MUSA COBIÇADA

Quando Quintana disse que “a poesia não se entrega a quem a define”, penso que, talvez, ele estivesse chegado à conclusão fática de que a poesia, quando é poesia, é autoexplicativa e atinge o seu objetivo sem intermediações tradutoras; toca o âmago de quem a escuta e lê, e ali se contextualiza e reconfigura, acomodando-se à vivência e às “leituras” dos interlocutores.

Em todo o caso a poesia, ou o caminho para ela, é sempre uma construção, uma trilha, um polir-se, um captar, um aguçar as sensibilidades. Um receber a mensagem e decodificar o sentimento. E cabe ao poeta “estar” em condições para expressar, pois é “em estando” que a poesia se manifesta.

É um grande desperdício forçar a vinda da “musa”. Ela vem quando quer. Surge sem aviso prévio. No trajeto para o trabalho, no silêncio, no barulho, em meio à multidão; e é preciso confessar que nem sempre ela é escrita, mas sentida e, por vezes, “perdida” nas camadas da alma; fossilizada no inconsciente, podendo regressar como um “retorno do reprimido” de versos ainda não bem articulados e em busca da perfeição.

O eu lírico é esta entidade que, desperta em nós, materializa em texto a poética captada. Um momento transcendental a que denominamos epifania. A hora em que tudo parece se movimentar para uma ordem, para um esclarecimento óbvio, como acender a luz e ver claramente as coisas em seus devidos lugares.

A poesia é um modo de dizer aquilo que não pode ser dito de outra forma; de revelar o segredo em parábolas para que só “os fortes a compreendam”.

 

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