5 de junho de 2026

A consolidação da democracia como um processo civilizatório

As redes sociais nos põem em contato com o dia e a noite no que toca às ideias e conceitos sobre o Brasil de hoje e as perspectivoas de futuro. Isto naturalmente é uma conquista da vida democrática, pois sem ela só teríamos o aspecto noturno do incontornável e doloroso diálogo que travamos com as forças avessas ao aprofundamento da democracia.

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Estamos num país onde a reação conservadora aos avanços materiais e espirituais da nossa cidadania se dá de forma brutal, onde a violência verbal, que anuncia o que seria feito se saíssemos da ordem democrática, ultrapassa todos os limites da vida civilizada, mergulhando em total selvageria. As promessas de matanças são muito comuns nos comentários conservadores, ilustrando aquilo que nós outros, até perplexos, enxergamos como um ódio de difícil compreensão, já que aparentemente imotivado, afinal os avanços dos direitos no Brasil para as classes subalternas em nenhum momento significaram perda de direitos dos setores privilegiados. Não vamos ser ingênuos de que não há perdas, já que tudo é relativo e o ganho de importância dos mais pobres, significa, no outro prato da balança o sentimento de perda de densidade e por conseguinte de poder político por parte dos pirvilegiados.

Em resumo, os avanços sociais produzem no Brasil e na América Latina, desde sempre, uma atmosfera golpista, mesmo que a sociedade burguesa, nos seus fundamentos estruturais, não esteja ameaçada. É diferente do que ocorre na Europa, onde a direita já não se exprime através de ideias de derrubada dos governos da esquerda que vez ou outra aparecem por lá.

Diferentemente do passado, o golpismo assume hoje um sentido nostálgico, de desejo ardente de uma volta ao passado. Aliás, se em 64 havia uma adesão ao liberalismo econômico, como contraponto ao estatismo socialista, hoje o golpismo parece não ter agenda socioeconômica consistente. Esta falta de agenda, parece reduzir o risco de que o golpe venha a prosperar, pois a burguesia propriamente dita não se sente ameaçada por nenhum tipo de risco de medidas estatizantes, o que reduz o movimento aos setores médios que estão aterrorizados com a concorrência das classes C e D (a que se habituaram a ver trabalhando na cozinha). A maior dificuldade de ocorrer não descarta totalmente a possibilidade de que o golpe seja tentado, pois a história está repleta de movimentos restauradores de ordem velhas, que às vezes, no curto prazo, conseguem dar um último suspiro antes de desaparecer para sempre.

O golpe, porém parece bem menos realizável do que no passado, aumentando também exponencialmente os riscos, para os golpistas, das conseqüências da onda democrática, que inevitavelmente viria em resposta, que poderia ter fúria justiceira maior do que a de apenas construir Comissões da Verdade. A base social para o golpe é, pois, menor e o ônus que surge no horizonte de uma aventura como esta poderia ser incomparavelmente maior. Se, por outro lado a direita golpista não tentar o golpe, manterá legitimidade de longa duração para funcionar como freio aos avanços, alimentando continuamente os setores médios do medo atávico de confundir-se com os negros e pardos que emergem da miséria.

Estamos hoje numa fase que representa, de certa forma, o momento de conclusão e arremate do processo de consolidação da democracia iniciado ainda nos anos sessenta e que culminou com a constituição de 1988. Vivemos uma espécie de batalha tardia daquela velha guerra. Para a direita golpista é uma batalha de vida ou morte, mas para os adeptos da democracia, não. No longo prazo, com ou sem golpe, a democracia está consolidada no Brasil, afinal que regime é capaz de assegurar a governabilidade num país complexo como o nosso? Sem guerra fria ideológica, que alimento manteria um  regime golpista no longo prazo? São os setores médios suficientes para fazer recuar o mercado hoje majoritariamente composto pelas classes C e D? Vão criar terceira classe nos aviões ou nos restaurantes para os mais pobres? O horizonte é estreito.

A sociedade que nos aguarda em qualquer dos casos, mais cedo ou mais tarde, terá semelhança com as democracia velhas, como a França ou a Itália, onde a bipolaridade esquerda e direita existem, são acesas, mas foi enterrado tanto o golpismo da direita como as ilusões de saída explosiva à esquerda. No Brasil o grosso da esquerda, já, e de longa data, não acredita mais em soluções explosivas aparentadas às revoluções do século XX. A esquerda está alinhada a uma agenda de ampliação de direitos, entendendo que a bipolaridade com a direita é inevitável e longa. A fúria assassina que vemos constatemente nos comentários conservadores nas redes sociais, não tem paralelo à esquerda, que não emite desejos de encerrar o jogo numa cartada e de cortar cabeças. Já entendeu a esquerda que o enfrentamento é estrutural, inevitável e longo.

