Crônica da ‘madinha’ chegando ao céu, por Rui Daher

A “madinha” de todos os sambistas e daqueles que, ajeitados ou não, amam sambar, já chegou ao céu.

MST

Crônica da ‘madinha’ chegando ao céu, por Rui Daher

Há dez anos, Yolanda, minha meiga e atilada mãe se foi, aos 85 anos. Foi num Primo Maggio. Gaúcha de Pelotas, filha de imigrantes espanhóis e italianos, adorava expressões curtas, em italiano. Cazzo, se non è vero, è ben trovato, stretto di merda, carino, e algumas gírias, que à diversidade atual desagradariam. Fazer o quê? Ela nasceu em 1923, e foi quem me induziu a amar as culinárias mediterrâneas, o cinema italiano pós-Guerra, e os autores de ‘livros policiais’. Daí, o vício eterno da leitura.

Quem não tem mãe viva, procura uma madrinha. Tenho várias para substituí-la, e uma delas se foi.

A “madinha” de todos os sambistas e daqueles que, ajeitados ou não, amam sambar, já chegou ao céu.

Antes disso, vários estágios de amor. Alguns queriam-na de volta à Terra, outros 17s uma passagem pelo purgatório por ser de esquerda. O Cão a queria para conquistar a todos nós. Não sei pra quê, se a humanidade já o segue fielmente.

Mas o esperado se fez canção e Beth Carvalho veio em azul celestial, e foi recebida pelo Conselho Consultivo do “Dominó de Botequim”, na ocasião, representado por Alfredinho Bip-Bip e Luís Melodia. Chegou há dois dias, dizendo “vamos festejar, mas só depois comunicaremos ao Rui, que anda muito triste com a política”.

– Motivos ele tem, disse Alfredinho.

– Lembro que ele foi o primeiro a escrever que a galhofa os destruiria. Vamos continuar nesse caminho, sem muitas teorias, argumentos. Burros e fanáticos, nunca entenderão.

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– Gostamos, Beth. Choramos com o vídeo que você gravou para o Lula. Que coragem. Fosse para o Briza, choraríamos igualmente. Temos aqui um WhatsApp de Darcy e Ariano, mandando beijos e querendo marcar o show “Beth e Melô, uma chuva de amor sobre a Terra”.

A narrativa me chegou hoje, sábado, por sinal, ao meio-dia, hora em que faço, por algum tempo, do jardim de minha casa, um singelo boteco, e sigo os ensinamentos musicais de Moisés da Rocha, da Rádio USP. É quando o “Samba Pede Passagem”.
Criei o “Dominó de Botequim”, e muitas crônicas foram escritas ouvindo o cantar de duas guerreiras, Beth Carvalho e Clara Nunes. Partiram, né? Não deixa de ser o que quero para mim.

Com o exílio de Fernando Juncal, tenho achado a ação do “Dominó” no céu um pouco tímida.

Se não mais puder comemorar, como o fiz, no final de 2002, com Lula no Poder, e ver a seguir um Brasil crescendo mais igualitário, o Papa Francesco voltar com teses próximas à Teologia da Libertação, que Frei Betto sabe Jesus não ter sido mais do que um revolucionário a favor da justiça social e contra a ganância dos ricos.

Mas os ricos e meritórios continuam rezando por Jesus Cristo, pedindo mais, e levando tudo. Existe como alguém a quem se ora para agradecer e pedir?

Diante do que anoto, diariamente, vindo da ópera bufa que se instalou no Brasil, procuro esperanças, mas não as encontro. Cadê os centros, esquerda e direita? O som do silêncio!

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Irão permitir a destruição do País? Eu não represento nada, mas insisto contra essa elite desatinada, mesmo tendo sido processado por uma marca de margarina, em dinheiro que nunca imaginei ter, e que ele não receberá.

Quer dizer que, mais uma vez, a tarefa ficará para os MST, MTST, CUT, UNE e quejandos, como no período pré-impeachment de Dilma Rousseff?

Beth, pedi que Yolanda comparecesse ao seu primeiro show no céu. Procure-a, ela é tímida.

Que o papagaio do futuro nos salve!

Inté!