
O mercado só analisa a política fiscal sob a ótica do superávit primário. É o seu negócio. Mantido o superávit, há espaço para o pagamento de juros elevados e o ganho está assegurado. Como o mercado só pensa no superávit primário, o Ministério da Fazenda e a Secretaria do Tesouro também só se importam com o superávit primário. E o problema não está no superávit primário mas na maneira como Fazenda e Tesouro vêm gerindo as contas públicas.
***
Os desarranjos na execução orçamentária trouxeram de volta o anacronismo do contingenciamento orçamentário.
É um retrocesso.
Contingenciamento é a prática mais predatória e nociva possível para as contas públicas. No começo do ano são definidos recursos para cada Ministério. Começa-se o trabalho, monta-se a licitação, contrata-se a empresa e inicia-se a obra. No meio do caminho sobrevem o contingenciamento. As obras são interrompidas ou se perdem e, quando retomadas, implicam em gastos muito maiores do que os previstos inicialmente.
Coube à própria Dilma Rousseff, enquanto Ministra-Chefe da Casa Civil no governo Lula, interromper a parafernália do contingenciamento com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) justamente para proteger obras consideradas prioritárias dos cortes indiscriminados.
***
É o caso da Política Nacional de Defesa. Trata-se de um dos setores onde compras públicas com alta tecnologia permitirão montar um dos pilares da próxima etapa de desenvolvimento do país – ao lado do complexo industrial da saúde, da infraestrutura e do pré-sal.
Houve uma longa caminhada para recuperar o setor, que culminou com um decreto de 2012 criando novos horizontes.
Agora, estima-se um contingenciamento de 20% nas verbas federais incluídas no PAC. O discurso interno do governo é que os recursos saem com atraso, mas saem. Para empresas pouco capitalizadas atrasos em pagamento podem significar a morte.
As maiores resistem. As médias e pequenas são obrigadas a desmobilizar quadros técnicos, perder pesquisadores e cientistas, para não quebrar.
***
Hoje em dia há disponível um conjunto inédito de instrumentos de política industrial: compras públicas, financiamento, políticas industriais definidas, leis de incentivo fiscal, universalização do ensino. O Brasil desenvolveu todas as peças para um salto rumo à nova etapa da economia.
Só que todo esse edifício está assentado no alicerce podre da má execução fiscal.
***
O Secretário do Tesouro Arno Agustin é um militante gaúcho, conhecido por sua integridade e lealdade. E pela absoluta incapacidade de dar conta de missão tão complexa, como gerir as contas públicas. Ora, se o quesito competência não é mais pré condição para indicação de secretários, mesmo em postos chaves, onde se vai parar? Nenhum pessoa – mesmo a presidente da República – tem o direito de expor o país dessa maneira, ao escolher de forma errada seus auxiliares e, por teimosia, persistir no erro.
Esse é o grande desafio de Dilma, na caminhada pela reeleição: convencer a opinião pública de que o segundo governo não estará mais exposto ao voluntarismo e centralização que caracterizaram o primeiro.
Dos três candidatos, é a única capaz de conduzir um programa de desenvolvimento, permitindo ao país ingressar com força na próxima etapa, baseada na retomada dos investimentos.
Mas precisa cair a ficha que seu maior adversário é seu estilo e temperamento.
maria cecília p binder
12 de setembro de 2014 10:01 amsuperavit primário
OK, Nassif. Agora precisa contar isso para a Dilma. E Deus nos livre do que virá se ela perder essa eleição! Ainda mais com a grande imprensa batendo nela e no PT sem parar. É de dar náuseas. Cecilia Binder
Áureo
12 de setembro de 2014 1:10 pmParece que o governo Dilma
Parece que o governo Dilma não é um governo de continuidade, pois neses primeiros quatro anos não tivemos avanço em nenhuma area – social- saude-mobilidade-infraestrutura- parece que foi preciso 04 anos para arrumar a casa, despresando todos os oito anos de Lula, digo isso porque não se falou em nenhum momento em coisa nova, simplesmente não andou.
Agora precisa de mais quatro anos para fazer novos projetos, não dá pra acreditar em nada desse governo, não tem planejamentom, não tem rumo, não tem competencia minima esperada.
Tem apenas um projeto de poder baseado em compra ‘legalizada de votos’.
