10 de junho de 2026

Chegamos ao fim da leitura?

Por Eliana Rezende

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Publicado originalmente no blog Pensados a Tinta

 
 
De novo sobre leitores e leituras. Instigando todos a pensar um pouco:

 

 

 

Em “Utopia de um homem que está cansado”, Borges descreve o encontro do narrador com um homem de quatro séculos, que vive no futuro – ‘um homem vestido de cinza’, cor que envolve os mensageiros da estranheza em vários contos do escritor argentino – e que faz assustadoras revelações. Uma delas é a extinção da imprensa, “um dos piores males do homem, já que tendia multiplicar até a vertigem textos desnecessários”. (BORGES, 2001, p. 84)

À revelação do desaparecimento da imprensa no mundo do futuro, o narrador responde com um longo discurso:

“Em meu curioso ontem (…) prevalecia a superstição que entre cada tarde e cada manhã acontecem fatos que é uma vergonha ignorar. O planeta estava povoado de espectros coletivos, o Canadá, o Brasil, o Congo Suíço e o Mercado Comum. Quase ninguém sabia a história anterior desses entes platônicos, mas sim os mais ínfimos pormenores do último congresso de pedagogos, a iminente ruptura de relações e as mensagens que os presidentes mandavam, elaboradas pelo secretário do secretário com a prudente imprecisão de que era própria do gênero.
Tudo se lia para o esquecimento, porque em poucas horas o apagariam outras trivialidades. (…)
As imagens e a letra impressa eram mais reais do que as coisas. Só o publicado era verdadeiro”
. (BORGES,1995, p. 85)

A verdade é que neste tempo distante e assustador extinguiram-se não apenas os jornais, mas também os museus e as bibliotecas. Inexistem monumentos, feriados ou espaços de rememoração; inexistem cidades.

Tal como ocorre aqui no texto de Borges, a leitura parece ser feita sob muitas circunstâncias, para o esquecimento.

Gostaria de levá-los a repensar a literatura e suas relações com seus leitores e o contexto de produção de suas obras.

Isso porque a leitura sempre vai além do texto. É preciso tomar em conta o leitor, o escritor, o texto. a época em que o texto é produzido bem como o tempo em que o mesmo é lido. Cada texto assim pode ser sempre recriado, reinventado a cada vez que é reinterpretado e/ou assimilado. Mas vejo que cada vez mais essa forma de ler parece ser algo bem além do que nossa civilização seja capaz de fazer. Distraídos, dispersos e na maioria das vezes ávidos apenas pelo novo que chega, deixa essa possibilidade de leitura para trás.

Para este caso, a leitura talvez esteja encontrando o seu final. O déficit de atenção e a indisposição pela verticalização inviabilizam este tipo de leitura.

A literatura (seja ela de ficção ou não-ficção) e provavelmente seus autores terão que tomar esse dado além dos suportes e grau de interação possível e provável.

Tempos novos, interessantes e de muitos desafios.

Felizmente acho que muito poucos ainda põem em questão o término do livro.

Há algo aqui que envolve a qualidade de leitores. O bom leitor é arguto, perspicaz e caminha com o escritor. Busca todo o tempo interlocução de idéias e conteúdo. E talvez aqui exista a maior fragilidade a ser vencida. O verdadeiro leitor é antes de tudo um ser crítico. Não no sentido pejorativo de gostar ou não das coisas, mas no sentido de saber ser interlocutor fazendo as perguntas adequadas ao lido e as transpondo para seu universo de atuação. 

É assim que se constrói repertório: ler; questionar; reformular e aplicar.

Cada vez mais as pessoas acabam reproduzindo o lido é neste sentido que quero instigar os leitores a irem além do escrito e propor novos caminhos para antigos questionamentos.

Caso queira aprofundar esse tema sugiro a leitura da série de posts que fiz sobre Escritores e Leitores em tempos digitais que você pode clicar aqui, e aqui e também aqui.
 
Referências:
 
Danziger, Leila – O Jornal e o Esquecimento
 
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6 Comentários
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  1. Auricleide Andrada

    13 de julho de 2014 2:45 pm

    Excelente texto Eliana. Esta

    Excelente texto Eliana. Esta tua chamada para uma verdadeira criticidade dos leitores. Estamos em uma época do copiar e colar. Há uma carência do pensar, repensar e dialogar com o texto escrito, como autor,enfim… acho que os caminhos na era da internet, das redes sociais precisam de um criterioso cuidado: um leitor que para ser bem formado tem que ser um garimpeiro e percorrer os caminhos que elencastes tão bem na matéria: “Chegamos ao fim da leitura ?”. Li junto com a minha menina de 10 anos, observando as imagens que colocastes neste texto. Ela adorou. Obrigada. Muito didático.

    1. Eli Rezende

      13 de julho de 2014 6:26 pm

      Chegamos ao fim da leitura?

      Ol@ Auricleide…

      Muito grat@!

      Fico muito feliz de poder instigar, provocar, incentivar…

      Nos ultimos tempos tenho me dediado muito ao tema da leitua e escrita em tempos de imediaticidade. Vcs terão mais postagens neste sentido aqui no Blog do GGN e tbm no meu, o Pensados a Tinta. 

      Te incentivo a ler os posts relacionados onde aprofundo ainda mais estas questões. 

      Adorei saber que tenho tbm uma pequena leitora! Que delicia isso!

      Abs e voltem sempre, será um prazer!

      Eliana

      1. helcio dias de sa

        13 de julho de 2014 11:24 pm

        Chegamosma fim da leitura.

        Sou um analfabeto funcional aos 66 anos e leio bastante coisas leves.Frequentar biblioteca,teatros,museus,jamais.Parece campos de concentraçao,assustam  as pessoas.entrevista com intelectuais na tv,não é somente depriomente,afasta até pagador de promessas.Em sintese.Essas porcarias de jornais de 25 centavos tem um publico viciado que os leva para dois ou tres leitores diariamente.se o conteudo é fraco o vicio da leitura nao pega.Todo mundo tem um celular qiue os obriga aate a ressuscitar letras mortas KKKK,isso é um bom inicio,pois sou do tempo que lia somente placa de onibus.Emfim,todo intelectul é um chato de galocha e afasta o publico,alem dos livros seram caros carissimos ,a sabedoria popular nao tolera revistas e jornais bandidos.

        1. Eli Rezende

          14 de julho de 2014 1:03 pm

          Chegamos ao fim da leitura?

          Ol@ Helcio,,,

          Temos o mundo da extensão que queremos. Simples assim…

          Abs

          Eliana

  2. Mariano S Silva

    13 de julho de 2014 7:59 pm

    Que maravilhosa lucidez,

    Que maravilhosa lucidez, Eliana!!!

    1. Eli Rezende

      14 de julho de 2014 1:05 pm

      Ol@ Mariano…
      A lida

      Ol@ Mariano…

      A lida constante com os aspectos em torno da leitura, escrita e produção de conhecimento acabam sendo responsáveis por algumas perspectivas que tenho. 

      Gosto de pensar que de alguma forma posso inquieta e instigar, como disse acima.

      Abs e muito grata pela leitura

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