Associação de Médicos pede reação à invasão dos Hospitais de Campanha

"Instigar o ódio aos serviços de saúde e seus trabalhadores, principalmente durante a grave crise sanitária que atravessamos, é um ato criminoso", escreveu em carta aberta

Foto: INGRID ANNE/BBC

Da Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia, ABMMD

Carta aberta da ABMMD às entidades médicas sobre a invasão dos Hospitais de Campanha

Fortaleza, 13 de Junho de 2020

A Associação Brasileira de Médicas e Médicos pela Democracia vem por meio desta clamar por um posicionamento urgente do Conselho Federal de Medicina (CFM), da Associação Médica Brasileira (AMB), da Federação Nacional dos Médicos (FENAM), dos Sindicatos Médicos de todo Brasil e de todos Sindicatos representativos de trabalhadores da Saúde, em defesa da vida, da dignidade humana, de nós, médicas e médicos, e de todos os profissionais que compõem a força de trabalho em saúde do país, face a mais uma demonstração da necropolítica implementada pelo Presidente Jair Bolsonaro.

Seguindo o rumo de seus nefastos pronunciamentos, onde o desdém às vítimas do covid-19 predomina, a ponto de ignorar reiteradamente o número crescente de mortos pela doença, na última quinta-feira, 11 de junho, convocou seus apoiadores a invadir hospitais, filmar e coagir profissionais de saúde, colocando em risco a saúde e direito a privacidade de cidadãos brasileiros.

Em decorrência desta má conduta, no dia 12 de junho de 2020, o Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência para atendimento a COVID no Rio de Janeiro, foi invadido e depredado por seguidores do presidente, sob o pretexto de verificar a disponibilidade de leitos. São pessoas movidas pelo obscurantismo e que já atravessam a fronteira da razão, do bom senso e do respeito.

É inaceitável a invasão de um ambiente hospitalar, onde são acolhidas pessoas debilitadas e portadores de doenças infecto-contagiosas, a violação da privacidade dos internos, a destruição de equipamentos necessários ao cuidados em saúde, a exposição de médicos e demais profissionais (que já enfrentam cotidianamente a falta de condições adequadas para autoproteção e manejo adequado de seus pacientes), trazendo riscos adicionais e  completamente injustificáveis a todos. Instigar o ódio aos serviços de saúde e seus trabalhadores, principalmente durante a grave crise sanitária que atravessamos, é um ato criminoso.

Frente tamanha afronta a médicas e médicos, trabalhadoras e trabalhadores da Saúde e seus pacientes e ao grave perigo que, sob vários aspectos, tal convocatória submete a saúde da população brasileira, é inadmissível o silêncio e a omissão das entidades representativas destas categorias. É imprescindível uma reação à altura a fim de preservar vidas humanas, ao direito à saúde bem como a dignidade e a integridade física e psíquica dos profissionais, evitando prejuízos ainda maiores e talvez irreversíveis à nossa sociedade.

Instamos pois que as instituições acima citadas se coloquem veementemente contra esta convocatória do senhor Presidente da República cuja  intenção é, mais uma vez,  somente obscurecer a trágica realidade de uma doença grave, que se alastra por todo território nacional, responsável por bem mais que 40.000 mortes,  assim como assumam uma posição clara e firme, junto a outros setores e instituições democráticas, para que que, diante da pandemia de COVID19,  o Presidente da República , respeitando rigorosamente as recomendações científicas e o decoro do cargo,  cumpra com seu dever constitucional de zelar pelo bem-estar, pela saúde e pela vida de seu povo.

 

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