Tem bolsa pra tudo menos para infraestrtura e desenvolvimento, gasta-se com coisas que até entendo necessárias, mas gordura uma hora acaba, e é preciso ter alguem que pense no amanhã.
Bruno Cabral
12 de setembro de 2014 11:08 amOrçamento
Talvez se ele fosse feito sobre a realidade e nao sobre a suposta arrecadacao, nao precisaria de contigenciamento.
Digo isso porque ja vi uma secretaria de estado montando um orçamento anual. “Isso vai gastar quanto?” “Poe dez milhoes” sem nenhum estudo, proposta, projeto.
É a mesma lógica que permite que numa licitação por exemplo de uma passarela sobre uma rodovia se cobre R$1 milhão, quando não se gasta nem R$ 100 mil para construir. Imagine que o teto da licitação fosse um valor exequivel para a proposta?
O governo ja tem o mais dificil, de onde tirar (bolso do contribuinte). É demais pedir que gaste melhor?
carlos afonso quintela da silva
12 de setembro de 2014 11:13 amA perversidade, Nassif, é que
A perversidade, Nassif, é que o corte está sendo linear. Estão contingenciando recursos para pagamento das grandes e pequenas obras na mesma proporção. Os beneficiados pelo minha casa minha vida estão sofrendo tanto quanto os grandes empresários que têm formas de contornar suas dificuldades, enquanto os pequenos demitem e param obras, gerando angústias na população mais pobre. Não é à toa que hoje já vemos a classe C e D falando em não votar na Dilma.
Nicolas Crabbé
12 de setembro de 2014 12:29 pmCuidado…
Com o acirramento dos ânimos provocado pela proximidade das eleições e o aparecimento de um fenômeno não previsto no cenário eleitoral – a morte de Eduardo Campos e o surgimento da Marina – o nível de intolerância e de catastrofismo dos comentários desse blog tem subido assustadoramente.
Se no passado uma crítica ao estilo gerencial da Dilma já não era bem visto, hoje é considerada crime de lesa-pátria. Por isso cuidado Nassif, você corre um grande risco…
A campanha atual do PT e os comentários do blog se assemelham perigosamente da campanha do PSDB em 2002, brandindo a ameaça de que a eleição do Lula seria o fim do mundo. Hoje a eleição da Marina, de acordo com os comentários que podemos ler aqui, representaria a volta à idade das trevas. Só falta algum ator (só não pode ser da Globo porque a Globo é o inimigo mortal a ser abatido) aparecer na propaganda dizendo “Eu tenho medo”.
Não acredito no projeto da Marina e muito menos no do Aécio, mas dali a concordar com a campanha do medo que o PT está fazendo vai uma distância considerável. Cadê as propostas? Cadê a discussão sobre um projeto para o país? Hoje as campanhas de todos os candidatos se dedicam exclusivamente a atacar e desconstruir o adversário. Triste…
D. Pizzilani
12 de setembro de 2014 12:42 pmOpções
Entendo a posição de Nacif e sua preocupação, apesar de não acompanhá-la integralmente. Faço a oferta de algumas cogitações gerais, não como criticismo, mas em respeito ao debate. De fato, Nacif já está olhando para 2015 com a possibilidade de manutenção do poder pelo PT no próximo mandato. Caso a eleição confirme os seus prognósticos e ratifique o estado de pobreza e deseducação das camadas sociais miseráveis, teremos adiada, por mais 4 anos, a concretização do projeto de Estado Democrático de Direito neste país. Os presidentes oferecidos pelo PT já demonstraram ignorar o que seja essa modalidade de Estado. Não fizeram consulta popular acerca da realização da Copa do Mundo e nem dos Jogos Olímpicos. Em um Estado Democrático de Direito, decisões como essas, de grande impacto econômico e social, devem ser submetidas a plebiscito, com ocorreu na Bélgica, cuja vontade popular rejeitou realização de grande evento. Os projetos petistas, tomados em uma perspectiva macro, não se destinaram a melhorar a vida ou diminuir a infelicidade do cidadão brasileiro. Foram apenas paliativos sociais que visaram contabilização numérica e estatística. Uma coisa é governar sabendo das carências de um povo; outra coisa é governar sob a necessidade de perpetuação como estratégia de ocultamento. Há um blog que enumerou quase todos os projetos do atual governo e suas consequencias inócuas no desenvolvimento social e econômico. Deixo à pesquisa de cada um encontrá-lo. Um dos projetos que chamou a atenção foi o que impactou moralmente a polícia federal. O governo “inventou” em 2009 que as fronteiras do país estavam