Celebração de Natal sem festa, por Bruno Reikdal Lima

Abundância dos palácios e das elites contrastando com a pobreza dos casebres e dos barracos de pelo menos metade da população que sobrevive com R$ 413,00 mensais

Celebração de Natal sem festa

Por Bruno Reikdal Lima

Enquanto Herodes desfrutava de festas no palácio e nas cidades construídas para veraneio e luxos da elite hebreia e romana, Maria paria e colocava seu filho para dormir no recipiente em que animais de uma estrebaria comiam sua ração. A beleza do palácio e a pobreza de uma família migrante do interior. Na mesma terra, do mesmo povo, uma mesma noite, com um abismo social que separava a elite que se beneficiava do sistema de dominação do Império Romano, da massa popular que sofria com os efeitos da trama política e dos regimes de controle executados pelo poder do exército e legitimados pela religiosidade serviçal das lideranças judaicas.

Um quadro muito semelhante com os natais em terras brasileiras. Abundância dos palácios e das elites contrastando com a pobreza dos casebres e dos barracos de pelo menos metade da população que sobrevive com R$ 413,00 mensais. No meio do caminho, os grupos que servem de testa de ferro para fazer valer moralmente e na força um sistema de exploração que promove e reproduz a maior desigualdade do mundo. Desigualdade essa que de acordo com o ministro da economia, Paulo Guedes, não é de responsabilidade do governo. Mãos lavadas e cara fechada sem um pingo de empatia de quem beneficia as elites já mais que privilegiadas, enquanto retira o pouco dos dispositivos legais de segurança de populações vulneráveis.

Como mostra Sean Freyne em Jesus, um judeu da Galileia, publicado em português pela editora Paulus, no tempo de Jesus o povo de sua região, majoritariamente de agricultores que já sofriam muito com os impostos cobrados pela realeza local e pelo Império, tem um agravamento de sua situação de exploração com a criação de duas cidades voltadas para a ostentação das elites: Séforis e Cesareia de Filipe, com casas de banho e instalações luxuosas, que dependeram de uma grande obra de irrigação que retirava das plantações da região as condições para boas safras, dificultando a capacidade de produção e consumo das famílias do interior. Às custas do esmagamento da população, a elite herodiana prosperava na região. Do mesmo modo, às custas das reformas violentas contra os de baixo, as cifras dos bilionários brasileiros, dos bancos e especuladores aumentam cada vez mais. Enquanto a carne sai do prato do povo, os índices da bolsa de valores e as contas bancárias dos de cima sobem mais.

Nesse quadro de tensionamento das relações sociais e a falta de preocupação com as pessoas empobrecidas, o presidente deseja um feliz Natal, “mesmo que sem carne para alguns aí”. Ou seja: mesmo estando mais pobres, com condições de vida pioradas e sem que haja qualquer alternativa proposta para atendimento ao povo, é preciso desfrutar do Natal, festejar, conformar-se com essa situação. Seguir adiante, com os sinos alegres das propagandas com ceia farta e refrigerantes, com as músicas de celebração nas igrejas, enquanto em casa a mesa fica mais vazia e as contas mais caras. Assim como no tempo de Jesus, enquanto o povo via a construção de cidades caras ostentando casas de banho e monumentos locais, a capacidade de consumir para viver diminuía e os impostos tomavam conta da produção e do orçamento comunitário.

A narrativa bíblica conta que além de tudo, Herodes teria mandado matar crianças para evitar que surgisse um “novo rei”, uma liderança local que viria dos de baixo. Do trono, ele requer a morte de quem ameace a ordem social estabelecida. Uma governança injusta teme qualquer possibilidade de levante que dê esperança ao povo sofrido, mesmo que seja uma criança pobre, nascida em uma família desconhecida e marginalizada, sem poder algum. Ao ver qualquer possibilidade de promessa de alteração das relações sociais de dominação, a reação da elite não apenas foi, no caso de Jesus, como é extremamente violenta por aqui, em nossa terra. A molecada pode virar alvo, pode morrer, em uma luta para manter a execução do poder. Quem se colocar contra a ordem vigente, pode encontrar um fim trágico.

O Natal pode ser celebrado, mas não necessariamente com festa. Quando vemos o quadro do nascimento de uma criança pobre no meio de feno e de esterco, ao lado de animais, dependendo do lugar onde estamos, se identificarmos ou mesmo nos identificarmos com aquela família, não vamos sorrir e nos alegrar sem mais. Vamos nos indignar. O filho de Deus estava sem teto e sem ceia, enquanto a realeza aproveitava dos luxos que vem da exploração. Vamos nos lembrar que aqui nessa terra, hoje, tantas filhas e tantos filhos de Deus vão passar a noite sem ter motivo para comemorar, mais lascados do que antes, na mesma situação ou piores do que Jesus, sem ter quem os ampare ou lute junto em suas causas, contra os aparelhos e as relações de dominação.

Natal sem carne e sem festa. Se for para celebrar, que seja a possibilidade de vir alguma transformação dos de baixo. Mas enquanto não ocorre, a festa não chega. Fica-se, na verdade, como os trabalhadores não absorvidos pelas relações de produção capitalistas na expressão de Marx: pauper ante festum, que significa “os pobres diante da festa”.

 


Referências citadas no texto
FEYNE, Sean. Jesus, um judeu da galileia: nova leitura da história de Jesus. Paulus: São Paulo, 2011.

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