piada a escarnecer dos brasileiros, ao mesmo tempo em que escamoteia o desastre.

    O escárnio implausível só cessou ante a emergência de zombaria ainda mais escrachada: a informação de que o óleo adviria da Venezuela, tendo sido essa suspeita que levou parte dos meios de comunicação e do governo brasileiro a acordar, decorrido mais de um mês do acidente monstro que contaminou o Atlântico Sul.

    A cumplicidade do google, dos meios de comunicação e do governo brasileiro com os criminosos fica escancarada ao se perguntar por que os lambões que perpetraram crime ambiental de tão tamanha proporção não se prontificaram de imediato a iniciar a limpeza da lambança, fingindo não ter percebido a ocorrência do desastre monstro que varreu o oceano e contaminou 2 mil quilômetros de praias. Seria como se, deliberadamente, o conluio tentasse disfarçar as tragédias de Mariana e Brumadinho. A comparação revela a impossibilidade que teria sido, sem a cumplicidade dos citados, o silêncio por tão longo tempo sobre um desastre que pode vir a se revelar o maior crime ambiental já cometido no Atlântico Sul.

    O que os olhos não veem…

    Dois terços do planeta são cobertos por mares, local da origem da vida, que constitui ainda hoje regiões virtualmente desconhecidas apesar de abrigar riqueza ecológica extraordinária. A ausência de informações sobre o crime em andamento no Atlântico Sul, talvez o mais resguardado dentre os mares, permite especulações de que a tragédia ecológica que ali se desenrola seja comparável em magnitude aos recentes incêndios ocorridos na Amazônia.

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    https://jornalggn.com.br/blog/gustavo-gollo/desastre-ambiental-no-atlantico-sul/

    Nota: Esse texto publicado em 7 de outubro de 2019 foi apagado e restaurado em 10 de outubro