descobertas. Sempre estiveram e sempre estarão, haja vista a geografia do país e suas proporções continentais impossibilitarem qualquer controle. Não obstante, implantou-se um projeto no qual os delegados da polícia federal são afastados de seus casos, por 60 dias, para ir fazer o que o Exército sempre fez: policiamento de fronteira. Enquanto isso, centenas de inquéritos sob a responsabilidade desses zelosos delegados, que saem das melhores faculdades de direito do país, ficam parados enquanto a prescrição avança impiedosamente para livrar corruptos e corruptores da justiça. A quem interessa isso? A ninguém, em sã consciência. A polícia federal ainda é um dos poucos órgãos que ajuda a estancar as comportas do dinheiro público que estão abertas. O único país que fez essa inversão foi o Brasil, sabe-se lá por que motivo. A educação é outro ponto que, para os petistas, não é vital, ao contrário do que parece. É preciso lembrar que o PT de hoje afastou-se de sua origem, tornando-se um corpo de políticos comum, ideológico. Não há interesse de que as massas sejam instruídas, pois elas são a matéria prima usada em época de eleição. Quanto maior o contigente de brasileiros na zona da miserabilidade e privados de educação formal, tanto mais fácil dominá-los por discursos obscuros e inócuos. A ausência de igualdade no país não se restringe à perspectiva social. Há um interesse político espúrio de manter parte da população na zona da ignorância. Pouco adianta a promesa de que jovens necessitados ingressarão nas universidades pela extinção do vestibular ou aumento de cotas sociais. Sem uma educação de base, eles serão reprovados, quando lá estiverem, como já ocorre. É um sofrimento desnecessário a essa juventude, e uma crueldade criar o desejo de estar na universidade sem a qualificação necessária. Somente pessoas que não têm amor pelo estudo concebem a universidade como uma instituição qualquer, um título a mais. Quando se chega ao ponto de edifícios e construções desabarem por erros de cálculo, é hora de as universidades mostrarem o que são e aumentarem o rigor, como estão fazendo. O índice de reprovação nos bacharelados, das univesidades de maior expressividade, elevou de 2012 até agora. De outra sorte, o lamentável incidente com Eduardo Campos, ainda por ser explicado, promoveu um deslocamento das intenções de voto, da única pessoa que estaria em condição de suceder a presidenta, para sua substituta. Caso Eduardo Campos não passasse ao segundo turno, tudo leva a crer que promoveria uma união com o candidato do PSDB – o segundo nome possível e recomendado para a sucessão. O PSDB não é a melhor opção, mas é a única racional para um país que está perdendo o sentido de seus valores históricos para um sistema político de improviso e obcecado por ideais obsoletos. Marina é uma pessoa honesta e sincera, mas sua eleição traria de volta o fantasma da eleição do Vice.
LC
12 de setembro de 2014 1:15 pmQuem mais dá os motivos para tirar a Dilma…
… é o Nassif, em vários artigos do blog.
O Secretário do Tesouro Arno Agustin … conhecido por … absoluta incapacidade de dar conta de missão tão complexa, como gerir as contas públicas.
Você afirma que o Secretário do Tesouro é absolutamente incompetente para um cargo importantíssimo. Quem o escolheu ? Muito pior do que isso, quem o mantém? Já nem critico mais o Mantega, porque agora a situação dele é um filme de terror, humilhação pública e degradação na frente de milhões de pessoas. Um cara honesto e leal (apesar das minhas críticas) não merece esse tratamento.
… desafio de Dilma… convencer a opinião pública de que o segundo governo não estará mais exposto ao voluntarismo e centralização que caracterizaram o primeiro
Quem deixou o voluntarismo e a centralização tomarem conta do governo? Você fala como se a Dilma não tivesse admitido o surgimento de todos esses problemas.
… seu maior adversário é seu estilo e temperamento
Tudo bem, as pessoas podem mudar. Quando, nos últimos quatro anos, alguém ouviu (e vc é uma pessoa próxima do Poder) a Dilma admitir que precisaria controlar o estilo e temperamento? A Marina tem problemas semelhantes, mas você consegue imaginar a Dilma mais 4 anos com a repetição de todos esses problemas? E ainda tem gente que se diz petista torcendo pela Dilma. Mais quatro anos dela e em 2018 o PT não elege nem síndico de prédio da periferia.
