Hy-Brazil: terraplanagem, por Arkx

Não basta a terraplanagem para nivelar com qualquer profundidade, ainda se deve inverter a lógica, por mais obviamente absurdo que se seja.

Hy-Brazil: terraplanagem, por Arkx

dentro da bolha BolsoNazi a Terra é plana e a Guerra Fria nunca acabou.

impera despótico o pensamento binário. a intensidade é monofásica e contínua. o monólogo gira em torno de alternativa única.

um mundo onde a política não pode ser senão bidimensional.

sempre “nós” contra “eles”: povo eleito x goyim, Terra Prometida x Faixa de Gaza, condomínios fechados x favelas, colégios particulares gourmet x escolas públicas abandonadas, kafta x Kafka.

liberdade individual acima de tudo, business acima de todos.

agora, ao se chocar com a solidez do deserto do real, virou pó. explodiu. com isto, atrapalhou os negócios. e por prejudicar os negócios, compromete a liberdade individual, compreendida fundamentalmente como a liberdade para fazer negócios e acumular riqueza.

ainda assim, cabe analisar com atenção o texto repassado por Bolsonaro.

antes de somente ser mais um delírio próprio dos nascidos e vividos dentro de bolhas, sem qualquer contato com a miséria brutal de um Brasil do qual  sequer reconhecem a existência, há diversos trechos de perturbadora lucidez.

como:

“Desde a tal compra de votos para a reeleição, os conchavos para a privatização, o mensalão, o petrolão e o tal “presidencialismo de coalizão”, o Brasil é governado exclusivamente para atender aos interesses de corporações com acesso privilegiado ao orçamento público.

Querem, na verdade, é manter nichos de controle sobre o orçamento para indicar os ministros que vão permitir sangrar estes recursos para objetivos não republicanos.

FHC foi reeleito prometendo segurar o dólar e soltou-o 2 meses depois, Lula foi eleito criticando a política de FHC e nomeou um presidente do Bank Boston, fez reforma da previdência e aumentou os juros, Dilma foi eleita criticando o neoliberalismo e indicou Joaquim Levy.

Descobrimos que não existe nenhum compromisso de campanha que pode ser cumprido sem que as corporações deem suas bênçãos. Sempre a contragosto.”

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Paulo Portinho – autor de texto compartilhado por Bolsonaro

apesar da correta identificação da falência de um sistema político sequestrado pelas mega corporações, nenhuma lucidez pode durar o bastante na Terra Plana, assim logo a frente o delírio se impõe definitivo:

“Agora, como a agenda de Bolsonaro não é do interesse de praticamente NENHUMA corporação (pelo jeito nem dos militares), o sequestro fica mais evidente e o cárcere começa a se mostrar sufocante.”

embora os fatos sejam visto com a exatidão de como eles são, a conclusão só pode ser apresentada distorcida da perspectiva de quem se é.

não basta a terraplanagem para nivelar com qualquer profundidade, ainda se deve inverter a lógica, por mais obviamente absurdo que se seja.

e Bolsonaro já não é mais o parlamentar vulgar com 27 anos de mandatos medíocres e muito pouco realizado, e sim o arauto da “nova política”. e mesmo “o eleito por Deus para comandar o Brasil”.

Bolsonaro venceu as Eleições de 2018 porque encarnou o candidato outsider e anti-sistema, personificando o sentimento “contra tudo que está aí”. entretanto, ninguém melhor do que Bolsonaro para representar o que há de pior na classe dominante no Brasil.

a aplicação das “medidas impopulares”, rejeitadas por quatro vezes nas urnas, só podia se dar através de um golpe de Estado. Bolsonaro é a continuidade deste golpe por meio de eleições fraudadas. tanto pela via jurídica (impedimento da candidatura Lula), quanto por uma campanha manipulada por fake-news e financiamento ilegal.

contudo, a superação das consequências sociais, econômicas, políticas e institucionais do Golpeachment só se viabiliza, paradoxalmente, pela aplicação de “medidas populares”.

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ou seja, fazer o grande empresariado pagar o pato de uma crise por ele gerada.

esta contradição não apenas está dilapidando vertiginosamente o capital político de Bolsonaro, como fará o mesmo com qualquer que seja seu sucessor.

por exemplo, o General Mourão.

“Agora eu somente via um mundo bidimensional. Infinito na largura e no comprimento. Mas sem altura. Sem o céu. Onde estava o céu, eu indagava. Está lá, eles me respondiam. Mas eu não podia vê-lo, não podia vê-lo. Comecei a entrar em pânico.

Se fosse apenas não ser capaz de enxergar o céu sobre nosso vilarejo, estaria tudo bem. Mas nossos próprios pensamentos perderam profundidade. Eles também se tornaram bidimensionais. Nós compreendíamos apenas “sim” e “não”. Somente “preto” e “branco”. Não havia tons de cinza. Sem meio-tons, sem também capacidade de auto-preservação.”

“Without Sky”, Nathan Dubovitsky,

também conhecido como Vladislav Surkov, consultor particular de Putin.

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