O sonho de Janot, por Victor Saavedra

Pouco antes da 1 da manhã, certa deputada recém eleita divulgou uma foto do cartão Bolsa Família da mãe do garçom, culpando a esquerda pelo atentado.

O sonho de Janot, por Victor Saavedra

O sonho se concretiza e o Brasil atua para conter as guerrilhas de esquerda que infringiram o maior dano já visto à Democracia

Era um simples jantar em família quando um certo empresário percebeu uma algazarra no seu restaurante favorito. Diante do coro de ladrão, corrupto e vendido fez o que qualquer pai de família faria em uma situação dessas, pegou seu IPhone e começou a transmitir a balbúrdia, enquanto seus filhos chorando eram consolados por sua esposa.

Sem perceber que o filmavam, o garçom do setor tomou pra si as dores daqueles que gritavam e ameaçavam, dizendo-se diretamente afetados pelas decisões daquele que insistia em aparecer no telefone em fotos ao lado de Lula.

O golpe foi certeiro, atingindo o pescoço daquele engravatado que até momentos antes da confusão desfrutava de um vinho branco. Alguns comensais o aplaudiram, enquanto outros lhe indicaram a porta da cozinha para que o rapaz tivesse alguma chance de fuga.

Alguns minutos se passaram antes que os principais canais de televisão do país repercutissem o atentado contra um certo ministro do STF. Segundo o noticiário a PF estava apurando informações, mas trabalhava com a tese de que foi um ataque coordenado, de acordo com as imagens que já circulavam nas redes sociais.

Pouco antes da 1 da manhã, certa deputada recém eleita divulgou uma foto do cartão Bolsa Família da mãe do garçom, culpando a esquerda pelo atentado. Políticos de todas as esferas condenaram o ataque, mas só alguns apareceram fora de suas redes sociais, pinçados a dedo pelos Diretores Executivos dos canais de televisão.

As manifestações começaram logo de manhã, com cartazes e bandeiras que pediam o combate armado contra o PT, o PC do B, o PSOL e o Comando Vermelho. De nada adiantou o Estado de Exceção declarado pelo presidente interino, já que o titular se encontrava nos Estados Unidos para receber o prêmio de “Pessoa do Ano 2019”, concedido pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos.

Às 10 da manhã, em uma Live desde a embaixada em Washington, o presidente anunciou que o ministro (curiosamente xingado por seus filhos) não resistiu ao ferimento, mas que em poucas horas embarcaria para assumir in loco o controle da situação. Ao meio-dia o presidente interino assinou outro decreto, entregando ao general a cargo do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) a segurança do país durante a validade do Estado de Exceção.

Durante a tarde as manifestações tomaram conta das principais cidades do país, inflamadas nas redes sociais devido a fotos do garçom com camiseta vermelha e várias selfies com alguns ex-ministros de oposição no restaurante onde trabalhava. O prédio da FIESP, na avenida Paulista, pintou-se totalmente de verde-oliva.

Durante a noite, após uma reunião com os Presidentes do Senado, da Câmara, do STF, o presidente apareceu em cadeia nacional de rádio e televisão para anunciar a suspensão do Estado Democrático e de Direito. O GSI identificou células terroristas no Brasil e seu combate demandaria as medidas excepcionais.

35 dias depois ainda não há sinais do assassino da democracia, como foi batizado pela imprensa, mas já começou a publicação de receitas em lugar de textos jornalísticos. Diversas páginas e contas em redes sociais foram banidas, e, em algumas favelas, a polícia voltou a realizar operações desastrosas nas quais os líderes comunitários dificilmente escapam com vida.

No âmago do Brasil a situação está ótima, os números mostram que a produção nunca foi maior e que houve uma queda de quase 20% no desemprego durante o período. Em Lives o presidente anuncia diariamente a mudança dos indicadores. Para aqueles que não conseguem acessá-las, basta com ler o boletim governamental distribuído por WhatsApp diariamente, atendendo à nova política de comunicação instruída poucos dias após o atentado.

Da oposição pouco se sabe, e quando aparecem é para refutar acusações de envolvimento em casos de corrupção ou de envolvimento com o atentado. As manifestações já não estão autorizadas e quem levantar uma bandeira que não seja verde-amarela, em qualquer lugar público (incluindo os estádios de futebol), pode ser punido com até 90 dias de prisão.

No aniversário do agora chamado de Novo Brasil o presidente anunciou novamente o fim do Estado de Exceção, convocado durante a maior crise institucional que o Brasil já viveu, mas que a transição será realizada de forma gradual e dependerá da supervisão do Conselho de Ministros, que já recuou em alguns momentos.

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