O mercado só analisa a política fiscal sob a ótica do superávit primário. É o seu negócio. Mantido o superávit, há espaço para o pagamento de juros elevados e o ganho está assegurado.
Então você está me dizendo que todos os analistas “conservadores” que discursam diariamente pelo corte de gastos na realidade gostam da situação atual, de absoluto descontrole do gasto público, para que o sistema financeiro ganhe mais juros? Isso não tem sentido. Nosso déficit nominal (que é o conceito usado pelo mundo civilizado) é 4% do PIB. O certo (para a nossa condição de desenvolvimento, sem ser emissor de moeda forte) seria ZERO, como o Delfim recomendava quando o Lula assumiu o governo.
Independentemente da linha política, alguém aqui que esteja no setor público, usando de toda a sinceridade, será que não é possível cortar 4% do PIB no orçamento sem grandes traumas no orçamento, só contendo o disperdício? Alguém aqui duvida que com deficit nominal zero a Selic poderia ficar até abaixo do patamar que a Dilma colocou em 2012 ?
PS: Déficit nominal em outros países do mundo: Turquia (1,5% do PIB de déficit nominal), Chile (1% do PIB), Colômbia (0,7% do PIB), México (2,6% do PIB), Peru (superávit nominal de 0,6% do PIB e China (2% do PIB).
DanielQuireza
12 de setembro de 2014 1:49 pmÉ meio que consenso que a
É meio que consenso que a Dilma vai mudar a politica economica e a equipe em um segundo mandato.
Creio que ela devesse fazê-lo já, chamando de volta o Nelson Barbosa para ministro e o Nelson Machado (ou outro bom nome) para o cargo de secretário executivo do tesouro.
Nâo é fácil cortar 4% do PIB, todo ano, para chegarmos a déficit nominal zero, talvez seja uma meta que deva ser defendida para uns 4 anos para frente. Mas eu ainda creio qeu o melhor seja termos um conceito de superávit real, e isso após o pagamento dos juros. Ai sim ficará claro a questão fiscal do País.
É preciso fazer um grande trabalho de organização contábil das contas públicas com relação aos subsídios (explicitação) dados e também com relação ao INSS.
Concordo com voce em relação a 2018, se o Governo Dilma continuar no mesmo rumo. Aliás, em 2014, agora, o PT ja vai fazer uma eleição pífia de Governadores. Mas política é sempre incerto. Se FHC não tivesse tentado a reeleição e dado de bandeja a eleição a Lula, certamente ele poderia voltar em 2002. Ele imaginou que o PSDB ganharia fácil em 2006 e se deu muito mal.
De qualquer forma, vamos aguardar. Não considero a eleição de Marina uma catástrofe, como muitos pintam, mas ainda prefiro a Dilma.
luisnassif
12 de setembro de 2014 4:29 pmLC,
há dois vícios
LC,
há dois vícios recorrentes nas polêmicas pobres.
1. Criar suposições sobre o que o contestado não disse. Pegue um argumento qualquer, absurdo, e diga se o contestado disse isso, logo ele quis dizer aquilo.
2. Pior ainda: criar suposições sobre o que o contestado disse. Se disse e está lá, não tem como supor nada: é fato.Esse é o pior, porque parte-se da malandragem anterior e não se confere que o argumento está dito no próprio texto contextado. O texto é claríssimo na condenação da Dilma pela indicação do Arno. O que você está questionando, então?
LC
12 de setembro de 2014 4:38 pmNão estou te questionando,
estou concordando com você em quase 100%. Se o tom foi meio pesado, desculpe, não era dirigido a você, mas sim aos “convertidos”.
Só reitero que o setor financeiro morre de medo de um governo eficiente com deficit nominal zero, porque teria de voltar a atividade fim, emprestar para o setor privado e correr riscos. Como está hoje (Bacen que aumenta Selic e Fazenda com estímulo a crédito, tudo ao mesmo tempo), a vida deles é duplamente maravilhosa…
Clever Mendes de Oliveira
12 de setembro de 2014 9:59 pmConcordo em parte com ressalva de que Nassif pode estar errado
LC (sexta-feira, 12/09/2014 às 10:15),
Este comentário pode aparecer em duplicata, pois houve problema na finalização dele e ele pode ter sido enviado enquanto eu o corrigia. Observo ainda que eu não tinha visto um comentário que o Luis Nassif enviou hoje, sexta-feira, 12/09/2014 às 13:29, para você, questionando a sua argumentação.
