5 de junho de 2026

O manifesto de André Lara Resende, por J. Carlos de Assis

O manifesto revolucionário de André Lara Resende

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J. Carlos de Assis*

Caetano Veloso chamou minha atenção para um artigo de André Lara Resende no “Valor”. Fui consultar e vi que Luís Nassif já havia demolido o artigo com a conhecida competência em sua coluna. Contudo, diante da confusão que Caetano aprontou no “Globo”, com sua sincera confissão de que nada entende de economia embora queira entender tudo, acho conveniente dar uma contribuição ao debate a partir da tese central conclusiva de André, ou seja, de que o mundo deve se contentar com crescimento zero.

Isso talvez possa ser bem entendido por um economista de mercado, mas é péssima economia política. Pessoas ricas como André podem aceitar a inevitabilidade do crescimento zero porque, afinal, em seu nível de riqueza, não precisam ganhar mais ano a ano: basta repetir a renda passada. Entretanto, existe um problema: os que ganham pouco, ou muito pouco, situados nas esferas mais baixas de renda, só têm chance de aumentar sua renda em duas hipóteses: se a economia crescer como um todo, para que se distribua a renda em crescimento, ou se fizerem uma revolução violenta para se redistribuir a riqueza acumulada.

Aprendi isso com minha querida professora Maria da Conceição Tavares ainda em meu curso de graduação de meados dos anos 70. Riqueza é quase impossível de se distribuir (sem violência), dizia Conceição. Se quiserem distribuir alguma coisa, distribuam renda. E é preciso que a renda cresça para que ela possa ser distribuída de uma maneira virtuosa, promovendo indiretamente distribuição de riqueza na margem, para que uma sociedade tenha o mínimo de equilíbrio social e estabilidade política. Duvidam? Lembrem-se do projeto do então senador Fernando Henrique para taxar a riqueza: ele se esqueceu totalmente dele quando chegou à Presidência, e nem Lula teve coragem de tocar no assunto!

André Lara Resende talvez não saiba, mas ele, com seu malthusianismo, está pregando a revolução. O congelamento da renda média, numa sociedade de classes onde o poder econômico influi decisivamente no poder político, resulta inevitavelmente na expropriação de renda nos escalões inferiores para suprir o aumento de renda nos estratos superiores. Ou acaso as empresas deixarão de buscar aumento de renda ano a ano para atender a seus acionistas? Aos de baixo, pois, restará a alternativa da revolução violenta para melhorar a renda.

É preciso dizer que isso já está acontecendo na Europa. André apenas racionaliza o fenômeno. O Estado de bem estar social construído no pós-guerra, até os anos 80, está sendo destruído pelas políticas econômicas neoliberais em curso mediante os cortes dos gastos públicos, de salários e de direitos previdenciários. Estão tomando de volta o que deram durante a Guerra Fria para afastar o perigo comunista. Agora que a União Soviética acabou, a social democracia europeia (não a nossa, de fancaria) tornou-se tão dispensável quanto o próprio comunismo. Portanto, até a próxima revolução!

*Economista e professor, autor com Francisco Antônio Doria do recém-lançado “O Universo Neoliberal em Desencanto”, Ed. Civilização Brasileira.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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