4 de junho de 2026

A cibernética musical de Públius Lêntulus

Por Antonio Nelson*

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ESPECIAL CARNAVAL VENEZA BRASILEIRA 2013

Interculturalidade de Pernambuco

ENTREVISTA EXCLUSIVA

A cibernética musical de Públius Lêntulus

“O Carnaval de Pernambuco é a festa da diversidade: Blocos líricos de frevo se encontram com maracatus de baque solto e virado, tribos de índios e caboclinhos, Ursos e Troças com Orquestras de Frevo de Rua, grandes e novos artistas se apresentam nos palcos do Recife, em Olinda e no interior…”

Públius Lêtulus – arranjador, compositor e cantor

Antonio Nelson

O espaço geográfico de Pernambuco já está ocupado pelo multiculturalismo carnavalesco. Especialmente na Veneza Brasileira, – Recife. Do Marco Zero às comunidades como Alto José do Pinho, Ibura… Ao bairro nobre da Boa Viagem. Cidadãos locais, turistas nacionais e internacionais estão sob os ritmos dos Maracatus, Caboclinhos, Ciranda… Mas no bairro da Várzea, no Pólo Várzea, – Palco descentralizado do Carnaval Multicultural do Recife -, 10 de fevereiro, domingo de carnaval, às 23h, que a experiência inédita da música cibernética de Públius Lêntulus, cantor, compositor e arranjador pernambucano, nascido criado na Várzea, há de reverberá aos ouvidos e olhos do público, com as influências dos mestres populares ao universo acadêmico como declara: “Uma pessoa fundamental na minha formação é a professora Cirinéia Amaral. Ela foi quem me sensibilizou, e me motivou bastante em ser minha docente de música no Colégio de Aplicação da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), além de passar muitos conhecimentos sobre a cultura popular de Pernambuco”.

Com nome e sobrenome inspirado no senador romano, Públio Cornélio Lêntulo Sura, que viveu na Galiléia, à época de Christo, o Públius Lêntulus da Veneza Brasileira estreia trajetória solo, pois esteve na linha de frente com Azabumba (www.reverbnation.com/azabumba) e Rabecado (www.reverbnation.com/rabecado). De acordo com o músico, O reverbnation, myspace, youtube, além de blogs, facebook e twitter, se tornam grandes ferramentas para propagação dos projetos. O videoclipe da música Dois Unidos, por exemplo, tem mais de 200 mil acessos no Youtube. Um grande mérito para uma banda independente.

E mais uma vez, Públius compartilha seu atual processo criativo, sob o título “Solo”, em que a origem da palavra remete ao italiano, à terra e vida…No ciberespaço através do Download, https://soundcloud.com/publius-3, com destaque para a música “Aqui”, onde há o som psicodélico, riffs, tons, subtons etc. Públius, com apenas 37 anos de idade, revela uma intimidade com o bandolim, banjo que começou a tocar na Orquestra de Pau e Corda, do Bloco Lírico Cordas e Retalhos, em 1998. Já no Ensino Formal de Música iniciou o violão e viola caipira, através dos métodos de Roberto Correia e Braz, para somente depois enveredar pelos caminhos do bandolim e de outros instrumentos de corda, como o charango e a guitarra elétrica.

Numa entrevista exclusiva, para o Portal do Nassif, quando questionado sobre a existência de críticos musicais no Brasil, Públius não teme, aponta-os. A saturação do mercado musical de Pernambuco, a manipulação da mídia, som híbrido, riffs, percussão, contratempos, overdub; sua relação com o vernáculo, – a língua portuguesa -; fixações com palavras, imagens e sons, além da intuição são assuntos do diálogo sobre a interculturalidade veneziana. Confira!

Antonio Nelson – Quais são seus ícones da música pernambucana? Há muito para (re) descobrir da multiculturalidade de Pernambuco?

Públius Lêntulus – São muitos os ícones da música pernambucana. Desde João Teixeira Guimarães, Luperce Miranda, Capiba e Nelson Ferreira (só para citar alguns nomes) até Siba, Lenine, Lula Queiroga, Marco Polo, Alceu Valença, Lula Côrtes, Chico Science e Nação Zumbi, sem esquecer é claro de Luiz Gonzaga. Mas há muito para se descobrir ainda para além da multiculturalidade, como o Babi Jaques, Sagaranna, André Maria e o Feiticeiro Julião, dentre outros novos nomes.

Antonio Nelson – Como é a experiência de tocar no palco descentralizado do Carnaval Multiculrual do Recife? Em 2013, você canta e toca na Várzea, bairro onde você nasceu e mora, um sabor de ansiedade e ineditismo, o público pernambucano é exigente?