Sou leigo em economia e não parece ser esse o seu caso. De todo modo é como leigo que eu tenho discordado da maioria das críticas que você faz da política econômica. Parece-me que você se apega muito a doutrina dos austríacos e eu os considero muito afastados da realidade econômica.
Aqui neste post “Os desacertos da política fiscal” de sexta-feira, 12/09/2014 às 06:00, de autoria de Luis Nassif eu me sinto confortavelmente tendente a concordar com a maneira como você inicia o seu comentário. Diz você:
“Quem mais dá os motivos para tirar a Dilma… … é o Nassif, em vários artigos do blog”.
Agora se você considera todo o post “Os desacertos da política fiscal” você há de concordar que a mão que apedreja é a mesma que afaga. Enfim, o Luis Nassif dá os motivos para tirar a presidenta Dilma Rousseff, mas não vê opção alguma entre os outros candidatos. A minha mão mais afaga. Considero os outros candidatos bons candidatos, mas concordo muito mais com a ideologia que move a administração da presidenta Dilma Rousseff.
Agora, o problema de você apoiar o Luis Nassif, reproduzindo os motivos de Luis Nassif para tirar a presidente Dilma Rousseff, ainda que para Luis Nassif os motivos não seriam suficientes para tirar a presidenta Dilma Rousseff, é que os motivos de Luis Nassif estão, em meu entendimento, equivocados.
Observe que, após um primeiro parágrafo que eu não vou entrar no mérito da correção do conteúdo dele, Luis Nassif diz:
“Os desarranjos na execução orçamentária trouxeram de volta o anacronismo do contingenciamento orçamentário”.
Também não entro no mérito desse parágrafo que eu transcrevi acima, ainda que o termo desarranjo, para o que eu pressuponho o Luis Nassif queria dizer, pareceu-me inadequado. Aceitando o termo desarranjo, eu vou repetir a frase de Luis Nassif concordando com ele. Houve desarranjos na execução orçamentária e eles trouxeram de volta o contingenciamento orçamentário que é um anacronismo.
Só que Luis Nassif não disse em que consistiam os desarranjos na execução orçamentária. Pois bem, na suposição de que Luis Nassif esteja referindo às dificuldades de ordem financeira para a execução orçamentária eu diria que os desarranjos, resumidamente, podem ser considerados como recursos de menos. Ressalte-se ainda que Luis Nassif não fez nenhuma tentativa de caracterizar qual seria a origem dos recursos de menos. Os recursos de menos são de duas ordens. Os previstos em decorrência de benefícios fiscais e isenções e neste caso não se pode falar em desarranjos porque eles já estavam previstos. E os que apareceram de supetão. O que surgiram sem tir-te nem guar-te. Os de inopino. Esses sim causaram desarranjos.
Em relação aos recursos de menos imprevistos, eles são tomados como imprevistos porque não houve nenhuma conjectura sobre eles em 2012, na elaboração da Lei Orçamentária para 2013. Para entender um pouco mais sobre eles, talvez valesse a pena perscrutar a origem deles. Quando da execução do orçamento de 2013, os desarranjos vieram no calor da queda do PIB no terceiro trimestre.
A previsão quando se fez o orçamento de 2013 era que a economia se deslancharia em 2013. E pelo menos assim pareceu que seria. A última referência que eu tenho para o 4º trimestre de 2012 e que foi publicado nos “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Outubro/ Dezembro de 2013” é que ele cresceu 0,9% em relação ao terceiro trimestre de 2012. E para o 1º trimestre de 2013, a última referência que eu tenho e que saiu quando da divulgação do PIB trimestral referente ao 1º trimestre de 2014 e se pode ler na página 6 dos “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Janeiro/ Março de 2014” é que o 1º trimestre de 2013 cresceu 0,4% quando comparado com o trimestre imediatamente anterior.
