Uma fábula carnavalesca, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um conto de um país que viu sua tradição absorvida pelo poder e censurada por fanáticos, mas que se reinventou com a conspiração popular

Uma fábula carnavalesca

por Fábio de Oliveira Ribeiro

 

Num país muito muito distante, tão distante que tentava de todas as formas se distanciar de seu próprio povo, existia uma festa popular. Ninguém sabe exatamente ela começou. Mas todos tinham certeza de que aquela festa conseguiu se enraizar profundamente no país.

Durante séculos, a festa foi encarada de maneira ambígua. Uma parte da elite se disfarçava e se entregava à folia, enquanto a outra tentava de todas as maneiras proibi-la imaginando que a farra fomentava a sedição ao abolir as hierarquias sociais. A repressão, entretanto, custava caro e gerava grande ressentimento popular.

Certa feita, porém, um grupo de líderes conservadores teve uma ideia genial. Eles perceberam que poderiam utilizar a festa para aumentar seus lucros, reduzir as despesas com a repressão e fomentar a solidariedade social sem romper com a estrutura hierárquica da sociedade.

Foi assim que aquela festa popular se transformou num símbolo do país e num produto de exportação. Ela expandiu o potencial do turismo, garantiu o aumento dos lucros dos empresários e melhorou a arrecadação fiscal das cidades em que era estimulada pelo poder público. Algumas décadas depois, as economias de imensas regiões do país se tornaram dependentes daquele fenômeno popular elevado à condição de tradição oficial.

Entretanto, e apesar de ter sido capturada por líderes conservadores visionários, um punhado de fanáticos nunca deixou de nutrir grande ressentimento e ódio por algo que eles consideravam uma celebração herética e pagã. Aquele bacanal publicamente organizado tinha que ser proibido, em nome de Jesus.

O tempo passou. E num dia tempestuoso e feio, aquele país distante muito distante resolveu uma vez mais se distanciar de sua realidade. O poder político foi colocado nas mãos dos fanáticos. O que se seguiu foi uma verdadeira tragédia.

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Nas cidades governadas pelos fanáticos, a festa deixou de ser incentivada pelo poder público. O declínio do turismo provocou uma desgraça econômica. A queda na arrecadação fiscal se tornou uma realidade inevitável. Mas o pior ainda estava para acontecer.

A festa popular voltou a ser desprezada e violentamente reprimida. Policiais começaram ser instruídos a agredir e a prender os foliões. Tropas montadas e motorizadas foram despachadas para proibir a realização de desfiles populares nos bairros pobres. Marchinhas, fantasias e faixas contra os poderosos foram censuradas. O toque de recolher começou a ser cogitado e informalmente imposto em diversas localidades e cidades.

Foi assim que as polícias cometeram um erro histórico imperdoável. Elas passaram a agir como se fossem as SS nazistas na França ocupada.

Ressentida, marginalizada e agredida, a população voltou a nutrir um ódio imenso contra os governantes fanáticos. Cansados das proibições ilegais, magoados por causa das agressões criminosas e infelizes em virtude da supressão violenta de sua apoteose temporária de felicidade, os populares voltaram a conspirar. Aquilo que podia ser e que, de fato, havia sido apenas uma festa lucrativa foi rapidamente transformado num fenômeno sério e politizado.

Ninguém sabe exatamente como essa história vai terminar. Ela ainda está em curso. Sabemos, porém, que os militantes da resistência francesa esfolaram impiedosamente todos os nazistas que caíram em suas mãos. Alguns anos depois eles foram expulsos da França. Os líderes do III Reich que sobreviveram à guerra foram caçados, presos, processados, condenados e enforcados na Alemanha. E o clima de festa pode então retornar à Paris. Ele certamente retornará àquele país que nunca conseguirá ficar distante muito distante de sua festa popular.

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