O adoecimento do Brasil: Ana Laura Prates no Cai na Roda deste sábado

Prates usa conceitos como o 'retorno do recalcado' e laço social para ilustrar este cenário de luto institucionalizado. Assista

TV GGN

Jornal GGN – O adoecimento mental e coletivo da sociedade brasileira, exacerbado condução da nação por um governo autoritário e pela crise sanitária consequência da pandemia da Covid-19, é abordado pela psicanalista Ana Laura Prates no Cai na Roda deste sábado, 10 de abril, programa exibido na TV GGN

Integrante dos Fóruns do Campo Lacaniano, pesquisadora do LABEUB/Unicamp e colunista do GGN, Prates usa o conceito de ‘retorno do recalcado’ para ilustrar o que vem acontecendo na entranha social do Brasil. “Isso [todo esse adoecimento] é efeito de um certo retorno, o chamado ‘retorno do recalcado’, ou seja, não adianta varrer a sujeira para debaixo do tapete que ela volta. Tudo aquilo que foi varrido para debaixo do tapete na nossa construção enquanto sociedade brasileira está voltando agora, estamos vendo defuntos saindo das tumbas para nos assombrar”, disse.  

“O racismo que era negado, a questão indigena, a questão da ditadura, essa última tão mal tratada, mal trabalhada, mal elaborada, contraria a posição até de outros países da própria América latina que lidaram com isso de uma outra maneira, agora volta. Afinal, sabemos que aquilo que não é simbolizado uma hora volta e da pior forma possível”, explicou. 

Segundo a psicanalista, a enfermidade brasileira tem sido sentida no próprio consultório. “Nas últimas semanas eu tenho tido com frequência em algumas sessões de eu precisar fazer um tipo de intervenção muito atípica da minha clínica: de precisar falar, produzir uma narrativa, contextualizando e legitimando o que o sujeito está sentindo, quase como se fosse um trabalho de luto, mas em uma situação coletiva, de luto coletivo”, contou. 

Prates ressaltou, no entanto, que paradoxalmente “é saudável as pessoas estarem sensibilizadas com o que está acontecendo e inclusive se permitirem esses momentos de tristeza e desespero”. 

Neste cenário, ela falou sobre a importância do indivíduo ter acesso à terapia, para não deixar isso produzir uma paralisação e encontrar formas de não apagar o desejo. “O desejo é o que temos de mais vivo. É com o desejo que iremos poder reagir, resistir e ter força para a reconstrução que vem aí”, completou. 

Os efeitos do laço social 

Em uma outra frente de análise, Prates destacou os desdobramentos do laço social, a fim de explicar o autoritarismo que nos cerca.  “Ao longo da história, nós notamos que – às vezes – o laço social produz algumas anomalias bastante importantes. Podemos usar como exemplo mais notável e conhecido o nazismo, infelizmente tão longe de ser o único”, disse.

“O nazismo foi muito trabalhado enquanto uma patologia do laço social, ou seja, aconteceu alguma coisa das relações como a desigualdade social, crescimento da insatisfação com os políticos e principalmente o discurso de ódio, que tomou como alvo uma determinada parcela da população”.

Ela destaca este fenômeno com o Brasil de Jair Bolsonaro (sem partido), uma vez que “essa é uma estrutura que, em última instância, tem uma política de eliminar o outro, o diferente”. 

A tradicional família cristã e sua influência sobre o negacionismo 

Segundo Prates “as religiões institucionalizadas são frutos de uma relação de poder e é essa a relação dos sujeitos com a religião, que de alguma maneira oferece pronto um script para o sujeito que quiser negar, fazê-lo colocando tudo nas mão de Deus”. 

Ela critica este modelo de uso da família enraizado no Brasil. “Foi pego um determinado conceito de família, feito um recorte sem nenhuma crítica, com um grande desconhecimento inclusive da história, e isso foi tomado como equivalente à verdade e uma única forma de se estabelecer relações de intimidade”, explicou

“Isso é extremamente pernicioso, não tem nada a ver com a relação que as pessoas possam ter com a espiritualidade, isso é fundamentalmente uma relação de poder, ancorada num processo muito grave de negação que traz consequências muito graves ao longo da história”, disparou. 

Participaram deste episódio as jornalistas Lourdes Nassif, Cintia Alves, Patricia Faermann, Ana Gabriela Sales e Maria Eduarda Cambraia (estagiária). Assista a íntegra:

Sobre o Cai na Roda

Todos os sábados, às 20h, o canal divulga um novo episódio do Cai Na Roda, programa realizado exclusivamente pelas jornalistas mulheres da redação, que priorizam entrevistas com outras mulheres especialistas em diversas áreas. Deixe nos comentários sugestão de novas convidadas. Confira outros episódios aqui:

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