É de se observar que no primeiro semestre de 2013, quando se executa o orçamento de 2013 e se elabora no executivo o orçamento de 2014 a economia transparecia recuperação. E parecia que tudo ia ainda melhor durante o 2º trimestre de 2013. Tanto assim que no final de agosto de 2013 quando foi divulgado o PIB do 2º trimestre de 2013, a informação constante na página 5 dos “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Abril / Junho de 2013” foi de que o 2º trimestre de 2013 crescera 1,5% em relação ao trimestre imediatamente anterior.
Na época eu duvidei dos cálculos do IBGE. Havia um exagero naquele crescimento. Todo trimestre crescendo naquele ritmo significaria um crescimento de 6% ao ano. Imaginei que nos levantamentos seguintes os valores seriam corrigidos até se chegar um valor mais próximo de 1% que me parecia algo mais razoável. A última correção e que aparece na página 5 dos “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Abril / Junho de 2014” mostra um crescimento de 2,1% do 2º trimestre de 2013 comparado com o 1º trimestre de 2013. O que representaria, se anualizado, a um crescimento de mais de 8%.
É bem verdade que quando se divulgou o PIB do 2º trimestre de 2013, em final de agosto de 2013, já se sabia que a economia tinha estagnado. As manifestações de junho de 2013, mais que afetado a popularidade da presidenta, atingiram em cheio o crescimento econômico. Segundo o que consta na página 5 dos “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Abril / Junho de 2014”, o PIB no terceiro trimestre de 2013 decrescera 0,6%. O fascículo com os “Indicadores IBGE – Contas Nacionais Trimestrais – Indicadores de Volume e Valores Correntes – Abril / Junho de 2014” pode ser visto no seguinte endereço:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Contas_Nacionais/Contas_Nacionais_Trimestrais/Fasciculo_Indicadores_IBGE/pib-vol-val_201402caderno.pdf
Em 2012, na elaboração da Lei Orçamentaria Anual para 2013, quem poderia fazer previsão do movimento de junho de 2013? E mesmo depois que ele ocorreu, o que se poderia esperar em relação ao PIB tanto de 2013 quanto de 2014? Eu não tenho dúvida que a queda no 3º trimestre de 2013 foi decorrente do movimento de junho de 2013, mas onde mais você já leu sobre esta relação? E mesmo aqui quando eu afirmo isto, não trago mais do que a autoridade de um leigo.
Bom, mas como você pode ver em relação ao quarto trimestre de 2013, a economia se recuperou. A bem da verdade a peça orçamentária para 2014 já havia sido encaminhada ao Congresso Nacional. Ela fora encaminhada antes do 4º trimestre de 2013, e ainda sob o baque que acontecia no 3º trimestre. Como os investimentos cresciam e havia indícios de que o PIB ia retomar a sua trajetória, o orçamento de 2014 também foi feito supondo certa folga no crescimento. Aliás todos faziam projeções de crescimento mais robusto em 2014. O que ocorreu e que talvez se possa dizer que não foi de inopino foi a necessidade das economias dos países emergentes se prepararem para a retomada de juros nos Estados Unidos.
Não era algo totalmente imprevisto, mas no início de 2014, os Bancos Centrais dos países emergentes foram todos pegos de contra-pé. Talvez pelo tamanho da nossa economia que tem força para dar mais autonomia ao Banco Central, talvez pela competência das pessoas que foram escolhidas para administrar o nosso Banco Central, a reação do Banco Central do Brasil no início deste ano de 2014, diante da crise que se avizinhou para os países emergentes, foi considerada como uma reação de liderança entre os diversos Bancos Centrais. É o que se vê junto ao post “EM central bankers: guiders, reactors and Mavericks” de segunda-feira, 03/02/2014 às 03:34, no blog Beyond Brics e que infelizmente não teve muita repercussão no Brasil. Por EM deve-se entender “Emerging Markets”. O endereço do post “EM central bankers: guiders, reactors and Mavericks” é:
http://blogs.ft.com/beyond-brics/2014/02/03/em-central-bankers-guiders-reactors-and-mavericks/
Só que a expectativa de crescimento na qual se apoiou o orçamento de 2014, não conseguiu fazer a previsão com correção, e imaginou uma taxa de crescimento da economia mais substancial do que a que atualmente ocorre. De todo modo, no mundo todo, as previsões de crescimento para o ano de 2014 tem diminuído. Diminuição que vem sendo feita ao longo do ano. E devemos utilizar como comparação a Turquia e a Rússia, países que estão atravessando crise de mesma proporção que a brasileira neste ano de 2014.
