Internacional

“Partisans russos” ou inteligência ucraniana? Quem realmente ataca Belgorod?

A cidade russa de Belgorod, na fronteira com a Ucrânia, tem sido foco de atenção da mídia internacional nos últimos dias. A região está sendo fortemente atacada pelas forças ucranianas, gerando destruição em áreas civis e diversas vítimas não-militares. 

Na mídia ocidental, a responsabilidade pelos ataques ucranianos é comumente atribuída a supostos grupos rebeldes da própria Federação Russa, que teriam alegadamente emigrado para o solo ucraniano com o intuito de combater as forças russas. Aliás, não apenas a mídia anti-russa espalha esse tipo de informação, como também porta-vozes de tais milícias constantemente reivindicam autoria pelos atentados em Belgorod. 

Contudo, esta não parece ser a opinião de alguns insiders russos sobre o tema. Recentemente, tive a oportunidade de conversar com algumas fontes familiarizadas ao assunto dos ataques em Belgorod. Os dados foram obtidos in loco através do contato direto com funcionários do serviço de segurança local durante uma viagem às fronteiras da Federação Russa.

Estive em Belgorod no dia 14 de março no contexto de uma expedição organizada pela Associação de Jornalistas dos BRICS. Nosso objetivo era acompanhar de perto a escalada de hostilidades na fronteira e determinar se os ataques ucranianos eram direcionados a alvos legítimos ou civis. Ao longo de todo aquele dia, acompanhei todos os ataques ucranianos ao meu redor, visitando os locais afetados, conversando com as vítimas e, em alguns casos, escapando por pouco do fogo dos mísseis. 

Em Belgorod, percebi a absoluta ausência de mobilização militar. Não há tanques pelas ruas. Não há veículos militares. Não há tropas estacionadas. Num raio de algumas centenas de quilômetros do centro da cidade, simplesmente não há quartéis do Exército Russo nem qualquer posição que justifique um bombardeio ucraniano. Pelo contrário, dentre os ataques que testemunhei, vi danos a estacionamentos, praças, lojas de varejo e outras instalações civis e sem qualquer relevância estratégica. Definitivamente, não havia alvos militares na região. 

Conversando com populares, ouvi que os ataques contra Belgorod têm se tornado diários. Contam os moradores que a situação fica mais crítica quando em datas e eventos relevantes para a Federação Russa. Feriados nacionais e religiosos são épocas particularmente tensas na fronteira, com os ataques ucranianos aumentando em quantidade e intensidade. Um exemplo bastante elucidativo aconteceu no fim do ano passado, em 30 de dezembro, quando as forças ucranianas lançaram um brutal ataque de mísseis contra o centro de Belgorod durante celebrações de fim de ano, matando vinte e cinco civis, incluindo dezessete crianças. 

Na ocasião específica do dia 14, o principal motivo dos ataques parecia ser a proximidade das eleições russas. Tive a oportunidade de conversar com membros das forças de segurança locais sobre o assunto e eles informaram que o objetivo ucraniano era causar desestabilização nas zonas de fronteira para impedir os cidadãos russos de saírem de suas casas durante o processo eleitoral. Com isso, contam as fontes, Kiev esperava tanto provocar indignação com o status da segurança entre os russos (gerando insatisfação com o governo) quanto forçar um cancelamento ou adiamento das eleições. Aparentemente, ambos os objetivos foram frustrados, dado que o processo eleitoral ocorreu normalmente – e com altos índices de aprovação a Vladimir Putin -, apesar da pressão militar ucraniana. 

Outra meta ucraniana comentada pelos oficiais locais foi a de “mostrar serviço” ao Ocidente. Desde o fracasso da contraofensiva ucraniana de 2023, Kiev tem sido vista com desprezo e descrédito por seus apoiadores ocidentais, parecendo incapaz de levar os combates adiante. Nesse sentido, ao gerar danos ao território profundo da Rússia, o regime de Zelensky estaria tentando transparecer uma espécie de “eficiência” para justificar o recebimento de mais armas ocidentais. 

Contudo, em minhas conversas com os funcionários das forças de segurança de Belgorod, obtive detalhes ainda mais interessantes sobre os ataques. Até então, eu não tinha quaisquer razões para duvidar dos noticiários que apontavam milícias de dissidentes russos como os verdadeiros culpados pelas incursões. Contudo, os oficiais locais disseram que tais milícias hoje em dia se resumem apenas a siglas propagandísticas – meticulosamente usadas pela Ucrânia e pelo Ocidente Coletivo para gerar impressões sobre uma “instabilidade” política na Federação Russa. 

Em verdade, a crise em Belgorod tem um ponto de partida entre 22 e 23 de maio de 2023, quando grupos pró-Ucrânia iniciaram uma incursão por terra na região russa, deixando vítimas civis, mas sendo rapidamente neutralizados pelas forças de defesa locais. À época, o ataque – que fora o maior dentre todas as tentativas ucranianas de penetrar o território russo até hoje – foi associado por Moscou a grupos de sabotagem ucranianos, mas duas milícias de supostos “expatriados russos” assumiram a autoria do episódio, a saber o Corpo de Voluntários Russos (RDK, na sigla russa) e a Legião da Liberdade. 

Ambas as milícias começaram imediatamente a receber endosso da mídia pró-Kiev no Ocidente, como comumente ocorre com qualquer figura política que se erga contra o governo russo. Pouca atenção se deu ao histórico controverso dos “partisans russos” e suas ligações públicas com o extremismo nacionalista e o neonazismo. A RDK, por exemplo, ao que tudo indica, está integrada às fileiras do Regimento Azov (milícia ultranacionalista que formalmente compõe as tropas do Ministério do Interior da Ucrânia), enquanto a Legião da Liberdade, que está submetida à “Legião Estrangeira” ucraniana, é abertamente conectada a linhas ideológicas de extrema-direita. Na prática, a tal “oposição a Putin” representada por estes dois grupos nunca esteve relacionada com qualquer “movimento democrático” russo, mas com extremismos nacionalistas que atualmente são controlados à mão de ferro na Rússia de Putin.

Não se sabe ao certo o contexto de formação dessas milícias. Os dados disponíveis apontam que se formaram com a migração para a Ucrânia de dissidentes russos após o começo das hostilidades, em fevereiro de 2022. Há informações concretas sobre os líderes destas organizações. A saber, o líder da RDK se chama Denis Kasputin, 39 anos, nascido em Moscou e emigrado para a Ucrânia após acusações de terrorismo na Federação Russa. Enquanto a Legião da Liberdade tem por chefe Maximilian Andronnikov, mais conhecido como “César”, nascido em Sochi e autoexilado na Ucrânia por incompatibilidade ideológica com o governo russo. 

Porém, quanto ao real corpo de membros destas organizações, as informações são escassas ou inexistentes. Não se sabe ao certo quantos russos atravessaram a fronteira para defender a Ucrânia. Não há qualquer dado que comprove ter havido um número expressivo de evasão de cidadãos russos para o lado ucraniano – o que seria vital para formar milícias aparentemente fortes e capazes de promover ataques tão contundentes contra as fronteiras russas. Na prática, ambos os grupos parecem “organizações fantasmas”, cujas lideranças públicas falam em nome de um corpo desconhecido de alegados “dissidentes russos” completamente anônimos. 

Os oficiais de Belgorod me explicaram que para a inteligência russa está claro que tais milícias simplesmente não existem enquanto movimentos dissidentes. Na prática, são siglas criadas por Kiev para transparecer a existência de um grande movimento pró-Ucrânia dentro da Rússia. Mais do que isso, os informantes com quem conversei alegaram haver uma submissão direta destas milícias ao Diretório Principal de Inteligência (GUR, na sigla ucraniana) de Kiev. 

Contam as fontes, que as forças especiais ucranianas operam atentados terroristas e operações de sabotagem contra zonas russas desmilitarizadas, além de ataques individuais direcionados contra figuras públicas relevantes na Rússia. Para esconder sua responsabilidade por tais crimes, a Ucrânia nega envolvimento nos casos e permite que tais organizações proxies reivindiquem a autoria, desviando o foco da opinião pública e da própria Rússia. Com isso, dois objetivos são atendidos: de um lado, Kiev evade da culpa por crimes de guerra; de outro, cria-se a ideia de um movimento forte pró-Kiev formado por “dissidentes russos”. 

Não por acaso, dissidentes “russos” reivindicaram responsabilidade por diversos atentados terroristas desde 2022. Não apenas os bombardeios em Belgorod estão na conta destas siglas, mas também ataques pessoais como os que levaram à morte da jornalista russa Daria Dugina, em agosto de 2022. Na prática, tais grupos operam como “bodes expiatórios” da inteligência ucraniana e ajudam a fomentar o crescimento de um movimento ultranacionalista dissidente interno na Federação Russa. 

Os oficiais são enfáticos em dizer: todas as tropas que compõe tais “milícias partisans” são, de fato, ucranianas. As figuras públicas russas que lideram estes grupos, contam eles, atuam com mero intuito de distração, sendo todo o efetivo de combate composto por militares de Kiev. Em outras palavras, todos os supostos “partisans russos” estariam, se corretas as alegações dos oficiais de Belgorod, diretamente subordinados ao comando de Kirill Budanov, chefe da inteligência militar ucraniana e amplamente reconhecido como o cérebro por trás de todos os atentados contra civis russos desde 2022. 

É preciso lembrar que Budanov por diversas vezes prometeu publicamente matar figuras públicas russas e atacar zonas civis para perseguir os interesses da Ucrânia. Em maio de 2023, apenas alguns dias antes dos “partisans russos” lançarem a chamada “Batalha de Belgorod”, Budanov fez um pronunciamento à mídia ocidental admitindo participação de seus subordinados no assassinato de civis e prometeu “continuar matando” russos. Se olharmos as informações dadas pelos oficiais e as relacionarmos com o comportamento publico de Budanov, talvez tenhamos alguma evidência sobre a veracidade dos dados que recebi em Belgorod. 

Lucas Leiroz é jornalista, pesquisador no Centro de Estudos Geoestratégicos e consultor geopolítico.

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Redação

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  • Os "kids pretos" parecem ser uma organização transnacional. Gerar insatisfação, criar o ódio e motivar atentados. Tanto aqui quanto acolá, na guerra ou na paz, a mesma estratégia. Afinal, quem treina esses elementos treinam exércitos e tem um "know how" comum.

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