Moro balança, mas não cai?, por Lincoln Barros

Vivemos já um longo período de barbárie política assumida desde o golpe, barbárie teatralizada em pré-estreia na votação da admissibilidade do processo de impeachment da Dilma, contra o PT vale tudo.

Moro balança, mas não cai?

por Lincoln Barros

Os acontecimentos dos últimos dias, causados pela #Vazajato, colocam o país, dividido como sabemos, de novo em uma nova encruzilhada, de caminhos que podem nos levar só Deus sabe onde (se Ele existir e souber…). Pretendo apenas um pequeno resumo dos fatos e a percepção de alguns analistas para justificar isto[1].

Começando de domingo, 23, a parceria The Intercept / Folha de São Paulo publicou novos vazamentos que, primeiro, confirmam a autenticidade das mensagens, liquidando os argumentos de sua manipulação e confirmam a parcialidade do “juiz” e o controle da operação do MPF por ele, acrescentando ainda novas revelações sobre a ilegalidade do processo: a influência nas ações da PF, a manipulação das informações dos inquéritos sobre políticos com foro privilegiado, ocultando-as do STF, associado às críticas à ação do Teori e a proposta de direcionamento e posterior desculpas aos #TontosdoMBL. Em conjunto com as revelações anteriores, tudo isto caracterizando como estrutural o modus operandi absolutamente ilegal da lavajato.

Como já exaustivamente repetido, isso seria suficiente em qualquer país não surrealista para processar o Moro e seus parças e libertar o Lula.

Porém, estamos no Brasil. Nos últimos dias, além das já costumeiras manifestações contrárias aos absurdos diários perpetrados pelo governo Bolsonaro, ao lado das pesquisas indicando a progressiva queda de sua popularidade, recrudesceram manifestações de protesto no âmbito da #Vazajato. No campo jurídico, OAB, associações de magistrados e outros, internacionalmente enorme repercussão, manifestações de rua e nas redes sociais e com uma novidade, o início da adesão dos grandes meios de comunicação, a própria Folha e a Rede Bandeirantes.

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Em qualquer país sério, isto seria suficiente para uma mudança de cenários e pelo menos alguma manifestação governamental no sentido de apurar os fatos.

Porém, estamos no Brasil. Nada disso afeta os interesses principais da nossa elite escravagista, associada aos interesses externos e encastelada nos três poderes da república. Vivemos já um longo período de barbárie política assumida desde o golpe, barbárie teatralizada em pré-estreia na votação da admissibilidade do processo de impeachment da Dilma, contra o PT vale tudo.

Por outro lado, o núcleo do governo Bolsonaro avança rapidamente na sua trajetória autoritária, já apropriadamente chamada de “chavismo às avessas”. Referências constantes a inimigos internos, ameaças ao congresso, armas para a população com fins políticos (aliás, declaração que configura crime de responsabilidade e fica tudo por isso mesmo), demissão de ministros e tensão permanente, aproveitando o alto nível de descrédito da população nas instituições: em pesquisa recente, 38% acham justificável fechar STF (índice que vai a 52% entre os que se declaram de direita), 22% fechar o Congresso, 35% aceitam golpe militar, 58% insatisfeitos com a democracia e, cereja do bolo, 70% de confiança nas Forças Armadas.

É, estamos mesmo no Brasil.

Voltando ao Moro e aos seus argumentos no Senado, melhor uma citação: “Sua aposta é que os poderes da República assumirão de vez que o Estado de direito é uma farsa e varrerão para baixo do tapete o mais grave escândalo de corrupção do Judiciário de que já se teve notícia no país.” (no GGN, “O arbítrio disfarçado desliza para o arbítrio escancarado”, por Luis Felipe Miguel).

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[1] Basicamente artigos no GGN e Carta Capital

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