Quanto ao contingenciamento que é um modelo anacrônico de corte de gastos, seria interessante que as pessoas que criticassem o modelo apresentassem um modelo mais moderno e que seja operacional.
Quanto à competência do Secretário do Tesouro, Arno Agustin, eu não o aconselho a seguir as avaliações de Luis Nassif. Ele tem uma maquininha que consegue medir objetivamente a competência dos nossos homens públicos. Infelizmente, ele não a disponibiliza para ninguém. Vai lá que ela esteja com defeito, e depois ele faz a correção. Em uma situação assim, como é que você fica?
Tivesse mais tempo eu diria mais alguma coisa, mas deixo para depois. Tento apenas dar uma explicação para justificar a escolha da Turquia e da Rússia para comparação com o Brasil. Na verdade eu gosto de mencionar os seguintes países. O México, mas sempre o considerando junto com os Estados Unidos. Os Estados Unidos, mas sempre considerando aquele país como um caso a parte. O Irã, Nigéria e Indonésia pelo tamanho e população, mas sempre levando em conta a renda per capita deles e se tratarem de países exportadores de petróleo. A Argentina, mas mais em função da área e, sendo da América do Sul, ser a segunda maior população da região. A Turquia e a Rússia, embora a Rússia deva ser vista um pouco a parte em decorrência do petróleo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 12/09/2014
DanielQuireza
12 de setembro de 2014 1:39 pmDilma precisa trazer de volta
Dilma precisa trazer de volta à fazenda o Nelson Barbosa e o Nelson Machado. Seriam bons nomes para um segundo mandato.
Juliano Santos
12 de setembro de 2014 1:57 pmMas esse Arno Agostin já não
Mas esse Arno Agostin já não saiu? Ou estaria em vias de? Senão me engano li aqui mesmo que seu prestígio estava em queda e sua saída uma questão de tempo
Alberto Cunha
12 de setembro de 2014 2:40 pmAh, então o Brasil só não
Ah, então o Brasil só não cresce mais por causa da personalidade da Dilma?
Vejamos, ela não tem nenhum “cobra” em posição importante. Cercou-se de ministros e secretários fracos, de inexpressiva personalidade, que seguem à orientações de Dilma como os cães seguem o líder da matilha.
Exemplos: Mantega, Zé Cardoso, Augustin…
A verdade é que a tão fala competência gerencial da Dilma mostrou ser uma peça de ficção. Ela é apenas centralizadora ao extremo, mas dessa centralização “não sai coelho”. E os tais assessores parecem mais preocupados em agradar à chefe do que trabalhar para melhorar o destino do Brasil.
joao
12 de setembro de 2014 3:57 pmela precisa entender
O mais dificil
Precisamos passar a outra etapa e independente dela, ela esta nesta posicao e presidencia para acabar um projeto. Este nao eh um trabalho somente pessoal dela e pertence a todos nos como cidadao brasilerio.
Temos que acabar o que comecou.
Para passar a outras questoes.
Alexandre Weber - Santos -SP
12 de setembro de 2014 3:57 pmDilema Tostines
Se a taxa de juros cai, aumenta a arrecadação e diminui o deficit, que alimenta uma baixa da taxa de juros.
Moleza com credibilidade dada por um governo que tenha claro seus objetivos, ou seja , com Estrela, Rumo e Norte.
Fora disto, impossível.
Rodrigo C Moreira
12 de setembro de 2014 5:27 pmVamos falar sério
Vamos falar sério aqui.
Alguém acha, realmente, que a Dilma irá seguir a linha sugerida – corretamente – pelo Nassif?
Eu aposto uma caixa de cervejas – de uma das (ótimas) microcervejarias nacionais que ficaram fora do Simples – que a Dilma nao apenas ignorará o que seus críticosa/apoiadores mais razoáveis estão lhe sugerindo como vai aprofundar seus defeitos.
A Dilma não tem nada a perder. Não tem reeleição para se preocupar. Não é política, portanto nao tem futuro político para se preocupar.
A hora dela é agora. O mandato dela será esse. E vai ser do jeito dela. Ela nao vai ouvir o Lula, nao vai ouvir o Nassif. Só vai ouvir a si mesma.
Eu aposto.
Adoraria perder essa aposta. Mas, infelizmente, parece ser esse o futuro que a Dilma nos reserva.
