Os Cavaleiros do Apocalipse começam a devastar a Amazônia, por Sebastião Nunes

"Vão na frente quebrando o mato e matando bicho venenoso, tipo cobra e deputado da oposição". Todos riram. "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!"

Os Cavaleiros do Apocalipse começam a devastar a Amazônia
Por Sebastião Nunes

Depois de examinar minuciosamente as dezenas de defuntos estirados na sua frente, o cavaleiro Messias ordenou:

– Escudeiro-Moro, venha cá.

Com um rabo metafórico entre as pernas, aproximou-se o pau pra toda obra:

– Manda, chefe!
– Liga pro ministro da Casa Civil, aquele que tem nome de pedra, e diga pra ele mandar um avião-cargueiro recolher essa carniça.
– Ministro com nome de pedra só tem o Ônix, chefe.
– Esse mesmo. Manda recolher, embalsamar e enfileirar nas margens do Lago Paranoá, que é pros visitantes irem se acostumando.
– Acostumando com o quê, chefe?
– Com meu estilo de governo: bobeou, dançou!

O escudeiro-Moro tirou o rabo de entre as pernas e foi cumprir o mandado.

CONTINUA A CAÇADA

Enquanto tão instrutivo diálogo se desenrolava, os demais cavaleiros e os seguranças tratavam de limpar e lubrificar suas armas. Afinal, eram joias raras na coroa das carnificinas internacionais e precisavam estar bem azeitadas.

– Meninos, venham cá – comandou o cavaleiro Messias. Mais que depressa os outros três cavaleiros se aproximaram, batendo continência. – Vamos continuar nossa caçada. Deve ter uma bicharada danada nesse matagal.

O problema é que o mato era fechado e sombrio: escassos raios de sol furavam o bloqueio. O cavaleiro Messias coçou a cabeça até que teve uma ideia:

– Vocês aí da segurança, venham cá – comandou mais uma vez. – Vocês vão na frente quebrando o mato e matando bicho venenoso, tipo cobra e deputado da oposição.

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Todos riram com a piada do chefe.

– Se algum de vocês morrer envenenado por picada de cobra ou sangrado por onça, nem é preciso trazer. Cavem um buraco, enterrem, e peçam substituto de Brasília.

Os seguranças sacaram foices das mochilas e foram em frente, não sem antes se perfilarem e gritarem compenetrados, batendo continência:

– Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!
– Assim é que eu gosto, pessoal – concordou alegremente o cavaleiro Messias. – Nada como uma frase de efeito pra fazer a cabeça das massas fascistas, neopentecostais e de todos os outros ignorantes.

E lá se foram os seguranças, devagar, mas assustados, pois o mato era difícil de romper. Os quatro cavaleiros marchavam atrás e, na rabeira da tropa, o escudeiro-Moro, agora empunhando uma Winchester calibre 22, de caçar passarinho.

De repente, os seguranças pararam, boquiabertos. Atrás deles, os cavaleiros idem, boquiabertos. Atrás de todos, parou o escudeiro-Moro, boquiaberto.

Todos pararam boquiabertos, esperando uma decisão do chefe, que, boquiaberto, não sabia o que fazer. Cacete! Que diabo de assombração era aquela?

NADA DEMAIS: APENAS O SACI

Isso mesmo. Diante deles numa pequena clareira, estava o saci-pererê: pretinho, peladão, touca vermelha, cachimbo entre os dentes, gingando numa perna só.

– O que foi cambada, nunca viram um saci? – indagou ele, soltando a gargalhada mais indecente do mundo. – Querem que eu faça uma mágica?

Sem mais nem menos desapareceu, reaparecendo imediatamente nas costas da cambada, soltando outra gargalhada, tão alta e indecente como a primeira.

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– Matem esse bicho! – explodiu o cavaleiro Messias. – De assombração basta a molecada do congresso, aqueles idiotas que vivem me torrando o saco!

Os seguranças e os outros três cavaleiros não queriam outra coisa. A fuzilaria foi tão intensa que não ficou um único bicho dando bobeira nas redondezas.

Quando a fumaceira se desfez, tudo o que restava do saci era a touca vermelha, varada de bala, pendurada num ramo de assa-peixe.

– Que pena, chefe – lamentou o escudeiro-Moro. – Que pena o tiroteio ter matado o saci. Daria um ótimo ministro da Economia, muito melhor que o Guedes!
– Alguém duvida que ele morreu? Claro que morreu! Seria impossível escapar de tanta bala – sentenciou o cavaleiro Messias, que só entendia de bala.

Pitando seu cachimbo no alto de uma palmeira, o saci matutava: “Morreu nada, seus trouxas. Saci é apenas uma ideia boa, que nem a democracia. Batem em nós, ferem, tentam destruir, mas não morremos. A democracia é imortal que nem eu, o saci-pererê, e como todas as ideias boas que existem no mundo.”

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