4 de junho de 2026

 E agora Bolsonaro?

18 de maio de 2019, Bruno Lima Rocha

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Vou tentar refletir para além da ironia, sendo que a
primeira versão deste texto saiu na madrugada de 17 de maio. Está difícil, mas
vamos lá. Na 6ª escutei a primeira parte do programa diário de Reinaldo
Azevedo, em rede nacional, na Band News. Ele simplesmente estraçalhou o
presidente eleito, julgando-o acertadamente por haver compartilhado um texto
anônimo – não tão anônimo assim, já me revelaram – onde simplesmente ele,
Bolsonaro, se levasse a cabo o que ali estava escrito, deveria desistir. Reinaldo
Azevedo pediu em rede nacional a renúncia do Coiso, isso estourando uns dois
milhões de ouvintes. Por mais que o âncora que saiu da Veja e é autor de boa
parte dos neologismos lacerdistas tenha independência editorial, a dimensão do
atrevimento é proporcional ao desastre do desgoverno Bolsonaro.  

Vamos aos fatos. Um presidente da república, por mais
alucinado que seja – e este ultrapassa Jânio Quadros em seus momentos mais
transloucados – não pode postar na internet como se fosse um deputado
chauvinista aferrado à sua própria base de ressentidos da caserna. Ocorre que
Bolsonaro se comporta exatamente assim, e já circula certa convicção – dita em
alto e bom tom por outro ícone do udenismo, Luiz Felipe Pondé, na tarde de
sexta 17 de maio na Rádio Guaíba de Porto Alegre – onde mesmo a direita
reconhece que não há nem plano de governo e tampouco as infelicidades do
Twitter (como o chuveiro dourado) se tratam de tática. É linha mesmo. Não tem
manobra, e o plano – se é que há – é literalmente incendiar o país, ainda que
com temas de ódio e intolerância.

É sintomática a revelação através de vazamento do MPRJ do
sigilo bancário do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e de 88 ex-funcionários do
gabinete deste quando deputado estadual e do próprio pai. Se levantarem a
cortina, literalmente pode aparecer de tudo, de tudo. Se Queiroz abrir a boca,
outro tanto pode saltar. A soma da sandice, das suspeitas, da incompetência, do
desmando (como na demissão do presidente do INEP com 17 dias no cargo), das
derrotas no Congresso (uma depois da outra) vai ao encontro de duas situações
únicas. Do lado direito do jogo político, os grupos de mídia que saíram
perdendo querem forra. Abril, Estado, Folha e Globo, além de IstoÉ, querem
recuperar o espaço perdido e apostam as fichas primeiro em Rodrigo Maia e
talvez ainda salvem Sérgio Moro, talvez. Do lado mais à esquerda, e com
razoável unidade, o protesto de 15 de maio representou a possibilidade concreta
da sociedade brasileira não se render.

Parece que a ficha vai caindo, afirmando o óbvio: Bolsonaro
não tem jeito, que a aposta das direitas foi muito errada, e que este governo
pode levar o país ao caos. O vice é potável para o andar de cima, sendo o
segundo consenso na era Coiso a afirmação de que a ala militar é o que resta de
capaz e competente no governo. É pouco, muito pouco. Paulo  Guedes, Chicago Boy de  carteirinha e “superministro” da
Economia parece que perde seus superpoderes e os de Moro têm mais kriptonita do
que o Vigilante estaria disposto a engolir. Bolsonaro se auto sabotou duas
vezes ao menos esta semana, se desmentindo quanto à vaga de Moro no STF (teria
ou não acertado?) e depois com o texto macabro, produzido por um mentecapto
financista do Rio de Janeiro. As outras peripécias foram mais do mesmo. Enfim,
parece que realmente não há saída, ainda que Olavo de Carvalho tardiamente se
retire de campo – algo que vejo quase como impossível.

Não seria de se duvidar um “afastamento” do
presidente por razões de saúde, talvez após a realização da Copa América do
Brasil. Há evidente descontrole e o próprio Paulo Guedes parece não ter mais a
energia necessária para executar a liquidação do país. Mas, reparem, vejo o
momento como de desgaste de Bolsonaro, protagonismo de Rodrigo Maia e
preservação de Hamilton Mourão. Estaria cedo para alguma visibilidade de
impeachment – o trânsito deveria ser perfeito dentro do rito, tal como Eduardo
Cunha o fez com Dilma Rousseff – e creio que este governo pode se acostumar a
viver na crise. O que certamente algo que a direita não bolsonarista não
aturaria. Temer foi duro na queda e se manteve no cargo contra a PGR e a Globo
ao mesmo tempo. Não sei se Bolsonaro aguenta tanto, e lembremos que a PGR ainda
não entrou no circuito, mas o MPRJ sim.

A Câmara parece que vai andar sozinha e tentar aprovar um
substitutivo da Reforma da Previdência por conta própria. Maia também aventa
andar com alguma reforma tributária, “sinalizando” para os agentes de
mercado sua solidez. Por esquerda, se a organização em defesa da universidade e
da educação pública brasileira acumular por mais um mês, teremos a chance de
reverter a sanha reacionária, ao menos em parte. Governo não cai de podre, mas
se derruba ou tem o tapete puxado por quem o estendeu.

Há que se perguntar sempre. Será que o vice Mourão vai
entrar na etapa acelerada tipo Itamar Franco em 1992, se escondendo do titular
para entrar em campo através dos “braços dos poderes restantes”? Quem
mandou trocar a farda pela demagogia na internet reacionária? A cada dia,
Hamilton Mourão pode ser a chance de assumir o governo e perder de vez o
prestígio das Forças Armadas na sociedade brasileira. Será que Villas-Bôas
ainda pode arbitrar esta aventura?

Bruno Lima Rocha é
cientista político, pós-doutorando em economia política, professor de relações
internacionais e de jornalismo; e participa do Grupo de Pesquisa Capital e
Estado (https://capetacapitaleestado.wordpress.com/)

E-mail e Facebook: [email protected]

 

 

Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista formado pela UFRJ, doutor e mestre em ciência política pela UFRGS, professor de relações internacionais. Editor do portal Estratégia & Análise (no ar desde setembro 2005), comentarista de portais nacionais e internacionais, produtor de canal estrangeiro e editor do Radiojornal dos Trabalhadores.

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