Públius Lêntulus – É muito bom fazer parte da festa, ainda mais aqui na Várzea. Essa sensação de pertencimento é muito agradável. Tocar no “quintal de casa” é muito bom, por reencontrarmos os nossos amigos, cantarmos e tocarmos para a “torcida”! O público pernambucano é exigente, pois quer ouvir novidades e tradição nesse período. A Várzea é a terra de Mestres como Seu Dida (in memorian), compositor de marchinhas, de cocos e grande brincante, criador de bonecos de madeira (mané gostoso) morador da Rua Santa Quitéria.

Antonio Nelson – Há uma mentalidade equivocada para quem pensa que o Carnaval de Pernambuco é puro hedonismo?

Públius Lêntulus – E quem não busca a felicidade? Esse estado de espírito alegre e esse clima de festa são os “combustíveis” para um
ano de muito trabalho e realizações. Viva o prazer!

Antonio Nelson – O quê significa o Carnaval de Pernambuco para você?

Públius Lêntulus – O Carnaval de Pernambuco é a festa da diversidade: Blocos líricos de frevo se encontram com maracatus de baque solto evirado, tribos de índios e caboclinhos, Ursos e Troças com Orquestras de Frevo de Rua, grandes e novos artistas se apresentam nos palcos do
Recife, em Olinda e no interior. Esse estado de espírito recarrega as baterias dos foliões e leva as famílias para ganhar as ruas e sentir o seu bairro, brincar na sua comunidade, em Olinda, Recife Antigo e no interior em fantasias quase venezianas como os caretas de Triunfo. Isso só para citar algumas das manifestações desse período, sem falar das cirandas litorâneas que revelaram nomes com Lia de Itamaracá e as filhas de Baracho.

Antonio Nelson – O que você sonha para a cultura de Pernambuco, e do Brasil?

Públius Lêntulus – O que sonho para a cultura de Pernambuco? Que mais gente boa possa participar dessa grande festa! Venham todos! Moços e velhos! Venham brincar com a gente! Tragam a sua alegria e vistam sua fantasia!

Antonio Nelson – É preciso uma mobilização do Brasil para subverter a história da música “brasileira”? Há inversão de valores quanto à qualidade musical quanto à harmonia, arranjos, composições etc. veiculados pela grande mídia?

Públius Lêntulus – Acho que a grande mídia está aí para mostrar a diversidade e que a Educação Musical deve ser uma grande aliada para ampliar os horizontes dos ouvintes e apreciadores da música. É um trabalho de “formiguinha” (com o trocadilho aproveito para lembrar o grande Maestro Formiga, Ademir Araújo). Cada um deve fazer a sua parte! Dou o meu 100% por cento quando desenvolvo um novo trabalho.

Antonio Nelson – Existe crítica musical no Brasil, na acepção correta da palavra crítica? Quais são os críticos?

Públius Lêntulus – Vários críticos como Tárik de Souza, José Ramos Tinhorão e Hermano Viana são alguns dos bons exemplos de críticos musicais no Brasil mais conhecidos. Existem novos blogs como os Outros Críticos, Um que tenha, Eu ovo entre outros que divulgam as novidades da música na internet. É muito saudável que essa renovação aconteça sempre.

Antonio Nelson – O uso das tecnologias, e a distribuição de downloads das composições, especialmente pela geração de músicos pernambucanos pós década de 1990, que são precursores desta façanha, tem ido além das fronteiras do mercado? Quais as conseqüências disto? Há um deslumbramento com os dispositivos tecnológicos, ainda estamos na pré-história do uso inteligente da música no cibermundo?

Publius Lentulus – As ferramentas da internet como o soundcloud, o facebook e o twitter são fundamentais para a divulgação dos novos artistas. A democratização do acesso à informação é um dado muito interessante do mundo contemporâneo. É importante desenvolver a criticidade para não perder tempo em sites fúteis.

Antonio Nelson – É possível fazer e viver da música independente no Brasil? Quais os maiores desafios?

Publius Lentulus – Estou vivendo! Sou mais um exemplo de que é possível viver da música independente quando existe comprometimento e vontade de ampliar os horizontes a cada dia. Empreendedorismo é o caminho! Criatividade é fundamental!

Antonio Nelson – Qual seu conceito sobre música de mercado?

Publius Lentulus – Faço música para minha satisfação e sempre conto com os amigos para criar coletivamente. Todos eles são o meu “termômetro”. Ganhar o mercado é conseqüência dessa dedicação e dessa melomania, desse amor pela música mesmo.

Antonio Nelson – Qualidade tornou-se secundária?

Publius Lentulus – Faço a minha parte e não julgo a qualidade da música dos outros. Os grandes ícones da Música Brasileira como Roberto Carlos e Erasmo Carlos, além de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque (por exemplo) continuam a fazer boa música. É neles sempre foco, além dos meus pares por aqui como Tibério Azul, Juliano Holanda e Zé Manoel dentre outros.