Jérsão
12 de setembro de 2014 5:58 pmO contingeciamento
vem afetando, também, a própria estrutura administrativa da União. Há vários órgãos, o mais importante deles o Banco Central, próximos a uma crise de RH e que não conseguem liberação do MPOG para nomear servidores já aprovados em concurso. Este corte uniforme e cego é estúpido e antieconômico, pois os servidores se aposentam antes de transferir seus conhecimentos (especialmente os tácitos) aos novos, gerando uma perda enorme de conhecimento, o que virá, certamente, a impactar o desempenho de sua missão.
E questões como o seguro desemprego, permanecem intactas. Se puxarem pela memória, ainda há não muito tempo, as parcelas do SD eram três e foram aumentadas para quatro e depois cinco parcelas em função do aumento das taxas de desemprego e aumento do tempo do desemprego friccional. Hoje, com taxas próximas do pleno emprego e o tempo do friccional reduzido, mantêm-se as cinco parcelas. O SD desemprego, que é por definição um instrumento de política econômica anti-cíclica, atua neste momento, como pró-cíclica, oferecendo um elevado número de parcelas quando há setores com dificuldades de contratação. Tudo isso a um custo superior a R$ 50 bilhões por ano e que continua crescendo. Mas, querer discutir isso em ano eleitoral é sacrilégio. Melhor ir cortando 20% indiscriminadamente.
Calvin
12 de setembro de 2014 6:35 pmPróxima etapa?
“há disponível um conjunto inédito de instrumentos de política industrial:…”
Isso é anos 70 Nassif, tem que pular etapas, o mundo hoje é outro, montar uma política industrial em cima de um mercado que será substituido (petróleo) é ficar para trás! O foco deve ser grafeno, lítio, INOVAÇÕES, e não REPETIÇÃO de etapas percorridas por outros países no passado!
A China fez isto, ao invés de se fixar em fazer caças que seriam cópias mal feitas de MIGs e F-18s, está a fazer viagens interplanetárias tripuladas!
AS Neto
12 de setembro de 2014 8:13 pmNem vou ler o post…
Prezado Nassif,
Sou funcionário público da esfera estadual faz cinco anos e posso garantir a você que o orçamento já sai do planejamento com 20% das dotações contingenciadas. Sempre foi assim, desde que entrei.
Eu mesmo tentei, no final do exercício passado, descontingenciar essa parte da dotação do órgão em que presto serviço para realizar uma contratação que efetivaria parte da nossa política pública e o planejamento negou.
Tivemos que simplesmente entregar menos do que nos propunhamos e o governo nem ligou. Aliás, ligou porque agora que estamos em período eleitoral, pergunta o que aconteceu que nós não fizemos!
Até onde eu saiba, isso tem relação direta com superávit-primário, que no estado onde eu trabalho, é PRIORIDADE ZERO. Seguida, é claro, da proliferação das OSs que substituem o estado na prestação de serviços públicos.
Abraços!
André
Lucinei
12 de setembro de 2014 10:00 pmFalta um esclarecimento. Eu
Falta um esclarecimento. Eu tenho a impressão – e é só uma impressão – que em todo exercício os ministérios, secretarias, etc., etc. se danam a exeecutar todo e qualquer recurso que esteja previsto no orçamento. E eles são estimulados a fazerem isso porque se no final do exercício não tiverem executado todo o orçamento correm o risco de terem este diminuído no período seguinte, como se tivessem dinheiro acima da capacidade de gastar.
Como a evolução das receitas é estimada – por isso também o “mercado” fica com o outtro olho na arrecadação – num determinado momento pode acender uma luz dando sinal pro famigerado contingenciamento.
Ou seja, não sei se é por causa dos atributos personalíssimos do secretário do tesouro que isso acontece. O que ele poderia fazer que não está fazendo? Ou, ao contrário, o que ele está fazendo que não deveria fazer? O tal contingenciamento, pura e simplesmente? Enttão é ele que decide, vou fazer contingenciamento e pronto? Ele deveria, então, pra ontem falar que não vai mais fazer contingenciamento nenhum? Há alguma possibilidade de se alterar lei, sistemas, monitoramento ou qualquer outra coisa que não exija que tudo dependa somente de caaraacterísticas personalíssimas, idiossincrasias e veleidades pessoais?