Lista de Livros: Materialismo histórico e materialismo dialético, de Althusser e Badiou

Na sugestão do "Lista de Livros" deste domingo, Doney Stinguel apresenta trechos de trabalho que faz releitura da obra Karl Marx

Lista de Livros: Materialismo histórico e materialismo dialético, de Louis Althusser e Alain Badiou (Et al.)

Editora: Global

Tradução: Elisabete A. Pereira dos Santos

Opinião: regular

Páginas: 96 

 

 Alain Badiou – O recomeço do materialismo dialético

 “Ao nível das instâncias somente existe a estrutura articulada com uma dominante. Acreditar que uma instância do todo determina a conjuntura é confundir fatalmente a determinação (lei de deslocamento da dominante) com a dominação (função hierarquizante das eficácias em um tipo conjuntural dado).

Esta é em suma a origem de todos os desvios ideológicos do marxismo e em especial do mais temível de todos, o economicismo. O economicismo alega que a economia é sempre dominante, que tudo é “econômico”. Na verdade está certo que uma instância econômica figura sempre no todo articulado, mas ela pode ou não ser dominante: depende da conjuntura. A instância econômica não tem nenhum privilégio de direito.”

 

 

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Louis Althusser – Materialismo histórico e materialismo dialético

 

“A teoria da história, teoria dos diferentes modos de produção é, por seu próprio direito, a ciência da “totalidade orgânica” (Marx) ou a estrutura que constitui toda formação social dependente de um modo de produção determinado. Sendo assim, cada estrutura social compreende, como o explicou Marx, o conjunto articulado de seus diferentes “níveis” ou “instâncias”: a infraestrutura econômica, a superestrutura jurídico-política e a superestrutura ideológica. A teoria da história ou materialismo histórico é a teoria da natureza específica desta “totalidade orgânica” ou estrutura, e portanto do conjunto de seus “níveis” e do tipo de articulação e de determinação que os une uns aos outros. É a teoria que fundamenta por sua vez a dependência dessa estrutura com relação ao nível econômico, determinante “em última instância, e o grau de “autonomia relativa” de cada um dos “níveis”. Na medida em que estes “níveis” possuem tal “autonomia relativa”, podem ser considerados cada um como “um todo parcial”, uma estrutura “regional” e ser objeto de um tratamento científico relativamente independente.

É por isto que se pode legitimamente estudar separadamente em um modo de produção dado, – levando em conta esta “autonomia relativa – seu “nível econômico”, seu “nível político”, ou outra de suas formações ideológicas, filosóficas, estéticas, científicas. Esta precisão é de grande importância, pois é sobre ela que se estabelece a possibilidade de uma teoria da história (relativamente autônoma e com um grau de autonomia variável, conforme o caso) dos “níveis” ou das realidades respectivas: por exemplo uma teoria da história da política, da filosofia, da arte, das ciências, etc.

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“O materialismo dialético é uma disciplina teórica distinta do materialismo histórico. A distinção entre estas duas disciplinas repousa na distinção que existe entre seus objetos.

O objeto do materialismo histórico está constituído pelos modos de produção, sua organização, seu funcionamento e suas transformações.

O objeto do materialismo dialético está constituído pelo que Engels chama “a história do pensamento”, ou o que Lenin denomina “a história da passagem da ignorância ao conhecimento”. Podemos ser mais precisos e designar este objeto como a história da produção de conhecimentos enquanto conhecimentos, definição que abrange e resume outras possíveis definições: a diferença histórica entre ciência e ideologia, a teoria da história da cientificidade, etc.

Todos estes problemas ocupam em geral o campo chamado na filosofia clássica, “Teoria do conhecimento”. Essa nova teoria não pode ser mais o que era na teoria clássica do conhecimento, ou seja uma teoria das condições formais intemporais do conhecimento, do cógito (Descartes, Husserl), das formas “a priori” do espírito humano (Kant), nem uma teoria do saber absoluto (Hegel). A nova teoria só pode ser uma teoria da história da produção dos conhecimentos, isto é, uma teoria das condições reais (materiais e sociais de um lado, e condições internas à prática científica, de outro) do processo desta produção.”

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“Assim, não deixa de interessar o oferecer de algumas indicações sobre a distinção e o conteúdo da teoria e do método.

No materialismo dialético pode-se esquematicamente considerar que é o materialismo o que representa o aspecto da teoria, enquanto que a dialética representa o aspecto do método, mas isto sem deixar de ter bem presente que cada um de ambos os termos nos remete ao outro, ao qual inclui.

O materialismo expressa os princípios das condições da prática que produz o conhecimento. Seus dois princípios fundamentais são:

1. A primazia do real sobre seu conhecimento, ou primazia do ser sobre seu pensamento.

2. A distinção entre o real (o ser) e seu conhecimento. Esta distinção de realidade é correlativa de uma correspondência de conhecimento entre o conhecimento e seu objeto.”

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“(…) Estas (respostas) foram expostas com muita clareza por Engels no Anti-Duhring e sobretudo em certas passagens dos manuscritos da Dialética da Natureza, e também por Lenin em Materialismo e Empirocriticismo. Consideram que a filosofia desempenhou sempre um papel importante e às vezes decisivo na constituição e no desenvolvimento do conhecimento, desde suas formas meramente ideológicas até suas formas científicas. A filosofia marxista não faz mais do que assumir esse papel por sua própria conta, mas com meios que eram, em sua própria origem, totalmente distintos, muito mais puros e fecundos.

Sabemos que o conhecimento, que em seu sentido mais geral é o conhecimento científico, não nasce nem se desenvolve em um compartimento fechado, protegido por não se sabe qual milagre de todas as influências do meio ambiente. Entre essas influências estão as sociais e políticas que podem intervir diretamente na vida das ciências, comprometer gravemente o curso de seu desenvolvimento e até ameaçar sua existência. Mas existem influências menos visíveis, igualmente perniciosas e inclusive mais perigosas, pois passam desapercebidas: são as influências ideológicas.

Marx pôde criar a ciência da história porque rompeu, ao término de um vigoroso trabalho de crítica, com as ideologias da história existentes. E sabemos também pela luta de Engels contra Dühring e de Lenin contra os discípulos de Mach que, depois de fundada por Marx a ciência da história, não pode escapar ao assédio das ideologias, de suas influências e agressões. De fato todas as ciências, tanto as sociais quanto as naturais, estão constantemente submetidas ao assédio das ideologias existentes, especialmente dessa ideologia aparentemente não ideológica na qual o sábio reflete “espontaneamente” na sua própria prática: a ideologia empirista ou positivista.

Como dizia Engels, todo sábio, queira ou não, pratica inevitavelmente uma filosofia da ciência e, portanto, não pode prescindir da filosofia.

Todo problema consiste então em saber que filosofia deve ter por companheira: uma ideologia que deforme sua própria prática científica, ou uma filosofia rigorosa que a explique e a compreenda? Uma ideologia que o escravize por seus erros e ilusões ou, pelo contrário, uma filosofia que lhe abra os olhos, liberte-o dos mitos e lhe permita dominar realmente sua prática teórica e seus efeitos? A resposta não deixa lugar a dúvidas.”

 

 

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“Ninguém vai negar que a política está cheia de mitos (mas seria a ciência imune a eles?). Ninguém vai negar que os mitos podem estar presentes no movimento operário e nas próprias concepções dos marxistas. Mas o marxismo só é marxismo a partir do momento em que se esforça para uma constante superação crítica desses momentos ideológicos que estão presentes em sua concepção e que não regem a experiência e a práxis. O marxismo, seu método, a concepção de mundo que ele permite construir, agora não mais como concepção especulativa – deduzida de forma puramente conceitual – mas sim como uma construção contínua na práxis, no confronto crítico dos dados da experiência que permite particularizar e superar suas contradições, para se passar da aparência do fenômeno à sua essência; o marxismo, nesta sua construção da relação homem-sociedade-natureza, é precisamente o esforço para fundamentar de maneira científica a política, libertando-a da ideologia (através da análise da estrutura de classes da sociedade, da relação Estado-sociedade, partidos e sociedade, ideologias e sociedade). A mim me parece que o que se perde em Althusser é justamente a noção revolucionária da práxis: da práxis que é revolucionária, transformadora, na medida em que seja cientificamente válida e capaz de provar sua própria validade em sua própria capacidade transformadora.” (Luciano Gruppi)

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“Quando a concepção materialista e dialética não resulta da experiência da luta de classes, da contradição a partir da qual esta se desenvolve, da experiência da relação entre classes e cultura, ela só poderá ser inferida de uma forma transcendental, especulativa, idealista. Uma fundamentação não metafísica da teoria só é possível quanto a teoria se apresenta como experiência histórica que se torna, de forma crítica, consciente de si mesma.” (Luciano Gruppi)