Antonio Nelson – O mercado musical de Pernambuco está saturado?

Públius Lêntulus – Saturado? Claro que não! Quanto mais, melhor! Mais de 180 CDs e DVDs de artistas pernambucanos foram lançados no mercado no ano passado. Isso é muito salutar! O Governo do Estado vem incentivando através do Funcultura e de apoios as iniciativas dos artistas independentes. Há oportunidades para todos! É só uma questão de criatividade, empreendedorismo e organização.

Antonio Nelson – A grande mídia ainda reforça o clichê do Frevo, ou os Caboclinhos, Maculelês, Maracatus, Ciranda, Coco, ritmos e gêneros de Pernambuco já estão no domínio público? Há um jogo de interesse político e midiático em concentrar o Brasil no eixo Rio/São Paulo, ou quando se trata de outros Estados os valores simbólicos são tratados com estigma, ou seja, quando o artista é do nordeste, apenas é apresentado como local, já quando é do Sul ou Sudeste é nacional?

Públius Lêntulus – Existem clichês a serem superados como a “separação” da cultura popular da cultura pop. Cada vez mais os artistas da cultura popular ganham os grandes palcos e isso é muito bom! Nesses dias, por exemplo, estive passando por Pipa (RN) e numa loja de roupas ouvi uma gravação que fiz com Dona Cila do Coco tocando, e a proprietária carioca estava curtindo o samba de coco e utilizando como “isca” para atrair clientes. Achei isso muito bacana e fiquei impressionado em como a gente consegue chegar até os outros através da música. Ainda em fevereiro viajo com D. Cila para tocar no SECS Pompéia em SP. Aos poucos tudo vai evoluindo e melhorando para todos.

Antonio Nelson – Tornou-se moda música híbrida?

Publius Lentulus – Liberdade é o caminho. “Nada é parado, nada é seguro. Nada é infinito ou puro”, como bem disse o cearense Ednardo.

Antonio Nelson – Por que seguir trajetória solo?

Públius Lêntulus – A carreira solo já era um desejo antigo, adiado por questões de escolhas diversas. Agora é o momento de focar no cd “solo” e viajar bastante divulgando essas canções. Pretendo lançar um disco de carreira a cada dois anos e manter os outros projetos como o Rabecado, a Azabumba, o Baião Polinário e continuar a contribuir com artistas como Geraldo Maia, Saracotia, Treminhão, Gonzaga Leal, Rui Ribeiro, Herbert Lucena e Sonia Sinimbú para citar alguns nomes. 

Antonio Nelson – E Olinda! O que significa para você?

Públius Lêntulus – Olinda é uma cidade linda! Respiramos arte naquela cidade durante todo o ano! As prévias de Carnaval em Olinda são imperdíveis! Os blocos, as troças, as pessoas fantasiadas, tudo é muito legal! As pessoas entoando os frevos e desfilando sua alegria ao
passo do frevo… Tudo é mágico!

Antonio Nelson – Riffs, percussão, contratempos, baixo acústico com marcações… Overdubs! Como é seu processo de criação? Sua relação com o vernáculo, – a língua portuguesa -; fixações com palavras, imagens e sons, além da intuição?

Públius Lêtulus – O processo de criação é intuitivo, os arranjos são criados coletivamente. Cada músico constrói suas estruturas e o arranjo vai sendo criado. Pensamos na música e nos arranjos como blocos, estruturas que se sobrepõem. Experimentamos bastante nesse álbum, pois tivemos bastante tempo (quase quatro anos) para conceber e também explorar a criatividade de cada um dos músicos durante o processo de gravação nos estúdios Malunguim, Lombra e Estúdio do Poço. Sobre a questão vernácular: a língua portuguesa é muito rica e seu uso para expressar temas universais como a passagem do tempo, a saudade, a felicidade, os encontros e desencontros da vida, os destinos é uma
tentativa de fotografar mesmo que de maneira surreal e/ou fantástica uma fração de tempo das nossas vidas. Há mesmo psicodelia, experimentalismos e liberdade de criação. A música no solo tenta se aproximar das artes visuais com uma palheta de cores e timbres bem diversa, multicolorida.

Antonio Nelson – “Solo”! Por quê?
Públius Lêtulus – Isso mesmo! O título do nosso primeiro álbum é “solo”. Solo, parte da Terra onde brota a vida, raiz de tudo o que há de belo! Solo de um instrumentista que inventa canções… Solo, em italiano: sozinho. Encontrar-se. Lembrar de si e do quanto amamos os outros.

*Antonio Nelson é jornalista.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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