Há pois um componente civilizatório no enfrentamento da direita golpista na América Latina, de condução destas forças às arenas mais legítimas das lutas devidamente balizadas no campo democrático. Esta luta civilizatória é, tal qual foi a da consolidação da democracia anteriormente a 1988, muito mais ampla do que a dos espectros partidários, inclui o Brasil como um todo da esquerda à direita não golpista, incluindo os movimentos sociais e as religiões. Virar esta página nos conduz ao encontro com modelos de sociedade que já exsitem, fundadas no distante pós guerra como uma negação absoluta do nazi-fascismo.

Penso que a direita golpista entenderá cedo ou tarde, até por realismo histórico e exaustão, que não há tampouco soluções explosivas à direita. Quando isto ocorrer o processo de 1988 terá finalmente sido concluído. Já não seria sem tempo.

 

 

Ion de Andrade

Médico, epidemiologista e pediatra, professor universitário e militante do SUS e dos movimentos urbanos.

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4 Comentários
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  1. Jicxjo

    10 de março de 2014 3:26 am

    Quando li o título e o resumo

    Quando li o título e o resumo do texto no leitor de RSS achei que encontraria um artigo recheado de wishful thinking. Pelo contrário, é uma bela análise, um sopro de bom senso e racionalidade na conjuntura em que nos encontramos, um soerguimento da cabeça para o horizonte a vencer a percepção míope, refém do curto prazo. Embora esse seja nosso presente, nunca devemos deixar de olhar mais de longe o que estamos vivendo.

    Gostei do conceito de “onda democrática” como reação a um golpe na atualidade. Será que a direita raivosa e golpista acha que pode devolver as classes C e D à miséria impunemente?

    Acabar com programas sociais aclamados mundo afora?

    O que pensariam os empresários que lucram horrores com a expansão do varejo?

    As empresas que expandiram suas instalações?

    A própria alta burguesia iria logo se estrepar: imaginem o desaquecimento do mercado imobiliário e o preço de suas propriedades despencando…

    E a turminha “valentona” que infesta o mundo virtual, será que acharia uma guerra civil divertida, como um game, com a pele deles em jogo? Coxinhas cruas que nunca encontraram o óleo fervente, que vivem em um mundinho simbólico infantil, suas representações alienadas da realidade.

    E, diferentemente de 1964, há um contingente muito maior politicamente desperto na sociedade. A capacidade de articulação é, idem, infinitamente superior. Ou essa turma saudosista (tanto a velha guarda quanto os neoconvertidos inconsequentes) também crê na possibilidade de derrubar, censurar a internet, “só para os outros”?

    A reação seria no mínimo ensurdecedora. O impacto econômico, idem!

    Parafraseando o jornalista e ex-ministro Franklin Martins, o Brasil não cabe mais não só no quintal da mídia, como também no cercadinho de 2002 (ou pior, no de 1964) em que pretendem reenfiá-lo um punhado de reacionários lunáticos. A sociedade atual é muito mais complexa: atos desesperados como os que pregam podem sair facilmente do controle e virar-se contra seus autores.

    A afobação dos setores extremistas em precipitar um desfecho é ainda uma burrice em termos de estratégia; muito mais temível é a ação sub-reptícia permanente que estava em curso no país nos últimos anos, que conquista corações e mentes de forma orgânica, até que chega um momento em que já se alcançou a maioria. Mas que, para os mais explosivos, demora demais para render frutos…

     

  2. Martin Eden

    10 de março de 2014 3:52 pm

    Caramba, quanta sensatez

    Caramba, quanta sensatez tanto na alálise quanto nos comentários!

  3. Flavio Martins e Nascimento

    11 de março de 2014 12:43 am

    Muito bom texto, Ion. Apenas

    Muito bom texto, Ion. Apenas comentando, penso que a esquerda conseguiu, não sei se por experiência ou intuição, encaixar um discurso e linha de ação de cunho social-democrata bastante aglutinador e mesmo eficaz. A direita é hoje, na verdade, um aglomerado de vozes dissonantes, numa gritaria quase histérica. Acho que com o tempo, também vão encontrar seu denominador e, como as classes médias são historicamente conservadoras, a tendência é que as classes C e D de hoje venham, no futuro, engrossar suas fileiras. Até lá ainda há muita lenha pra queimar. 

    Grande abraço

  4. Josias Pires

    11 de março de 2014 2:16 am

    Belo artigo.
    Acrescentaria

    Belo artigo.

    Acrescentaria apenas que o aprofundamento da democracia – em direção à consolidação de um Estado Democrático e a redução em maior escala das desigualdades sociais – inevitavelmente afetará posições consolidadas dos mais poderosos grupos econômicos.

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