O samba do Brasil que odeia, por Carlos Motta

Nestes tempos mais que sombrios vividos pelo Brasil, eis que surge uma composição que reflete de modo perfeito o que muitos, mas muitos mesmos, estão sentindo agora

Por Carlos Motta

De quando em quando surgem músicas emblemáticas, que marcam uma geração, um período da história – e que ficam para sempre na memória popular.

É o caso, por exemplo, de “O Bêbado e a Equilibrista”, da dupla João Bosco/Aldir Blanc.

Ou de “Coração de Estudante”, de Milton Nascimento e Wagner Tiso.

Nestes tempos mais que sombrios vividos pelo Brasil, eis que surge uma composição que reflete de modo perfeito o que muitos, mas muitos mesmos, estão sentindo agora. “Sonho Estranho”, de Moacyr Luz e Chico Alves, não é só um samba belíssimo – é aquilo que a gente tem preso na garganta, que oprime o nosso peito, que amordaça a nossa voz.

É uma obra-prima.

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Sonhei que despertei

Noutro país

Onde as pessoas tinham balas de fuzis

E o povo andava sem razão de ser feliz

Era um país fora da lei

Sem diretriz

Embarcação sem direção

Tentando em vão

Colher a paz plantando a guerra

 

Confesso que senti

Muita saudade do lugar onde aprendi

A caminhar com as pernas tortas de Mané

E respeitar que cada um tem sua fé

A me encantar com a negra voz de Mãe Quelé

E pelas doces mãos de Cosme e Damião

Levar Jesus ao Candomblé

 

Nesse sonho ruim que eu me via

Nem a poesia falava por nós

Tantos versos sem ter poesia

Canção não havia

Ninguém tinha voz

E pisando meus pés no espinho

Cantava baixinho Nelson Cavaquinho

O Sol vai brilhar outra vez

Tirando a dor do caminho

 

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Agora eu já não sei

Se foi quimera ou foi real

O que sonhei

Se ainda estou noutro lugar ou se voltei

Á velha pátria, mãe gentil

Onde eu nasci

Ou se ela, enfim, se transformou no que tá aí

Ando com medo de acordar nesse Brasil

Do sonho estranho que vivi

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