A tecnologia política do fascismo, travestido de medo: Marcia Tiburi no Cai na Roda

Ícone do movimento fesminista, filósofa desenha as entranhas do Brasil de Bolsonaro e destaca sua luta pela democracia às jornalistas do GGN. Assista

por Ana Gabriela Sales

Jornal GGN – A trigésima edição do Cai na Roda, exibida neste sábado, 20, na TV GGN, recebe a filósofa e artista plástica brasileira Marcia Tiburi. Em uma hora de entrevista, ela explica as entranhas do fascismo no Brasil em suas formas práticas e simbólicas, além de destacar sua luta pela igualdade de gênero e a democracia.  

Ícone do movimento fesminista, Tiburi inicia conversa explicando que a esta é “uma luta contra a guerra perpetrada pelos homens e própria do capitalismo”, sendo que este é um sistema “patriarcal, de exploração e dominação contra os corpos das mulheres”, diz.

“Esses corpos foram criados pelo próprio sistema e foram marcados para servirem ora como subalternos, como escravos, ora como inimigos”, explica. “Então a história de luta das mulheres é contra a misoginia e ódio”, completa.

A intelectual comenta como os tempos atuais fizeram a bandeira por igualdade de gênero e raça ainda mais necessária nos últimos anos, no Brasil e no mundo, onde os cargos máximos passaram a ser ocupados por líderes da extrema-direita.

“Hoje, no Brasil, o machismo não é só estrutural, mas ostentatório. Hoje, há uma nova e espetacular violência e tecnologia política, por isso vemos homens bancar o ‘super macho’, essa histeria machista, esse macho absolutamente histriônico e tóxico (…) Estamos nessa nova fase, agora temos não só que nos protegermos e defendermos umas às outras, além de fazermos avançar a nossa luta, mas temos também que enfrentar esse macharedo absolutamente nervoso, ansioso e feminicida, dessa gente que se acostumou com o poder, destruiu a sociedade e a política e que destroem as mulheres justamente matando, violentando e assediando”, dispara.  

Os embates do ‘fascismo tropical’

Indagada sobre como o fascismo tomou a nação brasileira e se tornou evidente a partir de 2016, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff, Tiburi jogou sobre a roda o conceito de ‘fascismo tropical’. “Estamos vendo o fenômeno de ódio ao outro, de destruição e tentativa de aniquilação da alteridade, alguns intelectuais começaram a falar no ‘fascismo tropical’, que é essa expressão dialética criticável. Reconheço o preconceito geopolítico [deste conceito], existe um imaginário sobre a afetividade  dos trópicos que é completamente incoerente. Mas, ao mesmo tempo, existe a produção da imagem do macho tropical, porque no Brasil essa fascistização assumiu um lugar de capitalização política”, fala.

Segundo ela, o chamado “ridículo da política foi a forma [da extrema-direita] entrar na sensibilidade e na mentalidade da população brasileira, a fim de se arraigar no comportamento político da nação”. Ainda, essa tese teria sido comprovada nas eleições de 2018, “porque todos aqueles que falaram a partir de sua [própria] desqualificação e demonstraram estupidez, ignorância, inabilidade política e violência se elegeram”, aponta.

“Não se trata de pensar que o fascismo é uma característica dos indivíduos, que surge no coração das pessoas e por acaso. O fascismo é implantado (…) é [uma] tecnologia política, no sentido estrito de um plano de ação publicitário que envolve a teatralização e uma construção em torno dos afetos tristes e da violência, porque a violência é o próprio capitalismo, então é muito fácil pro capitalismo neoliberal se juntar com milícia, igrejas do mercado, da mídia corporativa…”, diz Tiburi.

Ainda, ela explica que todos esses grupos vivem da mesma coisa: a ignorância do povo. “Essa mesma produção de linguagem, que visa o esvaziamento objetivo, se utiliza da estupidez e pretende fazer que cidadãos se tornem escravos (…) Esses grupos vivem da exploração e precisam produzir o otário, é o círculo sirico da economia e da política no entrelaçamento que nós precisamos superar, mas é a realidade”, pontua.

O papel da mídia e do judiciário na promoção do fascismo

De acordo com Tiburi “sem a [grande] mídia e judiciário não existiria fascismo”. “Em [meados de] 1950 surge a televisão e ela muda tudo. Não existiria golpe militar no Brasil sem a televisão. Agora, com a internet, temos uma turbinação da velocidade da profusão e difusão de falsas informações em uma escala que parece incontornável”, diz.

“O fascismo veio para se tornar uma tecnologia política muito sofisticada, justamente porque lida com aquilo que há de pior, que seria inimaginável. É impossível imaginar que só com a nossa ética, decência, defesa da democracia e desejo de um mundo melhor vamos conseguir vencer”, desabafa.  

A história se repete como tragédia

Para a filósofa, “não tem como evitar a farsa na política, porque esses personagens interessados por poder, sem escrúpulo nenhum e capazes de usar a enganação e a mentira continuarão inventando seus pós-caminhos e tentando jogar esse jogo”, diz.

“Nós temos que jogar o contrário disso, talvez nós não sejamos vitoriosos tão cedo, vamos perder muito, mas prefiro ir até às últimas consequências da sustentação da verdade. Nossa tarefa é falar e, aos poucos, algumas pessoas vão se dando conta que uma sociedade se torna insustentável sem o patamar da verdade. Não é possível sustentar a vida da população, inclusive, das classe”, explica.

Perseguição e luta pela liberdade

Em 2018, Tiburi foi candidata a governadora do Rio de Janeiro pelo PT. Após o pleito político, ela teve que deixar o país por ser alvo de uma série de notícias falsas, perseguição e ameaças de violência.

“O circuito do ódio e o ecossistema do ódio vai muito além dessa programação profissional do gabinete do ódio. Você é perseguido por pessoas com perturbações emocionais, recebe ameaças de pessoas dos mais diversos territórios. Em 2018, os meus livros foram todos invadidos pelo MBL [Movimento Brasil Livre]. Houve espancamento e pessoas armadas. Não falávamos [sobre o assunto] porque era um ano de eleição e queríamos que a esquerda vencesse, mas teve um momento que se tornou impossível, com ameaças de massacres e eu acabei saindo Brasil, sem comunicar. Isso envolveu minha família, foram coisas muito ruins, eu nunca mais pude voltar para o Brasil e sou protegida por instituições internacionais”, desabafa emocionada.
Assista o programa na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=sVlzsNmFwpU

Sobre o Cai Na Roda 
Todos os sábados, às 20h, o canal divulga um novo episódio do Cai Na Roda, programa realizado exclusivamente pelas jornalistas mulheres da redação, que priorizam entrevistas com outras mulheres especialistas em diversas áreas. Deixe nos comentários sugestão de novas convidadas. Confira outros episódios aqui: 

https://www.youtube.com/watch?v=g1cWiCKpcOo&list=PLZUPpD2EGpfpj_PS0rjY07KeGdOR1JFul&index=1

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora