O tudo bem que nos sufoca, por Daniel Gorte-Dalmoro

O tudo bem, se se analisar mais detalhadamente, direciona a resposta. Não é uma pergunta aberta, que convida a uma resposta pessoal, não se pergunta como a pessoa está: ela é um protocolo

O tudo bem, se se analisar mais detalhadamente, direciona a resposta. Não é uma pergunta aberta, que convida a uma resposta pessoal, não se pergunta como a pessoa está: ela é um protocolo

O tudo bem que nos sufoca

por Daniel Gorte-Dalmoro

“Oi, tudo bem?” é uma forma quase canônica de cumprimento no Brasil. Usamos (os bem educados) para cumprimentar do atendente da padaria ao bom amigo que há tempos não víamos. Questão feita, resposta dada com o mesmo automatismo: “tudo, e você?”.

Há anos esse “tudo bem?” me incomoda – desde que acompanhei um amigo com crise renal ao pronto socorro, às oito horas da manhã de um domingo, e o vi cumprimentando (e sendo cumprimentado) por uma conhecida (também com cara de dor) com o “oi, tudo bem?”. Se por um lado é uma demonstração de educação – o que não é pouco para estes tempos de esgarçamento da sociabilidade, consequências da reação à tímida democratização da democracia e dos direitos humanos, com a ascensão da extrema-direita neofascista e das ditas guerras híbridas -, por outro revela muito da nossa cordialidade de cala-a-boca, das interdições sociais sutilmente (im)postas.

É curioso notar que nas línguas europeias ocidentais-coloniais, o tudo bem é marcadamente do português. O “qué tal?” espanhol, o “how are you?” inglês, o “comment ça va?” francês, o “wie gehts?” alemão, se traduzidos mais fiéis à letra, significam “como está”. Se cumprem, numa primeira camada, a mesma função do “tudo bem”, num segundo momento oferecem abertura à resposta do interlocutor.

O tudo bem, se se analisar mais detalhadamente, direciona a resposta. Não é uma pergunta aberta, que convida a uma resposta pessoal, não se pergunta como a pessoa está: ela é um protocolo, sinaliza qual deve a resposta do interlocutor, se não quiser ser inconveniente. É uma mostra de educação e descaso ao mesmo tempo: pergunto como você está, mas se estiver mal, por favor, não me diga: quero saber que está tudo bem.

É parte da construção do mito do brasileiro como um povo alegre: provavelmente nos dizemos alegres porque não nos é dada a oportunidade de admitir nossa tristeza, ou mesmo nuançar nossas emoções (perguntei a amigos residentes em Portugal, dizem que lá se usa também o “tudo bem”, mas não com a mesma hegemonia que aqui). Estamos sempre tudo bem. Mesmo em meio a pandemia, seguimos com essa pergunta completamente sem sentido diante de quatro mil vidas perdidas por dia – apenas para o COVID -, desemprego, fome e uma série de inseguranças quanto ao futuro. E noto que as pessoas seguem respondendo com o automático “tudo”, a ponto de causar estranhamento minha resposta habitual: “felizmente estou bem no que posso estar, mas, não, não está tudo bem”. Não por acaso, o Brasil é o segundo país com maior número de depressivos nas Américas – fica atrás apenas da terra do mito do sucesso individual, os EUA. 

Christian Dunker, em entrevista à BBC [http://bit.ly/dunkerbbc1], por conta de seu novo livro, Uma biografia da depressão, comenta que a “depressão e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que vão compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a ‘eu sou um depressivo’. Faz parte da depressão esse déficit narrativo, essa demissão de contar sua própria história, sua vida, e dividi-la com o outro”. Indo ao seu encontro, podemos dizer que o “tudo bem” é um desses compactadores da narrativa nas relações interpessoais – dos mais arraigados. Tudo bem? Tudo. Estamos sempre bem, tudo está sempre bem. Até que a tristeza negada de ser compartilhada, numa tentativa de alívio, transborda e nos toma. Ao depressivo brasileiro, a culpa por não estar na grande comunhão nacional da alegria, ou a culpa por mentir: tudo.

14 de abril de 2021

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