Crônica de dois generais brasileiros, por Rui Daher

Na essência, a minha certeza de que não há lentes cor-de-rosa com que possamos olhar o futuro. Nosso e de gerações à frente. Assim são augustos e helenos, assim é o Brasil deles e de bovinas manadas.

Crônica de dois generais brasileiros, por Rui Daher

São, no mínimo, aterrorizantes as entrevistas dadas ao “Valor” (21/06), sucursal paulista de “O Globo”, pelos generais Luiz Eduardo Ramos (Especial, página A12) e pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno Ribeiro Pereira (caderno Eu& Fim de Semana).

Curiosa a consternadora traulitada de extrema-direita vir na mesma edição do jornal, como se a família Marinho quisesse deixar ainda mais clara, pois o menos informado de nós já sabia, sua posição no atual espectro político brasileiro. Aliás, não só agora, mas no permanente Acordo Secular de Elites. As Organizações Globo vivem de refazer a parábola do sapo e o instinto do escorpião. Nós os sapos.

Diz-se de Ramos, 63, atual chefe do Comando Militar do Sudeste, a quem competirá articular a política do governo, ser grande amigo e conhecedor na arte de conter o Insano Capitão Primeiro. Não parece.

O título da entrevista, conduzida pela jornalista Maria Cristina Fernandes, é “Ulysses e Rio Branco são paradigmas de habilidade política”. Esqueceu-se do Conselheiro Acácio. Sobre Rio Branco, sugiro lerem crônicas do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922) sobre o Barão.

“Bolsonaro é um homem que tem muita determinação. Não é tutelável. Esquece. Não é, nunca foi e não será agora”.

Veem? O Rei Insano I é exatamente o que uma democracia precisa.

“Não votei no Lula em 2002, mas chorei na posse dele, um operário no poder, mas ele roubou o país e nossa esperança”. SIC, SIC, e mais SIC. Ó quão emocionante essa meritocracia reversa!

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“Se a Petrobras tiver que ser privatizada, que seja. Vai ser melhor pro Brasil? Tô dentro. Quero que o país dê certo”.

Pois é, simples assim, né? Deve ter estudado muito o assunto, excelência que é em geopolítica.

Vamos ao outro, sempre com muito esforço, Augusto Heleno, 71, ministro-chefe do GSI. Foi ajudante de ordens do ministro do Exército, Sílvio Frota (1910-1966), demitido quando se opôs ao plano de abertura política, idealizado por Golbery e comprado por Geisel.

Heleno continua atrelado a fechaduras e a olhar o Brasil pelos buracos delas. Pelo sacrifício de ler às duas manifestações Bolso Armadas, peço um parêntesis.

Semanalmente, o suplemento do jornal acima citado convida alguém para comer e beber, na seção “À Mesa com Valor”. Artistas, empresários, políticos, esportistas, whoever, lá comparecem. Alguns não têm o menor pudor, o que acho correto, de irem a excelentes restaurantes. As contas, expostas ao final, mostrarem altos valores. Seria ridículo demonstrarem comedimento gastronômico, quando os sabemos ricos e de refinado paladar.

Outros, porém, se recolhem a seus sabores mercadológicos ou preferem mostrar simplicidade. Sorry, mas a intenção fica na cara e na conta, tanto faz quem patrocinou.

Heleno escolheu a austeridade de comer na mesa de reuniões de seu gabinete. “Salada, frango, peru, lasanha, batata gratinada, opção vegetariana, um filé de carne vermelha extra cardápio. Para beber, água, refrigerante, suco de laranja e “vinho tinto rotulado com logomarca da ABIN”. Um banquete, pois.

Ergue a taça e anuncia: “Salud, santé, cheers e halsa [que aprendeu na embaixada da Suécia], presente de um amigo nosso da Itália”

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Sobre seus conceitos políticos, econômicos, desigualdade social, Lula, PT, e soberania nacional, deixo para vocês imaginarem. Assim não vomito o miojo que acabo de comer. “Lula é terrível, mas Fernando Henrique era pior”.

Na essência, a minha certeza de que não há lentes cor-de-rosa com que possamos olhar o futuro. Nosso e de gerações à frente. Assim são augustos e helenos, assim é o Brasil deles e de bovinas manadas.

O maior estadista preocupado com os pobres está preso, acusado de ladrão, sem provas, armado por um conluio, agora explícito pelo The Intercept. Poucos reconhecem, denunciam e berram. Repito, somos poucos. É muita matraca para pouco berro, como escreveu Aldir Blanc e musicou João Bosco. Por sorte, já estou indo.

Inté.

Nota: não achei digno que como imagem de destaque colocasse as fotos dos dois generais. Preferi quem está preso por tentar a redenção social brasileira.

 

 

 

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