A cumieira, o orí e o equilíbrio nosso de cada dia, por Mariana Nassif

A cumieira, o orí e o equilíbrio nosso de cada dia, por Mariana Nassif

A cumieira de uma casa de candomblé é o pilar de toda a energia que é movimentada ali dentro e, além de sustentar quase que literalmente a casa, fundamenta o axé.

O axé, como já escrevi por aqui, inspirada pelo Babalorixá Sidnei Barreto Nogueira, é o que movimenta a vida do iniciado para frente, e tem muito mais relação com o cultivo da saúde do Orí do que com os procedimentos em si. Reproduzindo: “NOSSO ORÍ – esta é a nossa divindade individual, a nossa individualidade, é o que somos e o que pensamos ser, constituído por nossos desejos, por nossas palavras, por nossos quereres, por nossas ações; Orí nos apoia incondicionalmente; se decidirmos morrer, ele diz: “estou contigo”; se decidimos nos acomodar, ele diz: “estou contigo”; se decidimos ocupar a posição de vítimas, ele diz: “somos vítimas”; se decidimos vencer, ele diz: “venceremos juntos”; se decidimos viver presos a situações passadas e desagregadoras, ele diz: “nós somos isso!” 
Orí é um balão inflável, se recebe ar puro e saudável, ele se expande de modo saudável; se não recebe ar; ele não se expande, mas vive “feliz” do mesmo modo; se recebe ar poluído, ele se expande com o ar sujo e poluído. Quem conduz Orí? Somos nós! As nossas escolhas o conduzem. Ele nos respeita.

Orí requer culto, requer boas palavras e bons pensamentos, requer movimento, água limpa e ar puro, requer boas relações. Há guerras de Orí que também podem nos afetar. Ori também é um pouco um ímã. 
Se você se relaciona com pessoas doentes e tóxicas, Orí é afetado por elas e pode se acostumar com isso. São conexões, somos as nossas conexões – Ori também é feito de conexões. 

Se você desperta dó e compaixão, Orí se sente confortável com estas emoções-energias que seu Orí atrai. Orí é nosso amigo incondicional e ele nunca é juiz, salvo se o fizermos por nós mesmos. O Orí do vencedor vencerá, o Orí do perdedor perderá, o Orí do doente adoecerá, o Orí do mentiroso mentirá, o Orí do briguento brigará. 
 

Devemos ficar atentos para as nossas atitudes, palavras e pensamentos. Tudo o que pensamos, fazemos e falamos é armazenado em Orí e depois é difícil se livrar disso porque são alimentos. Orí recebe e respeita isso. Ele crê que seu “dono” ou “dona” sabe escolher bem os alimentos que, amanhã, poderão salvar a vida do Ará – corpo, no qual e do qual vive. 

Orí é um cofre – ele armazena tudo para que usemos quando precisarmos. A intuição é a voz de Orí, a voz do que foi armazenado em Orí.Só quando voltamos ao Orí Odô poderemos nos refazer, mas, mesmo assim, tudo isso estará conosco, todas a nossas escolhas nos acompanharão. 

Um dos principais alimentos de Orí é o caráter. Uma das forças mais poderosas para alimentar o bom ou o mau Orí. Precisamos estar atentos. Os Orís se relacionam; uma relação sexual, um namoro, uma amizade, uma relação de confiança; precisamos ser cautelosos porque não sabemos, de fato, como os Orís estão se relacionando e de que modo os Orís estão apoiando mentiras, ilusões e trocas negativas. Às vezes, você não está conscientemente brigando com alguém, mas os Orís estão e pode haver um Orí lutando contra você; seu próprio Orí pode também apoiá-lo em sua destruição;
Os orís são indivíduos e há rituais diferentes para Orí, mas, metaforicamente, você pode alimentá-lo com a destreza da galinha de angola, com a suavidade de um pombo [com sua capacidade de flutuar] e com a capacidade de viver embaixo d’água de um peixe longevo e esperto; pode também alimentá-lo com a maleabilidade do inhame cozido, com a força e neutralidade deste alimento. 

A impressão digital de Orí é a sua individualidade. Não há Orís idênticos e do mesmo tamanho. Não há cabeças iguais e com a mesma medida. Por isso, a medida, o formato e os traços de uma cabeça constituem impressão digital de Orí – seu Igbá. Você deve cuidar de seu Orí como cuida de seu corpo: com água limpa e cristalina, com boas palavras e bons pensamentos, com coragem, com autoestima, com boas ideias, com a aprendizagem de algo novo, com o movimento do corpo, com generosidade e bom caráter. Orí se importa igualmente com seu corpo. Ele está ligado ao “ará” – corpo.

Ou seja, é claro que um banho de folhas, um ejé bem aproveitado, um xirê dançado, o abraço do pai de santo, sem dúvida, têm poder. Mas a manutenção das determinações de onde colocar o axé cabem às decisões pautadas pelo Orí, a nossa cabeça.

Em paralelo à minha própria iniciação, tão recente quanto intensa, para uma Orixá tempestuosa por natureza, venho percorrendo caminhos de encontro ao que chamarei de minha cumieira – e hoje, apenas uma semana após começar as práticas d’ o curso das emoções, desperta em mim a faísca de que o equilíbrio se distancia de mim quanto mais defino a vida pautada pelas emoções, especialmente as minhas, tão quentes e rapidamente profundas.

Não pretendo me transformar em alguém morno, longe disso, mas quem sabe experimentar como pode ser operar em um padrão diferente do sentir-decidir. Ainda vivo a experiência do sentir-acolher e, olha, pra uma filha de Oyá com quase quarenta anos nas costas isso já é imenso.

 

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