Sexismo e Desigualdade de Gênero no Vale do Silício, por Nadejda Marques

Por que será que ainda há tanta resistência à participação de mulheres nos altos escalões das empresas?

Arte NeoFeed

Sexismo e Desigualdade de Gênero no Vale do Silício: quando a indústria tecnológica leva ao retrocesso

por Nadejda Marques

O Vale do Silício, sede de gigantes tecnológicas como Alphabet/Google, Apple, Intel, HP, Facebook e dezenas de milhares de startups, dispensa apresentações. Antes da pandemia da COVID-19, o Vale do Silício sozinho tinha um PIB per capita de $128.308 doláres, muito superior a maioria dos países. Não poderia ser diferente em um mundo que gira em torno de software e um tempo ditado por decisões das indústrias de tecnologia que transformam o conceito de moeda, governo, relações sociais, relações laborais e mesmo a biologia humana. Para não ficar de fora dessas transformações tecnológicas, voltamos os olhos para o Vale do Silício. As vezes, incrédulos, admirados, inspirados, maravilhados mas, não devemos perder nosso olhar crítico.

O Vale do Silício se encontra sob uma rede de falhas, literalmente e figurativamente. Em termos geográficos, está situado na Falha de San Andreas, região de constante atividade sísmica. Em termos organizacionais, seu ecossistema desde as universidades às gigantes tecnológicas, startups e empresas de capital de risco (Venture Capital) ainda se baseia em relações patriarcais marcadas por sexismo e desigualdade de gênero. 

Há quatro décadas, as mulheres nascidas nos EUA superam os homens em anos de escolaridade. Ao menos para satisfazer sua crescente necessidade de mão-obra, seria razoável que essas empresas incluíssem maior representação feminina em seus quadros. Além disso, no mundo dos negócios, não é novidade que diversidade de gênero gera lucros e beneficia toda a economia. Empresas com mulheres na liderança geram mais retornos e são mais lucrativas do que empresas sem mulheres na liderança. No entanto, a liderança dessas empresas continua principalmente masculina. Para ser mais precisa, a liderança continua nas mãos de homens brancos. Por que será que ainda há tanta resistência à participação de mulheres nos altos escalões das empresas?

Nas últimas décadas mudanças políticas e jurídicas na sociedade americana permitiram algum progresso social mas o progresso em questões de inclusão de gênero tem sido bastante lento. Bons de fazer leis mas não tão bons na implementação e fiscalização das mesmas.

No Vale do Silício, hoje em dia, a maioria das empresas possui um programa ou departamento de diversidade e inclusão de raça e gênero. Muitas dessas empresas, como prestadoras de serviços ao governo americano, precisam divulgar dados sobre a composição de seus quadros em termos de etnia e gênero, mas não fazem isso ou fazem com muita relutância. Se por um lado essas empresas querem que compartilhemos tudo sobre nossas vidas e bisbilhotemos a vida dos outros, por outro lado, são muito cautelosas e mesmo sigilosas com dados e informações sobre elas mesmas, sobretudo quanto a dados de diversidade e inclusão.

Depois de muita pressão, no ano de 2020, a Google finalmente divulgou o seu Relatório Anual sobre Diversidade. Nesse relatório encontramos que as 32.5% dos funcionários da empresa eram mulheres e apenas 26.7% delas ocupavam cargos de liderança. Além de baixa, essa representativade pouco significa em termos de salários e possível ascensão profissional. Precisamos de maior transparência sobre cargos e salários. As vezes, em nome de uma política corporativa de inclusão, mulheres são contratadas para trabalhos e funções que pagam menos (em muitas das empresas de tecnologia, as mulheres são maioria em departamentos de vendas mas não nos departamentos que pagam maiores salários como o de engenharia, o setor financeiro ou de desenvolvimento de produto). Além disso, as mulheres não recebem promoções ou demoram mais tempo a serem promovidas que seus colegas homens.

Dados desagregados e maior transparência também são fundamentais para promovermos uma mudança cultural e comportamental dentro e fora das empresas. Muitas das estratégias para melhorar a diversidade e inclusão tanto na academia quanto no mercado de trabalho tendem a se distanciar do fato que a desigualdade de gênero surge de uma construção sócio-política e desenham fórmulas para que as mulheres atinjam um sucesso dentro do status quo.

Nas escolas, usamos os meninos como medida de comparação para as meninas. “Meninas são tão boas em matemática quanto meninos.” Por que simplesmente não podemos dizer: “meninas e meninos são bons em matemática.”? No trabalho, as mulheres são instruídas a fazer e ser sempre mais. Precisam trabalhar mais, precisam desenvolver suas redes sociais (networking), precisam ser mais assertivas e, se falharem ou não alcançarem seus objetivos é porque não trabalharam duro o suficiente. Como se, de alguma forma, a desigualdade de gênero fosse culpa delas.

O resultado disso é um grande retrocesso. Nos últimos anos, o número de mulheres que se formam na área de STEM (ciências, tecnologia, engenharia e matemáticas) tem diminuído na maioria dos países com a maior diminuição na área de ciências da computação. Na engenharia, cerca de 40% das mulheres engenheiras desistem ou sequer ingressam como profissionais no mercado de trabalho. Os dados para o último ano ainda não estão amplamente divulgados mas acredita-se que a pandemia da COVID-19 resultou em um maior desligamento das mulheres do mercado de trabalho.  

Não conseguiremos corrigir isso enquanto não entendermos que inclusão de gênero é um esforço coletivo e que as políticas que promovem diversidade e inclusão de gênero não podem ignorar o debate e esforços por uma inclusão racial e contra todas as formas de discriminação. No Vale do Silício costuma-se pensar que tudo é possível. As pessoas acreditam que dali se resolverão os principais problemas da humanidade. Talvez não chegue a tando mas, com certeza, como o Vale do Silício lida com a implementação do ideal de igualdade de gênero e raça, bem como lida com problemas específicos de assédio sexual, disparidades salariais de gênero e outras formas de discriminação, provavelmente definirão o tom não apenas para a indústria de tecnologia como um todo mas também para empresas e políticas governamentais em todo o mundo.

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