Crítica de Democracia em vertigem!

 

 

 

Navegar no caminho da autocrítica ainda é preciso

Érico Andrade

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Filósofo, psicanalista, professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

 

Por que o filme Democracia em Vertigem nos emociona? É pelo seu trabalho de memória. É quando a memória da diretora Petra Costa passa a ser uma memória compartilhada. Uma memória coletiva, poderíamos dizer.

Do seu primeiro vídeo de aniversário, ainda no fim da ditadura, para o vídeo em que Petra Costa (adulta) aparece fazendo a campanha para aquilo que será a primeira vitória de Lula há um trabalho de lembrança tanto preciso quando documental. O caráter documental do filme é transcrito na decisão de relatar as mudanças do discurso de Lula por meio de uma seleção cirúrgica das suas falas nos programas eleitorais. A gradação do discurso de Lula em direção à conciliação aproxima-o da vitória; consumada em 2003. O retirante nordestino, que mobilizava milhares de pessoas quando sindicalista no ABC, já mobilizava agora milhões que fizeram a esquerda eleger o seu primeiro presidente. Era tempo de esperança.

É na narrativa dessa vitória que as lágrimas roubam nosso rosto, inteiro. Mais precisamente, é o discurso de posse de Lula, cuja narrativa é pano de fundo para a seleção de imagens dos mais diversos movimentos sociais chegando para a sua posse em Brasília, que nos faz mergulhar naquela atmosfera de esperança.

Lula é a maioria do Brasil. É Silva. Com ele o Brasil se reconcilia, pelo menos em parte com a sua história, quando negros e negras têm acesso à universidade, pessoas são assistidas com o bolsa família e com os mais diversos programas sociais. Lula deu dignidade ao Brasil pela primeira. É por isso que na montagem do filme é destacado logo em seguida o momento áureo do governo Lula. O momento em que Obama formado em Harvard e presidente da maior potência do planeta diz ao metalúrgico de São Bernardo que “ele é o cara”. Mais do que isso; que o ama e que Lula é o político mais importante do planeta.

No entanto, mesmo com toda essa popularidade Lula foi incapaz de fazer a reforma política no seu mandato. Legou para a sua sucessora – escolhida por um processo desprovido de uma consulta mais ampla – um sistema político plasmado num fisiologismo e corrupção que longe de serem combatidos eram naturalizados como endêmicos na política nacional.

E é com Dilma que a memória de Petra Costa encontra mais uma vez uma dimensão coletiva. É memória social. A sua mãe esteve presa na ditadura no mesmo presídio em que Dilma esteve em Minas. A apresentação de Dilma no filme é absolutamente comovente especialmente quando a própria Dilma faz uso de sua memória e diz como suportou a ditadura. A tortura. Na voz dela nossas lágrimas escorrem. Dizia a presidenta: “então você pensa: mais um minuto, mais dois e vai se enganando, tentando superar algo que é iminentemente humano que é a dor”. A Dilma coração valente nos corta com as suas palavras muito mais do que com as suas expressões invariavelmente serenas. A revolta de Dilma saberemos mais na frente está dentro dela. É interna. Mas não a exime de uma inabilidade política que o filme não explora na sua radicalidade. Novamente, nossos afetos foram mobilizados sem que passássemos por uma experiência de autocrítica mais radical dos anos de governo do PT.

O mundo em que Petra Costa nasceu era o mundo que os seus pais queriam transformar, segundo o seu próprio depoimento. O resto do filme é a narrativa de como esse mundo, assim como a democracia, é vertigem. Um acidente na história do Brasil que mostra a sua face mais cruel com a eleição de um discurso autoritário e paradoxalmente antidemocrático. Os erros do PT não foram poucos, mas sem dúvida ganharam uma dimensão bem maior com trabalho da imprensa de associar o PT apenas aos escândalos e corrupção que foram perfeitamente canalizados por uma direita misógina, patriarcal, heteronormativa, elitista e sobretudo hipócrita.

O filme é a memória de uma mulher branca, privilegiada e ciente do seu lugar de fala que articula a sua vida pessoal com o renascimento e morte da democracia brasileira. Mas, é também um filme que mostra que a política de conciliação encontrou o seu fim com o fim do governo do PT. Precisamos nos reinventar. Fazer uma autocrítica que Democracia em Vertigem faz apenas lateralmente. Do contrário, corremos o risco de falar apenas para nós mesmos.

 

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